XXXI. Um Teste de Responsabilidade

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Radulf não precisou pensar nem por um minuto em tirar a bainha da espada da cintura ou as botas que dificultariam nadar no rio de correnteza forte, ele só se jogou na água na mesma velocidade em que viu Dargan escorregar, ouvindo ainda o grito de desespero do garoto antes do silêncio excruciante resultado dele estar submerso na água agitada do rio.

Talvez não tivesse sido a sua melhor ideia, já que ser levado pela correnteza só dificultava avistar qualquer sinal da criança, e nem se tivesse voz adiantaria gritar por ele em meio às águas agitadas. Quando ele emergiu na superfície, nadou e se deixou levar no ritmo da correnteza, na esperança de ser mais rápido do que Dargan, buscando por qualquer sinal do garoto. Radulf ainda sentiu o nervosismo de olhar ao redor, acima do nível da água, e não ouvir nem ver nada que indicasse que Dargan tinha emergido também em meio ao desespero, especialmente porque ele não sabia nadar e havia pedras o suficiente no fundo do rio para se tornarem um problema.

Uma onda de alívio e preocupação passou pelo corpo do conselheiro quando ouviu o grito infantil entrecortado pelo som da água e se virou a tempo de avistar os cabelos cobre não tão longe de onde estava, a ponto de bater o ombro com força numa das pedras na margem do rio e ainda tentar usar as pedras como impulso para alcançar Dargan. O pé escorregou no fundo do rio, mas foi suficiente para lhe aproximar mais do garoto que já estava afundando de novo em meio à correnteza.

Radulf mergulhou também, a despeito da água agitada e turva, ele avistou o garoto afundando de novo, estendendo os braços para finalmente sentir os dedos se fechando em volta do corpo pequeno, agarrando-o como se não houvesse nada no mundo mais importante. Outro impulso com os pés no fundo do rio, em meio às pedras irregulares, e ele conseguiu nadar até a superfície, para colocar Dargan acima da água. Não tinha como dizer a ele que estava bem, mas ficou momentaneamente aliviado de ouvir o grito desesperado da criança, e sentir os braços dele buscando por suporte, mesmo com a dificuldade de se manter firme contra a correnteza do rio, Dargan estava bem, e ele com certeza os levaria para a margem.

Do pouco que Radulf conseguia avistar em meio a água intensa, ele sabia que havia muitas pedras no meio do trajeto e perto das margens, e quanto mais o rio seguia, a quantidade aumentava. Era bom para reduzir a sua velocidade, mas era péssimo para acabarem se machucando por acidente. Exatamente como ele imaginou, avistou as pedras no caminho e segurou Dargan com mais força como podia, protegendo-o com o corpo e dando as costas para o trajeto da correnteza, até sentir o corpo bater contra uma das rochas e reduzir a sua velocidade.

Da dor, ele podia dar conta depois. Com a velocidade forçadamente reduzida e os pés pisando em pedras firmes no fundo do rio, ele estendeu um dos braços como pôde até a margem, se agarrando aos arbustos e raízes externas, torcendo para que não se partissem no processo. O desespero de Dargan ainda fez com que quase soltasse as raízes, mas independente do quanto ele se debatesse, sabia que não ia deixá-lo escorregar pelo braço.

Radulf puxou os dois na direção da margem, com a ajuda dos pés escorregando nas pedras no fundo do rio, tentando não ir diretamente contra a corrente. Quando conseguiu estender o braço sobre a porção firme de terra, a primeira coisa que fez foi estender Dargan, puxando então o próprio corpo com um pouco mais de esforço do que tinha previsto.

Em terra firme, ele segurou Dargan de novo, puxando o menino para o colo, enquanto ele tossia desesperado, cuspindo a água que tinha entrado pelo nariz e pela boca, o rosto muito vermelho e um pequeno filete de sangue escorrendo na bochecha. O menino estremecia nos seus braços e não falou uma palavra sequer, usando o resto do ar que tinha nos pulmões para gritar um choro assustado e desesperado ao se agarrar às roupas de Radulf sem nenhuma firmeza.

A voz lhe faltou para dizer a Dargan que estava tudo bem, mas em lugar de palavras, ele só puxou o menino mais para perto, abraçando-o com força e deixando que ele pelo menos se sentisse seguro nos seus braços agora que estavam longe da água agitada.

Um Silêncio de 15 AnosOnde histórias criam vida. Descubra agora