_Sou eu, Eliara. - Disse Gabriela no interfone. Tinha saído do apartamento dos amigos às pressas, para chegar no conhecido endereço na Barra da Tijuca. Estranhou quando Eliara não abriu o portão, mas disse "estou descendo". Logo a mulher apareceu no hall do prédio e finalmente abriu o portão.
_Você não precisava ter devolvido a chave logo de cara. Podia ter dado a pancada em doses menores. - Eliara falou e Gabriela apenas ignorou para não piorar as coisas. A mais velha, no entanto, seguiu falando. - Ela não sabe que eu te liguei. Acha que eu pedi pizza.
_Ela está bem? - A paulista perguntou, ouvindo uma risada contida e irônica da outra.
_O que você acha? Ela me ligou em prantos. Disse que não suportava mais ficar sozinha naquele apartamento, que sem você a vida não tinha mais graça. Você tem ideia do susto que eu levei? Eu achei que ela fosse fazer uma besteira. - Aquilo ainda soava como uma bronca, e Gabriela se sentia mais culpada a cada palavra de Eliara.
_Eu vou subir e conversar com ela. - Respondeu num fio de voz.
_Faz isso. Conserte as coisas. Não coloque fora mais de dez anos de cumplicidade, Gá. Vocês se amam e você sabe disso. Cuida dela como ela cuidou de você esse tempo todo. - A mulher agora tinha voz macia e a mão no ombro de Gabriela. - Eu vou embora, deixar vocês se resolverem.
No elevador, Gabriela pensava no que Eliara havia dito. Cuida dela como ela cuidou de você esse tempo todo. Sabia que, por fora, Maria Laura tinha cuidado dela, sim. Mas por dentro, onde ninguém podia ver o que sentia, a verdade era que não se sentia cuidada pela ex mulher. Se sentia grata a ela, é verdade. Assessorada em coisas materiais, talvez. Mas cuidar de seu coração era uma coisa que - por mais que doesse admitir - Maria Laura nunca soube fazer.
Desde o primeiro dia de namoro até o último de casamento, ela tinha esperado que Low percebesse seu interior, identificasse o que sentia sem que ela precisasse explicar minuciosamente. Mas esse dia nunca chegou, e explicar suas angústias para a ex esposa era doloroso demais, a ponto de criar novas angústias. Até que o elevador parou no quarto andar, e ela respirou fundo com a chave dada por Eliara girando na fechadura. Lá vou eu de novo, pensou. Tentar consertar o que não tem conserto.
_Eli? - Ouviu a voz da ex chamar do quarto conhecido. Entrar naquele apartamento era melancólico e estranho, tinha vivido momentos felizes ali nos primeiros anos de casamento. Mas as memórias mais recentes era frias e até tristes, dela tentando resgatar o que sentia por Low, sem sucesso.
_Sou eu, Low. Eli foi embora pra gente poder conversar. - Disse baixo entrando no quarto e acendendo a luz da cabeceira. Começava a anoitecer e o quarto já estava todo escuro. Com a luz pode ver o rosto abatido da mulher deitada na cama. Deveria ter chorado o dia inteiro. Por um segundo pensou que ela iria expulsá-la dali, mas ela engatinhou na cama e se agarrou com força ao seu pescoço. Gabriela continuou estática. Preferia que ela tivesse a expulsado, a raiva era mais fácil de lidar. Logo se obrigou a abraçar a mulher, que agora chorava em seu ombro.
_Por favor Gá, não faz isso com a gente. - Dizia entre soluços - Volta pra casa, nós vamos superar isso. Eu te amo tanto, e sei que você também me ama, amor. - Gabriela suspirou sem saber como sair daquela situação.
_Low, você sabe que sempre vai ser importante pra mim. Mas eu fui sincera com você e vou ser de novo. - Soltou a mulher para olhá-la nos olhos. - Faz tempo que o que eu sinto por você não é mais o mesmo.
_Eu não me importo de amar por nós duas, Gabriela. Eu faço tudo por você. - Cada palavra era como um tapa na cara e Gabriela começava a ficar tonta.
_Não, cara. Não faz isso com você, não se desvaloriza desse jeito. Você é uma mulher maravilhosa. - Ver Low praticamente se humilhando era muito doloroso.
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O Último Eclipse
Roman d'amourQuando duas almas predestinadas se encontram, é como se houvesse um Eclipse. Uma explosão de faíscas em um abraço, contagiam até quem está assistindo de muito longe. Em pouco tempo são muitas pessoas compartilhando do mesmo sentimento: o frio na bar...
