Gabriela chegou praticamente correndo pela escadaria do prédio antigo que dava teto à Reconvexo. Mal deu boa tarde à recepcionista e entrou na sala dos professores, tentando ser o mais discreta possível, sentando ao lado de Patrick. Pôde perceber Maria Laura a olhando inexpressiva na cabeceira da mesa, com aquela pose de chefe e dona de tudo, que ela odiava. Ninguém ali era pra ser chefe de ninguém, pensou. Mas as coisas, obviamente, fugiram do seu controle. Maria Laura gostava do poder. Sempre criticava a ex esposa, dizendo que ela tinha uma visão muito romantizada das coisas, que um negócio não pode ser tocado desse jeito e que toda instituição tem de ter uma hierarquia. Mas Gabriela não ligava. Não poderia mudar seu jeito de ser, e olha que já tinha tentando mil vezes. Essa era ela.
_Nós já tínhamos dado início à reunião, Gabriela, espero que você não se importe. - Ela disse, e Gabriela podia jurar que havia um tom de ironia em sua voz.
_Claro que não. - Sua voz saiu mais ríspida do que pretendia, tanto que ela mesma se assustou. Nos últimos meses, a única coisa que Maria Laura fazia era irritá-la, até quando não tinha intenção de fazê-lo. Ela simplesmente se irritava com tudo que viesse da ex mulher.
_Até que enfim, bicha! - Pode ouvir Patrick sussurrar de canto logo depois que Maria Laura voltou a falar. Sorriu timidamente pro amigo e voltou a atenção à reunião.
Aquela era a última reunião daquele ano, antes de todos saírem para o curto recesso das Festas. Nela eles discutiriam o processo de seleção para as aulas de férias e para a peça de teatro anual da Escola. A Reconvexo não parava nunca e Gabriela tinha grande parte nisso. Começou como uma escola regular, tendo férias junto das municipais.
Mas um dia, ela percebeu que isso não bastava. Haviam as crianças que pagavam uma mensalidade, é claro. Mas haviam as crianças bolsistas, que tinham na escola sua casa. Crianças carentes, que faziam suas únicas refeições do dia ali e ali se sentiam protegidos para brincar e aprender. Alguns acordavam e iam direto pra lá, para irem a escola regular no turno da tarde. Para esses, havia café da manhã e almoço.
Os que estudavam de manhã, saíam da escola direto para a Reconvexo, almoçavam, passavam o dia e à tardinha uma van exclusivamente da escola os deixava na porta de casa. Com a Reconvexo fechada por três meses, o que seria dessas crianças? Assim surgiu o programa de férias, e junto dele a peça de teatro que era o produto final desses três meses.
O processo de seleção era um jeito de atrair novos alunos para a escola, mas deixava tudo mais divertido, ainda mais que esse ano eles decidiriam adotar um modelo bem atípico. A ideia foi de Gabriela e Patrick: Eles adotariam um modelo "The Voice", com cadeiras virando. O processo de seleção seria transmitido no canal da escola, pelo youtube. Para conseguir "imitar" o The voice, claro, não foi fácil: Várias ligações para a Globo, vários sapos engolidos e papéis assinados.... e eles conseguiram!
A reunião final seria mesmo para decidir qual seria a peça de fim de ano. Todos ficaram incumbidos de trazer suas ideias. Gabriela queria "Os Saltimbancos", de Chico Buarque. Low torceu o nariz. Mirela e Bruno chegaram em um consenso e trouxeram "A noviça rebelde" como sugestão. Outros professores trouxeram várias outras peças, brasileiras e gringas, mas nada parecia encaixar. A peça do último ano tinha sido "Pluft, o fantasminha", e Gabriela queria manter os títulos brasileiros. Low, por sua vez, preferia que fosse algo da broadway para variar.
Até que Patrick, que tinha ficado por último, sugeriu "Annie". Maria Laura amou a ideia, Mirela, Bruno e a maioria dos outros professores também. Mas Gabriela não queria uma peça gringa. E a reunião se foi noite a dentro.
_Pensa bem, gata - argumentava Patrick - Não tem aquele remake de Annie de 2014, em que a menininha é negra? Então, a nossa Annie pode ser negra também, vai ser BA BA DO.
_É, pensando assim... - Gabriela começava a amolecer.
_E outra, a Martinha daria uma Miss Hannigan maravilhosa, não daria? - Marta, uma das professoras de teatro, deu risada junto com Gabriela.
_A Martinha, migo? Esse doce de criatura, fazendo uma mulher alcóolatra e bem bruxona que odeia criança? Viajou. - Gabriela zoou o amigo.
_Ué Gabi, eu sou atriz não sou? Ai eu ia adorar ser uma Miss Hannigan bem bad bitch. Ia poder usar minha risada malígna que eu pratico há anos. - Martinha brincou, e a reunião tomava um ar mais descontraído, no mesmo instante em que Gabriela notou Maria Laura um tanto desconfortável. Talvez por que nunca tinha se permitido ser amiga de ninguém ali.
_Bom gente, acho que já deu né? Todo mundo de acordo com a escolha da peça? - Disse a mulher de cabelos longos, ajeitando o blazer cinza claro na altura do colo.
_Siiiiiim, coloca aí chefa: ANNIE, direto da Broadway para a Rec. Ai amei? - Patrick disse gerando mais burburinho, e Gabriela achou por bem acabar logo com aquilo antes que Maria Laura matasse alguém ali dentro.
_Tá gente, cês me venceram, vamo de Annie. Bora pra casa então? - Gabriela viu todos concordando e logo se despedindo e saindo lentamente da sala. Pensou em sair de fininho sem falar com Maria Laura, mas pelo que conhecia dela, isso só pioraria as coisas.
_Ei, foi mal pelo atraso de hoje. - Disse ela chegando de mansinho perto da ex mulher, que arrumava os papéis da reunião em uma pasta. Maria Laura suspirou e Gabriela pôde perceber toda sua irritação sem que ela falasse nada.
_Eu já estou acostumada com as suas inconsequências. - Aquilo foi como dar um tapa na cara da negra. E então ela percebeu que mais uma vez, estava tentando consertar algo que não tinha conserto.
_Tudo bem, Low, eu não quero brigar. Só queria me desculpar mesmo, e já fiz isso. Te vejo amanhã. - Dizendo isso, ela virou as costas para a mulher e saiu andando, ainda culpada. Maria Laura tinha esse dom infeliz, o de fazê-la sempre se sentir como uma criança que tinha feito coisa errada. Mas no fundo ela sabia que não tinha. E lá fora, Patrick a esperava para irem beber uma cerveja.
- Salvador-
_Vovó! - Amora gritou enquanto corria para o abraço de Lícia, seguida por Davi. A mulher acolheu um neto em cada braço e beijou o rosto dos dois.
_Como foi o último dia de aula dos amores de Vovó? - Perguntou e os dois responderam um "ótimo" e "bom", vagamente. Agora já era começo de noite e todos se encontravam na casa de Lícia para o jantar, inclusive Victor, que tinha se juntado aos outros na praia mais cedo.
_Minha mãe, o que é que tem pra janta? - Perguntou Clarisse dando um beijo na mãe, seguida pela irmã, pelo marido e Victor.
_Tá todo mundo brocado de fome, viu minha sogra? inclusive os pequenos. - Sérgio brincou.
_E quando é que meu povo não tá com fome? - Respondeu Lícia sorrindo - Fiz uma moqueca de camarão, do jeito que meus netos amam.
_Essa vovó hein, vai deixar esses dois muito mimados... - Carolina comentou se jogando no sofá, era bom tirar uma preguiça depois de um dia na praia cuidando de dois furacõezinhos. Pôde ver Amora correndo e pegando o kit de lego que tinha na casa da avó, e chamando o padrinho pra ajudar ela e Davi a montar. Victor e Amora eram apaixonados um no outro, e ela não poderia ter escolhido padrinhos melhores do que ele e Natália. Essa, por sua vez, estava viajando, como quase sempre, e certamente voltaria de Dubai cheia de presentes para a afilhada.
Fechou os olhos naquele pensamento bom, deixando o corpo relaxar. Quando como por ironia, seu celular tocou. "Pai da Amora", dizia o visor, e era uma chamada do facetime. Atendeu e pôde ver os sorrisos de Enrico e sua noiva, Talita, do outro lado da tela.
_Fale Bahêa! - disse ele no visor.
_Responda Miami! - Carolina devolveu a brincadeira. A relação com Enrico e Talita era de amizade. A pequena adorava o pai e a madrasta, e Enrico ligava quase todo dia pra falar com a filha. Morando na Flórida com a noiva, era como ele podia estar presente. Insistia para a menina passar férias na casa dele, mas Carolina ainda não tinha coragem de deixar seu bebê viajar internacionalmente sozinha. Se já surtava na possibilidade da menina no RJ com Clarisse, imagine em Miami, sem ela. Confiava em Enrico e Talita, claro, mas o apego era mais dela do que de Amora, nesse caso.
_Cadê minha filhota? - Ele perguntou e a menina veio correndo e se jogou no colo da mãe, dizendo um "oi" animado. Os quatro conversaram por um tempo, confabularam sobre a viagem ao Rio, sobre as próximas férias, o Natal e o Ano Novo. Enrico não poderia estar presente nas festas, mas certamente mandaria um presente mirabolante para a filha e ligaria para falar com ela. E eram felizes assim.
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O Último Eclipse
RomanceQuando duas almas predestinadas se encontram, é como se houvesse um Eclipse. Uma explosão de faíscas em um abraço, contagiam até quem está assistindo de muito longe. Em pouco tempo são muitas pessoas compartilhando do mesmo sentimento: o frio na bar...
