Como parente que chega de visita sem avisar, a sexta-feira chegou cedo demais. E se a quinta para Gabriela, tinha sido uma brisa de tranquilidade, no dia que se seguia ela estava uma pilha de nervos. Errou a ordem da aula, derrubou café no chão, tanto fez que no meio da tarde estava implorando aos céus para aquela sexta acabar.
Carolina chegava no vôo das 17:00, e como Clarisse estava enrolada até o pescoço com Davi no hospital, dispensou a irmã de buscá-la no aeroporto. A mais velha já havia lhe dito que Amora estaria na Reconvexo àquela hora, o que não lhe agradou muito, mas decidiu ir direto pra lá assinar a bendita matrícula e buscar a filha pessoalmente. De mala e tudo, pegou um Uber e se foi para a escola.
Amora, por sua vez, estava na aula de sapateado com Patrick quando Clarisse ligou para Gabriela. A paulista, que não cabia em si de ansiedade, tinha resolvido que era melhor assistir os pequenos terem aula com o amigo do que ficar sozinha em sua sala, com a cabeça fervilhando de mil possibilidades terríveis do que poderia acontecer dali a algumas horas. Quando o celular tocou, ela sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha.
_Oi, Clarisse. - Ela disse, se afastando um pouco de onde Patrick estava dando aula.
_Nega, Carol chegou. Agora se prepare, porque ela me dispensou de busca-la no aeroporto e ta indo direto praí, só ia pegar as malas. Disse que queria assinar a matrícula logo e pegar Amora. - Gabriela sentiu seu coração descer para o calcanhar. "Eu tô velha demais pra essas coisas", pensou. A baiana ia acabar lhe matando.
_Tá bem, Clara, brigada. - Fingiu uma calma muito mal fingida - Eu vou avisar as meninas que ela tá chegando. - Ao se despedir da Peixinho mais velha, ela respirou fundo e ligou para recepção e para a secretaria. Pediu pra que Amanda separasse a papelada de Amora, e pra que ficasse a postos para quando ela chamasse.
Depois, pediu a Mariana para que desse a melhor recepção possível a baiana, e que a acomodasse direto em sua sala antes de lhe avisar que ela havia chegado. Pediu também para que a recepcionista não informasse Maria Laura da chegada de Carolina. Mariana ficou sem entender, mas se prontificou a atender o pedido da chefe.
Pouco tempo depois, o uber de Carolina estacionou na porta da Reconvexo. Luzes coloridas, placas anunciando a peça anual, cor pra todo lado. Tudo lindo. Respirou fundo e entrou pisando firme, segurando e puxando as malas. Na hora que entrou no prédio e tirou os óculos escuros, no entanto, amoleceu. Que vitrais eram aqueles? Parecia uma construção europeia. Se deixou observar a decoração por um tempo, encantada.
_Carol? - Mariana se aproximou, devagarinho, vendo a baiana lhe sorrir. - Que bom que você veio. Seja muito bem vinda! Posso te ajudar com as malas? - Claro que aquela escola tinha uma recepcionista de cabelo rosa. Claro, pensou. Linda, simpática e de cabelo rosa. Começava a ter raiva de si mesma por estar rendida por aquele lugar, e por sua raiva por Gabriela se dissipar um pouquinho, a cada detalhe novo que via.
_Olha, não, vou recusar! Tudo bom? Como eu te chamo, linda? - Cumprimentou, com o carisma de sempre.
_Mari. Meu nome é Mariana, mas sabe como é, prefiro Mari. - As duas riram - A Gabi me pediu pra levar você pra sala dela, que ela já está chegando com a Amora. Vamos? - Assentiu, o corpo arrepiando ao ouvir o nome da percussionista. - É aqui. Pode ficar a vontade, descansar nos pufes... Elas já devem estar chegando. - Dizendo isso, a recepcionista saiu , deixando uma Carolina completamentre intrigada pela sala onde estava.
Ali, tudo gritava o nome de Gabriela. O cajón no canto da sala, os pufes coloridos, sua mesa bagunçada... Sentiu seu coração apertar ao ver os desenhos colados na parede. Conhecia aquele traço. Eram de Amora. Havia cerca de dez folhas A4 ali, desenhadas e rabiscadas pela menina.Teve um em especial que lhe chamou a atenção: As bonequinhas desenhadas pareciam ser Amora e Gabriela, na praia. Em cima do desenho, dentro de um coração torto, algo escrito na letrinha infantil da filha: "Te amo Gabi". Dali, ela já começava a ter uma noção da dificuldade que seria ficar um fim de semana no Rio de Janeiro.
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O Último Eclipse
RomanceQuando duas almas predestinadas se encontram, é como se houvesse um Eclipse. Uma explosão de faíscas em um abraço, contagiam até quem está assistindo de muito longe. Em pouco tempo são muitas pessoas compartilhando do mesmo sentimento: o frio na bar...
