Capítulo 50

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As duas agora colocavam Amora na cama, com 1h e meia de atraso de sua rotina diária. A pequena estava inquieta pela situação do cachorro, enquanto Gabriela insistia e Carolina repetia um NÃO categórico.

_Pelo menos por essa noite, Amor...- a paulista dizia com a voz macia.

_Claro né, eu não vou deixar o bichinho desabrigado, não sou desumana. Até levo ele no veterinário amanhã pra dar vacina e examinar, mas ficar com ele, ai já é demais. Deite, minha filha. - A baiana comandou, vendo a filha inquieta, começando a bagunçar as cobertas de tanto se chacoalhar.

Carolina a cobriu e Gabriela prendeu as cobertas embaixo dela, como a mãe costumava fazer consigo quando era criança. Dormia tão inquieta quanto Amora.

_Mas e as outras noites, mamãe? E os outros dias todos da vida dele? Ele vai ficar sozinho e abandonado? - Amora perguntou, fazendo um biquinho.

_Oxe, Pituca, deixe de drama! É claro que ele não vai ficar sozinho. Nós vamos achar uma casinha pra ele, com donos que vão dar muito amor. Pense que devem ter outras crianças que também adorariam ter um cachorrinho, e que moram numa casa, com espaço pra ele brincar... - Carol argumentava fazendo um carinho no cabelo da filha, sentada na beira de sua cama. Gabriela estava sentada no chão, ao lado das duas, com o dito cachorro em seu colo.

_Mas... Mas eu não quero que ele seja de outra criança, mamãe! - As duas agora viam o choro se formar nos pequenos olhos e na voz embargada. Ambas sentiam uma agonia ímpar por vê-la tão triste.

_Como você consegue? - Gabriela deixou escapar, se dirigindo à namorada. E recebeu aquele olhar típico de quem diz "não piore as coisas".

_Filhinha, por favor. E se ele crescer e ficar bem grandão? Como a gente vai fazer? Prender um bichinho num apartamento assim é maldade, meu amor. - A baiana continuava. - E além do mais, depois das férias, nós voltamos pra Salvador, e aí? Não dá pra ter um cachorro agora, filha, entenda que e inviável.

_Mamãe, primeiro que: eu nem sei o que quer dizer inviável - Amora se ergueu na cama, argumentando de um jeito muito parecido ao seu. Gabriela não segurou o riso, fazendo Peixinho rir também. - E segundo que, eu sei que o Cookie não vai ser feliz em outra casa, nem se ela for grandona. Porque eu amo ele, e ele me ama! Nós temos que ficar juntos.

_Mas, Amora... - Começou a baiana - Filha, vocês mal ficaram juntos por um dia.

_E daí? Amor não conhece tempo, minha mãe. - Vez ou outra, Amora tinha uns lapsos de sabedoria extrema, como se em seu corpo habitasse uma alma de 80 anos. Mas na verdade, era só sua pureza crua e observadora de criança falando mais alto. Bem, havia deixado a mãe sem fala.

Carolina buscou, em desespero, o olhar da namorada. E Gabriela não precisou falar nada para que ela lesse em seu olhar o que queria dizer: "Dessa vez ela te ganhou".

_Neném, deixa que depois eu converso com a sua mamãe sobre isso, tá? - Gabi tomou a frente, vendo Amora bocejar. - Você ta cansada, amanhã o dia é cheio, trata de mimir e descansar.

_Ele pode mimir comigo? - A menina carregou a voz de manha.

_Ele pode mimir com ela? - Gabi perguntou a Carolina no exato tom de voz que Amora usou, fazendo a baiana rir.

_E se ele fizer xixi na sua cama, hein, mocinha? - Perguntou.

_Eu limpo. Eu sou uma mãe ótima. - Amora disse em meio a um bocejo.

_Tá bem, mãe ótima, então toma que o filho é teu. - Gabriela respondeu entre risos, aninhando o filhote ao lado da menina, que o abraçou sorrindo e fechou os olhos, finalmente em paz.

O Último EclipseOnde histórias criam vida. Descubra agora