VIII. Um Eu Te Amo [XL]

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Em geral, Wafula teria mais tempo para descansar depois de vistoriar todas as fronteiras do reino e reorganizar os militares e as trocas de posto. O tempo em que ele terminava a vistoria coincidia também com o início do recrutamento e quando ele voltava para Zahi, tinha um bom mês de descanso até ir avaliar pessoalmente a leva de jovens entre seus quatorze e quinze anos que estavam começando os treinamentos militares. Arcallis não era um reino muito extenso, então só precisava de três principais campos de treinamento, um na capital, um ao norte e um ao oeste, as áreas com maior população. O que o reino não tinha em território, certamente compensava em estrutura militar, se comparado com todos os territórios vizinhos.

O problema era que, com a preocupação de Radulf com a mensagem do norte e a possibilidade de guerra, o tempo de descanso de Wafula tinha sido reduzido a nada. Depois do Conselho com os nobres, ele nem conseguiu descansar no dia seguinte, já que Radulf fez questão de acordá-lo logo ao nascer do sol.

– Você não tem pena de mim não, Rad? Eu acabei de voltar de uma viagem de quatro meses. – Wafula reclamou, virando na cama a muito contragosto.

"Já teve muitos dias de descanso", Radulf gesticulou, depois de terminar de calçar as botas, levantando-se da beira da cama antes que Wafula tivesse chance de lhe agarrar de volta. "Ontem eu emiti a convocação oficial para o campo em Arif e o daqui, então vá ver os homens qualificados e mandá-los pra Arif como reforço, eles vão se preparar lá".

– Às vezes eu acho que quem quer ir pra guerra é você e não os inimigos, Rad.

O comentário descontraído de Wafula lhe rendeu um olhar ameaçador, mas o general não se importou, sentou-se na cama, virado para o lado de onde Radulf tinha se levantado, para puxá-lo para perto antes que o conselheiro tivesse chance de pegar uma adaga e lhe arrancar a língua.

– Eu te amo, Rad, mas você tem que deixar de ser tão paranoico com trabalho.

A tentativa de Radulf de se livrar dos braços de Wafula ficou pela metade quando ele se surpreendeu com as palavras diretas do general que procurou apoio em seu tronco, escondendo a cabeça ali como se fosse voltar a dormir. A surpresa talvez tenha sido um pouco demais para Radulf, que demorou a reagir, o que fez com que Wafula erguesse a cabeça para encará-lo de volta, um pouco confuso.

– O que foi, que ficou quieto?

"O que você disse?"

– Que você é paranoico com trabalho? – Wafula não teve medo de repetir, esperando o golpe irritado, mas o ataque não veio e ele notou uma expressão quase desapontada no rosto de Radulf antes dele virar o rosto e tentar se soltar do abraço de urso de novo. – Ué, o que foi? Eu só respondi a sua pergunta.

"Nada. Me solte, vamos trabalhar", Radulf gesticulou, tentando empurrar os braços de Wafula, mas a falta de reação só deixou o general mais curioso.

– Eu conheço a sua cara de nada, e não é essa. – respondeu o general, e só então ele atentou para o jeito como Radulf insistia em desviar o olhar, o que lhe colocou outra ideia em mente. – Espere aí, estava falando do "Eu te amo"?

A reação de Radulf foi bem mais pontual e rápida daquela vez. Ele bateu no topo da cabeça de Wafula com a mão fechada, com mais força do que o general gostaria de receber.

– Ou!!!

"Eu já disse pra me soltar! Vamos nos atrasar pro trabalho!"

Se a intenção de Radulf era se esquivar da pergunta direta e dos braços de Wafula, a resposta não foi ideal, porque em um par de segundos, Wafula o tinha jogado deitado na cama de novo e se debruçado sobre ele sem muito esforço e com uma expressão tão satisfeita com um sorriso de orelha a orelha que Radulf só se sentiu mais encurralado.

Um Silêncio de 15 AnosOnde histórias criam vida. Descubra agora