Capítulo 25

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_Pingo, fiz a outra parte daquela musiquinha que eu inventei pra você. - Gabriela dizia, enchendo uma bacia com o chuveirinho e sacudindo a água cheia de sabonete líquido, pra fazer espuma. Ela e Amora tinham inventado de fazer uma noite de spa, com banho de ofurô e tudo. A menina agora entrava na água da bacia, e Gabriela achava graça da carinha dela de touca no cabelo, pra não molhar.

_Aquela do banho? - Perguntou, se sentando na bacia, agora cheia de espuma. Pro tamanho dela, era um ofurô perfeito.

_Sim, eu terminei ela, vou pegar pra você ver. Fica aí quietinha, não vai se afogar hein! - A menina rolou os olhos e riu da pouca experiência de Gabi. Uma criança daquele tamanho, numa bacia rasa? Era impossivel de se afogar. Não deu muito tempo e a paulista voltou com uma folha de caderno toda rabiscada, secando a mão da menina com a pontinha da toalha.

_Dá uma olhada aí. - Entregou o papel na mão da menina, que sorriu assim que deu uma olhada nas estrofes. - A primeira parte é uma criança do seu tamanho falando. A segunda, é um bebezinho tipo a Lolô. Gostou?

_Cê tá brincando? Eu amei, Gabi! - a paulista recebeu um beijinho no rosto e Amora logo começou a cantar a música inteira, orientada por Gabriela nas partes em que não sabia o ritmo.

O resto da noite foi pijama, jantar e sono. Gabriela tinha vontade de deixar a menina ver tv e brincar a noite toda, de fazer todas as suas vontades, mas algo não a deixava. Era como se a voz de Carolina ecoasse em sua cabeça: "Agasalhe ela depois do banho pra não resfriar", "Faça ela comer todos os legumes" "Nada de sobremesa, já ta tarde, hora de dormir". O mais estranho é que Carolina nunca tinha lhe dito aquelas coisas e mesmo assim, ela ouvia sua voz direitinho. Aquilo era doloroso, mas ela até achava que estava começando a se acostumar com a dor. 

_Gabi, com o que eu vou sonhar hoje? - A percussionista foi arrancada de seus pensamentos, emitindo apenas um "hã", confusa. A menina deitada na cama cruzou os bracinhos em impaciência - Ai, Gabi, lembra quando eu dormi aqui e você encomendou um sonho pra mim?

_Aaah, claro. - Ela riu lembrando do que se tratava e indo se deitar ao lado da menina.  - Deixa eu pensar tá? Peraí. - Amora entrelaçou sua mão a de Gabriela, esperando pacientemente. O sono já lhe tomava. - Você vai sonhar que nós duas somos duas gatinhas e que a gente tá brincando na rua, com os outros bichinhos.

_Que outros bichinhos? - Ela perguntou, os olhinhos pela metade.

_Ah, não sei, esquilinho, tatu bolinha...Ouriço, ratinho, coruja, todo mundo que quiser ser nosso amigo. - A menina deu um sorrisinho, mas logo sua feição ficou preocupada.

_Mas e se uma bruxa entrar no meu sonho, Gabi? - Ela olhou a menina com pena e começou a lhe fazer um cafuné.

_Aí a gente canta, porque bruxas odeiam música, sabia? Vou cantar pra você, tá? Uma música que minha mãe cantava pra eu dormir, quando eu tinha o seu tamanho. Fecha os olhinhos. - Amora obedeceu e Gabriela começou a cantar Acalanto, de Dorival Caymmi, e a pequena logo se entregou ao sono profundo. A paulista ainda perdeu um tempo de sono, observando-a dormir tão pacificamente, e desejando poder protegê-la do mundo.

_Já avisei o Patrick que a gente vai chegar depois do almoço. - Gabriela agora penteava o cabelo de Amora enquanto ela escolhia um arquinho que combinasse com seu macacão jeans curto e a blusa vermelha.

_E a Bruxonilda não vai bronquear? Quer dizer... A Maria Mala. Ops, a Maria Laura. - A pequena riu tampando a boca e Gabriela lhe olhou, com vontade de rir, mas repreendendo.

_Ai ai ai, Dona Amora... A Maria Laura não tem nada que bronquear. Sabia que eu nem preciso ir pra Escola de manhã? Eu vou porque gosto, porque não tenho nada pra fazer. Nas férias meu horário é só a tarde. Mas, agora que eu tenho um Pinguinho pra cuidar... - Ela fez cócegas em Amora, que riu se encolhendo. - Eu posso muito bem tirar minha folga. Pronto, tá linda. - Disse, colocando nela o arquinho com um lacinho vermelho, que havia escolhido.

O Último EclipseOnde histórias criam vida. Descubra agora