_Amora Sodré Mattei. - Chamou o menino das audições, e a menina se sentiu tremer inteira por dentro. Recebeu abraços dos tios e do primo, e palavras de apoio. Respirou fundo, como a mãe havia lhe ensinado, e entrou no palco com toda a coragem que tinha na sua maturidade de sete anos. Era agora.
Na mesma hora em que a menina entrou e o instrumental da música começou, o celular de Clarisse tocou. Era Carolina, certamente querendo o link da transmissão do youtube. Assim que atendeu, a irmã nem lhe deu tempo de dizer alô.
_Clarisse, eu preciso que você tire Amora daí agora.
Gabriela agora estava sentada em sua cadeira giratória, esperando a próxima música começar. O time de jurados era composto por ela, Martinha, Patrick e Bruno. Nem pôde acreditar quando o instrumental começou. Era mesmo aquela música? Impossível, pensou. E quando a primeira frase foi cantada pela criança no palco, um impulso fez com que ela apertasse o botão. Como algo sobrenatural, seu coração acelerou e ela suava frio.
Mas espera. Conhecia aquela criança. Já havia visto aquele rosto várias vezes nas fotos do seu instagram. Era mesmo...? Não, não poderia ser Amora. Amora, filha de Carolina. Amora, que agora cantava seu hino da semana, perfeitamente afinada, com muita presença de palco e segurança. Logo as cadeiras dos outros jurados viraram também, e estavam todos encantados.
Quem perguntou o nome, idade e o resto todo para a menina, foi Martinha. Gabriela não conseguiu falar nada além de "Parabéns, sua apresentação foi ótima.", e seus colegas de júri começaram a estranhar. Quando a menina deixou o palco, ela se obrigou a pedir um intervalo.
Clarisse tinha saído da plateia e estava sentada em uma das poltronas da recepção, tentando pensar num jeito de tirar a sobrinha dali para que Carolina não tivesse um ataque do coração.
_Ela não pode encontrar com Gabriela, mana, não pode! - Carolina agora quase chorava outra vez.
_Você já disse isso, criatura, mas tem jeito? A menina já deve ter até terminado a audição e vai estranhar eu não estar lá esperando. Aliás, vai querer sabe porque que eu quero tirá-la de algo que ela quis tanto. Como eu vou fazer pra explicar? - Clarisse tentava argumentar, mas Carolina parecia irredutível. Fazia muito tempo que não via a irmã descontrolada daquela maneira. Para ser mais precisa, faziam dez anos.
_Não me interessa, Clarisse, eu quero ela fora dessa escola e num avião para Salvador, hoje ainda. Ela não precisa entender. Eu quero ela em casa aonde eu possa enxergar e proteger, entendeu? - A baiana agora falava ríspida, o choro escapando pelos olhos e pela garganta. Era dor demais para perceber qualquer coisa que não fosse sua vontade.
_Carolina, respire. - Disse Clarisse, percebendo a irmã soluçar do outro lado da linha. - Eu tô falando sério, inspire e respire agora, e volte a si, criatura. Você tá descontrolada, tá agindo como se eu tivesse posto Amora em perigo e Gabriela fosse um monstro, que fosse engolir a menina. Se eu quisesse eu poderia até me ofender, mas eu sei a dor que você sentiu. - Agora ela suavizava a voz - Só que já tem dez anos, mana. E você não pode privar sua filha de algo que ela quer muito, por uma mágoa antiga sua. Agora, respire.
Clarisse escutou a irmã obedecer e respirar fundo em meio ao choro. Se penalizou. Esteve ao lado dela, há dez anos atrás, quando chorava a perda de Gabriela para a segurança de um noivado. Ela sofreu e chorou junto, segurou a mão da irmã e cuidou dela até que se acalmasse. Mais tarde, presenciou o namoro dela com Enrico e foi madrinha de casamento dos dois. Viu e ajudou a irmã se reerguer daquela queda violenta que uma única noite havia lhe causado. E agora isso.
_Você tem razão, mana. - Carolina respondeu, cessando o choro - Eu me descontrolei, foi um momento de loucura, mas não posso deixar isso afetar Amora. Passou. - Ela disse firme, como se quisesse convencer a si mesma.
_E vai ver ela nem vai ter contato com Gabriela, Carol. Se ela é dona da escola, talvez nem tenha muito contato com os alunos. - Clarisse consolou, agora tentando melhorar aquilo tudo para Carolina.
_É, pode ser.... - Ela falou, vagamente. Logo Clarisse teve de desligar, pois Sérgio apareceu lhe procurando.
_Amor, você não vai acreditar quem era uma das juradas, e parece que dá aulas aqui. - Ele disse, preocupado.
_Eu já sei. Carolina já surtou, já se acalmou e agora nos resta esperar pra ver onde isso vai dar. - Ela cortou o marido, resumindo a ópera toda.
_Cê é rápida hein? - Sérgio deu uma risada incrédula. - Vamos lá, Amora e Davi estão na fila esperando. - Ela riu abraçando o marido e o seguiu.
Naquele mesmo instante, Gabriela entrou na sala dos professores, dando graças a Deus por estar vazia. Encheu um copo d'água e bebeu tudo num gole só, sem respirar. Andava de um lado pro outro tentando se acalmar, sem sucesso.
_O que eu faço, meu deus, o que eu faço? - Pensou alto sentando em uma das cadeiras da mesa comprida, escondendo o rosto entre as mãos.
Pensava se Peixinho estaria ali, se era ela que tinha trazido a filha. Teria vindo atrás de Gabriela depois de tanto tempo? Não, era loucura. Não poderia ser. Mas então, Amora teria chegado ali por acaso? Ela riu, amarga. O Destino era mesmo irônico e cheio de peças pra pregar. E ela teria de colocar um sorriso no rosto e receber a criança de braços abertos, como qualquer outra chegasse para ser sua aluna naquelas férias. Faziam dez anos, afinal. E a menina não tinha culpa de nada. Difícil seria olhar para aquela miniatura de Carolina, e fingir que estava tudo bem, enquanto as lembranças daquela noite de Carnaval na Bahia lhe rasgavam o peito.
Foi quando Patrick entrou na sala.
_Amiga do céu, o que te deu? Você simplesmente mal deu as horas pra última menina, pediu intervalo e sumiu. Eu tô te procurando faz horas, bicha! Tá tudo bem?
_Tá sim, migo, tá tudo bem. Eu tive uma tontura, deve ser a labirintite por causa do giro da cadeira. - Ela riu fraco, passando as mãos no rosto. Patrick conhecia Gabriela há 5 anos e sabia quado havia algo lhe incomodando. No entento, não conseguia decifrar o que poderia ser, naquele momento. Resolveu não questionar a amiga, mas estava decidido a descobrir do que se tratava.
_Então vamos? Amanda disse que ainda temos seis crianças pra ver. - Ele perguntou, mudando de assunto. Gabriela respirou aliviada por ele não prolongar o assunto. Não estava disposta a contar aquela história cabulosa a ninguém. Das poucas pessoas que sabiam, já achava que eram muitas. Então ela se forçou a se recompor, sabendo que mais tarde teria de encontrar com Amora pelos corredores. E pior, que teria de enfrentar Maria Laura e desenterrar aquele assunto infeliz.
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O Último Eclipse
Storie d'amoreQuando duas almas predestinadas se encontram, é como se houvesse um Eclipse. Uma explosão de faíscas em um abraço, contagiam até quem está assistindo de muito longe. Em pouco tempo são muitas pessoas compartilhando do mesmo sentimento: o frio na bar...
