Capítulo 40

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Enquanto se despedia dos últimos convidados da filha, Carolina viu Gabriela se aproximar de mansinho. Sabia que ela estava esperando a sala "esvaziar" pra lhe dizer algo, mas não sabia o quê. Sentia o olhar da paulista sobre si enquanto Amora se despedia dos amiguinhos com uma expressão triste, que lhe cortava o coração.

_Nas férias de julho nós vamos combinar alguma coisa pra juntar todo mundo, não se preocupem. - Disse a baiana, tentando amenizar a situação. - E eu trago Amora pra assistir a peça também, é só me avisarem quando vai ser.

_Eu quero muito ir na casa da Amora, Carol! - Pediu Jasmim, abraçada em Amora.

_Pois vai ser muito bem vinda, meu amor. Todas vocês, nem que a gente encha a sala lá de casa de colchão, ou coloque vocês empilhadas pra dormir! - Carolina brincou, vendo Gabriela dar uma risadinha.

_A peça é no fim desse mês. Cês vem mesmo? - A percussionista disse baixo, assim que todos dispersaram para levar o pessoal até a porta. Mesmo depois da conversa e dos beijos na enfermaria, ela ainda se sentia derrotada.

_Vamos fazer o possível. - Carolina respondeu, evasiva, vendo a outra dar um suspiro. Sabia que Gabriela odiava seu jeito de lidar com aquilo, mas não podia evitar. Ficar distante era seu mecanismo mais familiar de defesa. E o que quer que fosse que a paulista queria lhe dizer, ficou sufocado no silêncio.

Assim que Amora entrou na sala, elas lhe deram um sorriso, mas a menina não sorriu de volta. A paulista lhe abriu os braços e ela se encaixou ali, deitando em seu ombro, e Gabriela a levantou no colo.

_Também não é o fim do mundo, Pinguinho. - Argumentou, mas a pequena seguiu calada, com os braços em volta do seu pescoço. Carolina deixou um carinho no rosto da filha, mas ela parecia distante demais para perceber.

Chegaram à conclusão silenciosa de que Amora precisava do seu tempo, seu espaço sozinha para curar a ferida de ser arrancada dali. Ela sobreviveria, é claro, mas Carolina ainda se sentia a pior das mães por ter que tirá-la do lugar e das pessoas que amava tanto.

Gabriela as acompanhou até o carro e pôs Amora na cadeirinha, tudo num silêncio insuportável em que as três pareciam querer gritar a qualquer momento. Victor pegou carona com Clarisse, talvez numa tentativa frustrada de fazê-las verem que tinham que ficar juntas, mesmo nos 45 do segundo tempo. E elas sabiam. Viam isso a todo momento, queriam estar juntas, mas a vida era uma coisa bem cruel quando queria.

_Eu vou amanhã no aeroporto pra gente se despedir, tá? - Disse Gabriela, vendo Amora assentir, inexpressiva. Lhe beijou a testa e sentiu duas mãozinhas pousarem em seu rosto. Sorriu para a menina em afirmação, como quem dissesse que vai ficar tudo bem. - Dorme bem, meu amor. Eu te amo.

_Também te amo. - Um fiozinho de voz respondeu, e Gabriela sentia vontade de tirá-la dali e sair correndo. Mas, havia Carolina. E então a vontade passou a ser de pegar uma em cada braço e aí sim, fugir pra bem longe.

_O vôo sai as 08:00. Eu te mando as informações certinhas mais tarde. - A voz da baiana lhe tirou do devaneio.

_Tá bem, se cuidem. Qualquer coisa é só me ligar. - Respondeu a percussionista. Ah, como queria que elas ligassem. E ao bater a porta do carro e vê-lo partir, ela só queria deitar na calçada e chorar até secar.

_Ela não me disse nenhuma palavra desde que Gabriela colocou ela no carro. - Carolina disse a irmã, observando a filha montar desanimadamente algumas pecinhas do lego com o primo, no chão do apartamento alugado. Os quatro adultos bebiam vinho branco sentados em volta da mesa de jantar, perto da sala.

_Tenha calma, Carol. Ela está triste, e com razão. Amora precisa do tempo dela, assim como você e Gabi precisam. - Victor argumentou.

_Só tenho medo de ela se fechar, se traumatizar e sei lá, nunca mais falar na vida por minha culpa. - a baiana encarou a taça, o choro preso na garganta e os exageros maternais lhe vindo à tona sem que nem percebesse.

O Último EclipseOnde histórias criam vida. Descubra agora