Capítulo 10

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_Ande minha tia, o sol já apareceu! - Amora sussurrava ao lado da cama de Clarisse, sacudindo ela de leve. - Eu vou me atrasar pro primeiro dia de aula!
A baiana resmungou e lutou contra o sono pra abrir os olhos.
_Jesus coroado, Amora...que horas são? - Perguntou, vendo duas da menina em sua frente. A energia dela nunca acabava?
_Quase oito, e a aula é as oito. Vá minha tia, levante, por favor... - Amora puxou o braço da tia fazendo manha. Clarisse bocejou e resmungou um "tá bem, tá bem...", levantando da cama.
Olhou para Sérgio apagado e teve inveja do marido por um instante, mas deixou ele dormindo e foi para a cozinha, com o furacãozinho hiperativo que era sua sobrinha.
"Carolina pariu o cometa halley", pensou, achando graça do próprio pensamento. Mas conhecendo a irmã, sabia que a filha dela não poderia ser diferente.
Colocou um café para passar e pegou umas frutas na geladeira.
_Escolha aí, pequerrucha. E lave as frutinhas pra titia, ok? Eu vou fazer umas torradas e quando tiver pronto a gente acorda os meninos. - Amora lavou morangos e maçã verde, e a tia lhe deu uma faca sem ponta para que pudesse cortá-los.
Carolina tinha feito a façanha de conseguir criar uma criança pró-ativa e muito independente para algumas coisas.
Emocionalmente, ela ainda era muito apegada a mãe, é verdade, mas cada coisa no seu tempo. Afinal, ela só tinha sete anos e já fazia o próprio café da manhã, não fazia? O desapego que esperasse.
Depois do esforço de tirar Davi da cama, arrumar duas crianças, uma mochila e dois adultos exaustos, foi hora de partir para a Reconvexo.
Amora mal cabia em si, se sacudindo pra cima e pra baixo no assento do carro, olhando tudo que passava pela janela. Davi também parecia ter se contagiado com a animação da prima, e os dois comentavam sobre o que viram no dia da audição.
_Tomara que a aula mais longa seja a de Gabi. - A pequena comentou vagamente. O coração de Clarisse gelou por Carolina. Que apego todo era aquele, numa pessoa que ela só tinha visto uma vez na vida? Ela não fazia ideia, mas tinha certeza que viria muito mais abacaxi pra descascar dali pra frente.

Gabriela estava na escola desde as 6 da manhã, arrumando papeladas e cadastros dos novos alunos. As matrículas de verdade, porém, só seriam feitas hoje, mas ela achou por bem já assinar tudo que podia antes, pra não acumular.
De repente seu corpo gritou por um café. Não tinha mais 20 anos e o peso dos 40 e poucos não lhe deixava mais madrugar sem consequências.
A preguiça de levantar para ir à máquina de café mais próxima, que ficava na sala dos professores, quase a fez pedir para que uma das secretárias lhe trouxesse o expresso.
Mas aí ela lembrou que era o primeiro dia do Programa de Férias, as secretárias deveriam estar atoladas de trabalho e, já bastava Maria Laura, que não levantava um dedo ali dentro sem mandar e desmandar nas coitadas. Chamava PRA TUDO, desde trazer café até ir na puta que pariu buscar o que quer que fosse. Pensando nisso, era melhor ela mesma levantar a bunda da cadeira e ir buscar o café.
No corredor, porém, ouviu uma conversa entre vozes conhecidas.

_Eu também quero. - resmungava um Davi muito chateado de mãos dadas com o pai, enquanto Clarisse preenchia a ficha da matrícula de Amora.
_Ô meu filho, se você cantar um pedacinho só de uma música, já mata os professores do coração. - Sérgio brincou. O menino não tinha afinação nenhuma. Era um Peixinho, afinal.
_Fique assim não, filhote. Seu pai tá brincando! - Clarisse censurou o marido com os olhos e o mesmo riu.
Débora, a secretária que estava os atendendo, percebeu a frustração de Davi e resolveu ajudar.
_Clarisse, desculpe perguntar, mas o Davi nunca se interessou em aprender a tocar violão? - O rosto do pequeno se iluminou e Clarisse sorriu. - É porque o professor Bruno vai dar aulas de violão no programa de férias, e ainda tem algumas vagas abertas. - Disse a secretária, sorrindo.
_Eu quero mãe, eu quero! Posso? - Davi agora pulava igual pipoca.
_Cê sabe que vai ter só um mês de aula, né filho? - Ela disse apreensiva. Não queria que o menino tivesse expectativas muito altas quanto ao resultado das aulas, e acabasse se decepcionando. O olhar de súplica do menino, no entanto, continuava o mesmo.
Clarisse olhou para Sérgio e o mesmo sorria como criança prestes a aprontar. Nem precisava perguntar o que ele achava, aquela cara já dizia tudo.
_Tá bem, tá bem. Deixe eu terminar de preencher a ficha de sua prima e já faço a sua. - O menino vibrou junto com Amora. Gabriela assistia de longe, sorrindo. Já tinha visto muitos filhos convencendo pais ali dentro, e era sempre muito divertido de olhar.
Foi quando pequenos olhos castanhos cruzaram os seus. A menina sorriu e correu em sua direção, de braços abertos e ela a levantou do chão. De repente tinha Amora em seu colo.

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