XX. Uma Lembrança Dolorosa

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 Zahi, Capital de Arcallis, 12 anos atrás. 

Desde que Idris tinha assumido o trono de Arcallis, as coisas estavam começando a mudar para pior e melhor ao mesmo tempo. Pior porque os reinos insistiam em atacar antes de fazer acordos, já que Arcallis deveria estar enfraquecido pelo regente muito jovem. Melhor porque a magia de proteção de Idris era bem diferente daquela da rainha, e ele conseguia usá-la de um jeito mais ofensivo e derrubar muitos inimigos de uma vez só, além de ter força para se defender e devolver todos os ataques.

Mas era aquela mesma magia que tinha quase matado Radulf uma vez, e talvez aquilo tivesse colocado um freio mais eficaz em Idris do que todas as tentativas insistentes de o avisar de que uma magia puramente ofensiva era perigosa. Era por isso que, nos últimos anos desde o acidente no campo de batalha, Idris tinha se resignado a reger o reino da capital, negociar com os nobres, assinar acordos e tentar manter as coisas em ordem, indo para o campo de batalha apenas quando era estritamente necessário.

E aquela era uma daquelas ocasiões estritamente necessárias. Radulf não gostava de admitir, mas depois de longos cinco meses de um conflito exaustivo com um dos reinos ao Norte, a presença de Idris no campo de batalha por meros cinco dias foi o empurrão que precisavam para avançar e derrubar as frontes do exército inimigo. Há três anos Idris só surgia no campo de batalha para encerrar as disputas; há três anos Radulf não se dirigia a ele mais do que o necessário em questões militares e políticas; e há três anos, ele também não tinha mais voz.

Mas a despeito da distância que ele tinha imposto naturalmente com o jovem regente depois da experiência de quase morte, a notícia ao chegarem na capital depois do cessar fogo com o Norte lhe atingiu com mais força do que gostaria de admitir.

– Senhor comandante! Senhor comandante!

– O que foi, Galen? Deixa a gente descer do cavalo primeiro. – Wafula que respondeu ao chamado exasperado do garoto que chegou correndo. Radulf apenas observou de longe.

– Senhor comandante, é a rainha!

O garoto tentou recuperar o fôlego, mas o comentário despertou a atenção de Radulf e Wafula.

– O que tem a Seren? O bebê nasceu?! – Wafula perguntou, empolgado ao descer do cavalo para segurar o jovem soldado com firmeza.

– N-não, senhor comandante, ela... – ele parou de falar, engolindo em seco.

– Ela o quê, moleque?

– Ela... morreu.

Wafula soltou o rapaz tão rápido quanto o segurou pelos ombros e a expressão de empolgação deu lugar a uma de surpresa. Radulf sentiu a força nos dedos sumir em volta das rédeas do cavalo, o corpo todo gelando ao som da notícia.

– O quê? – Wafula perguntou, levando então a mão até a roupa do rapaz, segurando-a com força e puxando-o em sua direção. – O que você disse?!

– S-Senhor, tentamos mandar mensageiros, não os encontraram no caminho?

– O que você disse, Galen?! – Wafula o sacudiu com mais força. – Ela não pode ter morrido, ela estava grávida, no castelo! E o bebê?!

– E-eu não sei, senhor... eles... morreram. Há dois dias, quando o rei retornou da guerra.

– Como não sabe?! Se não sabe, por que está falando?! – ele puxou de novo o rapaz com força, exasperado, mas o jovem soldado só encolheu os ombros e reforçou:

– Senhor comandante... é... verdade.

Wafula sentiu a força se esvair dos dedos também e soltou a camisa do soldado. Ele sentiu como se o ar faltasse nos pulmões e imediatamente, lembrou de Radulf lhe acompanhando.

Um Silêncio de 15 AnosOnde histórias criam vida. Descubra agora