I. Uma Presença Familiar [XXXIII]

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Os últimos meses em Arcallis tinham sido excepcionalmente incomuns para Radulf. As coisas transcorriam quase dentro da normalidade, exceto que havia umas novidades para levar em conta: Idris já não estava mais completamente recluso ao castelo e tinha se interessado de verdade pela primeira pessoa com coragem e ousadia suficientes para entrar em seu território, o que desagradava demais o conselheiro, mas era algo com que ele precisaria começar a se acostumar; Wafula tinha seguido para a vistoria nas fronteiras, o que teria sido algo apenas rotineiro, exceto pelo fato de que com o casamento recente dos dois, era estranho voltar sempre para a casa familiar do general e não ter a companhia dele, afinal, estivera esperando aquela convivência por mais anos do que poderia contar nos dedos; além da casa nova e do parceiro, tinha até um filho para cuidar, e toda a energia de Dargan tinha sido uma das suas maiores distrações naqueles últimos meses em Zahi.

Depois das primeiras semanas em que Wafula tinha viajado, Radulf já não se preocupava tanto que Dargan fosse fugir e se aventurar de tentar ir para as vilas do sul. O garoto era mestre em descobrir novos lugares para visitar e coisas para fazer ali mesmo dentro de Arcallis e a ideia de ter uma família com Radulf e Wafula o deixava mais animado também.

Vários meses tinham se passado e as últimas mensagens que Radulf recebera da fronteira anunciavam que Wafula deveria estar de volta muito em breve. Ele acordou cedo, como de costume, nem se preocupou em conferir se Dargan ainda estava dormindo. Às vezes o garoto acordava muito cedo, outras vezes rolava na cama até o almoço, de todo modo, o conselheiro seguiu até a cozinha para preparar café e se deparou com Orsolya, uma senhora baixa e de cabelos acinzentados e lisos presos num coque baixo que já ajudava Wafula a manter a casa antes e tinha sido muito útil nos últimos meses para Radulf e Dargan.

– Bom dia, lorde Branimir. – a senhora fez um aceno breve com a cabeça. – Um mensageiro do palacete veio mais cedo para anunciar o retorno de vossa alteza. Disse que chegou ontem no fim da noite.

Radulf só concordou com a cabeça, seguido de um sinal de agradecimento, para se servir de café. Ele só tomou um gole antes de fazer um par de sinais perguntando sobre Dargan.

– O menino Dargan já acordou, espirituoso como sempre. – a senhora riu, limpando as mãos num pano de prato antes de voltar a cortar algumas frutas num prato. – Ele disse que tinha trabalho importante pra fazer.

O Conselheiro arqueou as sobrancelhas e fez outro par de sinais para questionar "ele tinha?". A senhora só riu e voltou ao trabalho, falando mais com a comida do café da manhã simples do que com o Conselheiro que fez um sinal pedindo licença antes de sair da cozinha para ir até a entrada da casa.

Não demorou muito a avistar Dargan, energético como de costume, andando a passos largos e firmes carregando debaixo dos braços pequenos algumas pilhas de gravetos maiores do que ele, que deixavam um rastro no chão até chegar à pilha de toras de madeira já previamente cortadas por Wafula, que já estava acabando.

Radulf se encostou a um dos pilares da entrada e seguiu tomando seu café, esperando que Dargan fizesse o caminho de volta para lhe avistar, o que não demorou. Assim que Dargan se virou em sua direção, ele moveu uma mão perguntando o que ele estava fazendo.

– Ah, eu faz o trabalho do pai Wafula enquanto ele num volta! – Dargan anunciou, movendo os braços pequenos e completamente sujos de terra.

O Conselheiro deu uma boa olhada no garoto e na disposição dele em ir buscar mais pedaços de gravetos para juntar às toras de madeira, todos os galhos arrastando as folhas junto, já que a machadinha enferrujada que ele tinha ganhado de Wafula há muito tempo já não fazia mais do que servir de peso de papel.

Radulf voltou para dentro da casa para dar algumas instruções à Orsolya e dispensar o café da manhã. Deixou a caneca vazia na mesa e anunciou que já ia sair e levar Dargan consigo, saindo de casa de novo para ir até os estábulos e preparar a montaria enquanto um garoto muito esforçado terminava de juntar os gravetos e tentar arrancar alguns secos mais baixos das árvores ao redor. Depois de levar o cavalo até a entrada da casa, ele deixou as rédeas presas à um dos pilares e andou até Dargan, pendurado a dois passos de distância do chão, tentando usar o próprio peso para terminar de arrancar um galho baixo de árvore ainda muito verde. Radulf o segurou pela cintura com um dos braços, e com a mão livre, puxou uma adaga na cintura para terminar de cortar o resto do galho e ajudá-lo a arrancar, o que não foi difícil com uma lâmina mais afiada.

Um Silêncio de 15 AnosOnde histórias criam vida. Descubra agora