Depois de conseguir as pressas lugares para Enrico e Talita sentarem, era hora de voltar à coxia. Gabriela assistiria a peça dali e ajudaria com as poucas trocas de figurino e o tempo de entrada e saída de cena das meninas. Não havia nenhum sinal de Maria Laura até então, e por isso, a paulista se sentia até aliviada. Preferia mesmo que a ex não viesse, sumisse do mapa, esquecesse que ela e a escola existiam. Mas isso era um sonho muito mirabolante e ela sabia, Low não desistia fácil assim das coisas. Ainda mais quando se achava dona delas.
Mas sua preocupação agora era com suas alunas, a grande maioria fazendo sua primeira peça da vida, incluindo Amora. A olhava agora
junto das outras, prontas para entrarem em cena e a enxergava extremamente pequena e indefesa, o que a fazia questionar se era prudente mesmo fazer uma menina de sete anos se apresentar com tantas falas, músicas e coreografias na frente de tanta gente.
E se ela errasse, caísse, desafinasse? E se isso lhe traumatizasse para o resto da vida? Não, ela nunca se perdoaria. Estava certo que o papel de Amora nem era tão grande assim, mas mesmo Julia, que tinha o papel principal, tinha apenas onze anos. Era pouca idade pra muita responsabilidade. E em poucos minutos ela questionou toda a existência da escola, até ouvir Patrick dizer do palco:
_A Reconvexo orgulhosamente apresenta: Annie, o Musical! - E pronto, tarde demais. O dançarino saiu, as luzes apagaram e as meninas se puseram em posição, até acenderem tudo de novo pra peça começar. O que quer que estivesse a apavorando agora não fazia mais sentido. E rezou a todos os seus orixás para que as meninas se saíssem bem. Principalmente a sua menina.
No palco, aos seus olhos, Amora cresceu léguas em segundos. Roubou a cena em suas poucas falas, não tropeçou nunca na voz e nem nas sapatilhas. Até parecia estar em casa, brincando.
_Eu te disse que era ela que tinha que ter sido a Annie. - Patrick repetia. E Gabriela, de olhos marejados, deixou que as lágrimas caíssem algumas vezes. Pela primeira vez ela entendia completa e inteiramente, o porquê de Dona Maria Célia se emocionar toda vez que lhe ouvia cantar. É que quando aplaudem um filho, a mãe aplaude cem vezes mais. E quando se vê um filho brilhar é que a gente se dá conta: Crianças crescem rápido demais e não há nada que se possa fazer.
Amora ainda tinha a mesma idade mas estava longe de ser a menininha que ela conhecera a meses atrás. Ali ela concretizou em si o que já sabia, e o que havia dito para Carolina no dia anterior. Era sua filha naquele palco.Sua filha, que agora disse uma simples frase numa cena em que as colegas a aplaudiam, e no embalo, o teatro todo a aplaudiu. Tão forte e tão alto que ela achou que a menina perderia a fala, mas ela deu um sorrisinho orgulhoso e seguiu o script.
E na primeira saída de cena, para que Martinha performasse seu solo de vilã, Gabriela a pegou nos braços sem dizer nada e ficou agarrada com ela até a próxima deixa. Amora sorriu, como se entendesse seu orgulho imenso. Na plateia, Carolina não estava diferente: Como podia o seu bebê, que tinha nascido ontem mesmo, brilhar tanto assim num palco sem mãe, sem pai sem nada? Já havia se emocionado um milhão de vezes.
Quando a peça acabou e as meninas fizeram a reverência era a vez de Gabriela, como diretora, entrar no palco e agradecer aos presentes. Mas não contou com uma menininha quase lhe escalando, o que causou risadas em todos. E com Amora no colo, ela pegou o microfone de Patrick na mão e tentou ser o mais breve possível.
Enquanto falava, passeava os olhos pela plateia e via os rostos conhecidos dos pais de suas alunas, com aquele mesmo olhar marejado e orgulhoso que ela trazia. Se sentia mais cúmplice deles do que nunca. Viu seus amigos, ex colegas de reality, a cunhada, os sogros , a mãe, a irmã. Todos lhe sorriam e lhe aplaudiam com os olhos, e ela se sentiu inflar. Mas ao encontrar um único olhar, bem no fundo da plateia, seu corpo gelou inteiro.
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O Último Eclipse
RomanceQuando duas almas predestinadas se encontram, é como se houvesse um Eclipse. Uma explosão de faíscas em um abraço, contagiam até quem está assistindo de muito longe. Em pouco tempo são muitas pessoas compartilhando do mesmo sentimento: o frio na bar...
