_Então, eu ia comprar a passagem pra sexta, porque Victor quer ir junto ver Amora, mas depois do que você me contou eu tô pensando em trocar pra amanhã mesmo. - Carolina e Gabriela se falavam por telefone no quarto, enquanto Amora e Célia jogavam um jogo de tabuleiro na sala. A tensão entre as duas era nítida até mesmo de longe, mas a paulista se limitou a deixar a soteropolitana a par do que tinha conversado com a pediatra, sem muitos rodeios.
Carolina agora estava preocupada, querendo ver a filha o quanto antes, mesmo já tendo combinado com o amigo de ir na sexta-feira para o Rio e surpreendê-la. Amora nunca tinha tido nenhum episódio de febre emocional na vida. Sabia que a filha era sensível, mas ela sempre foi uma criança feliz e saudável emocionalmente.
_Ah, mas eu acho que vai ser legal você chegar com o Victor de surpresa sabe, fazer uma festa... Ela vai gostar. E outra, de quinta pra sexta, um dia não faz tanta diferença. - Ponderou a percussionista.
_É, pensando assim... - Carolina divagou. - Mas você tem certeza que ela tá melhor mesmo? - perguntou, preocupada.
_Carol, ela tá ótima, acredita em mim. Melhor do que nós duas juntas. Ela e minha mãe se grudaram e estão em estado de graça. - Gabriela assegurou e a baiana de uma risadinha, o coração aquecendo ao pensar na filha brincando com a mãe da mulher que amava. Logo viu Gabriela respirar, como que tomando coragem, e sentiu sua voz apreensiva. - Só tem uma coisa, que eu tenho que te preparar... Não é nada grave, mas... Minha mãe ensinou a Amora a chamar ela de Vovó. - Carolina sentiu seu queixo cair em choque, sem saber o que dizer - E agora, ela não tira o "vovó" da boca. Eu já tentei de tudo, te juro, mas esse "vovó" não morre. - Ela deu uma risada nervosa, percebendo o silêncio longo da baiana do outro lado da linha.
_Não, tudo bem... Deixa ela chamar como quiser, isso não me incomoda, muito pelo contrário. Gostei de saber do carinho das duas uma pela outra. A não ser que te incomode. - Ela disparou, ácida, em tom de flerte.
_Porque me incomodaria? - Gabriela achou que se fazer de desentendida seria o melhor jeito de sair da situação, e conseguir disparar a outra bomba pro lado de Carolina. - E Peixinho... Tem mais uma coisa. - Disse ela, sem coragem de prosseguir.
_Ai meu Deus Gabriela, o que é agora? - Disse colocando a mão no peito. Desde que Amora foi pro Rio, sua vida era só eita atrás de eita.
_ É que a Amora, ela... Ela juntou as pecinhas, sei lá como, e descobriu que eu e você... Bem, ela já sabe. E eu não sei como ela sabe, ela me disse que descobriu sozinha que era mais que amizade. Ela me confrontou e eu não tive como negar, bem que tentei mas ela entra na cabeça da gente...- A paulista falava sem parar, com medo de uma possível discussão. Se visse Carolina sorrindo do outro lado da linha...
_Tudo bem, Gabi. - Ela interrompeu, a voz macia. - Eu não tenho nada pra esconder de ninguém, muito pelo contrário. E ela é esperta, logo ia sacar que eu sou apaixonada por você mesmo e eu ia acabar falando. - Ela disparou outra vez. Carolina não perdia uma, pensou a paulista.
_É, mas eu já deixei bem claro pra ela que daqui pra frente a gente vai ser só amiga.
_Ô, neguinha...- Carolina carregou a voz de manha. Estava fazendo exatamente o que Clarisse sugeriu: Preparando o terreno.
_Para, Carolina. Mania de apelar, porra. - Gabriela bronqueou botando marra, ouvindo a baiana rir do outro lado da linha. Sabia que a marra era só defesa, e quanto mais marrenta ela estava, mais perto de se render.
_Tá bem, parei. Mas sexta eu quero conversar com você. - A paulista sabia que ela estava sorrindo, só pelo tom da voz. Estava se divertindo com aquilo.
_Não sei, Peixinho. - A voz era apreensiva, e o "não" parecia mais "sim" do que qualquer coisa.
_Credo, que mulher difícil. - A baiana brincou. - Ó, sexta-feira a noite Victor quer ir no Baile da Favorita. Porque você não chama Patrick, Bruno e Mirela, e vamos todo mundo? De turma é mais legal, vá... - Pediu, a manha voltando outra vez. - E aí a gente aproveita e conversa...
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O Último Eclipse
RomansaQuando duas almas predestinadas se encontram, é como se houvesse um Eclipse. Uma explosão de faíscas em um abraço, contagiam até quem está assistindo de muito longe. Em pouco tempo são muitas pessoas compartilhando do mesmo sentimento: o frio na bar...
