Nem se Radulf quisesse, ele conseguiria se concentrar muito em ajudar Idris com o trabalho e a magia enquanto pensava naquela criança que Wafula tinha trazido. Não só pelo fato de que o general tinha dito que trouxera o garoto "para ele", mas principalmente pela noção de que tinham deixado passar uma criança daquele tamanho morando numa área completamente devastada pela guerra, e por mais de meses. Tinha que punir os soldados da fronteira também por fazerem uma péssima revista ao fim dos conflitos.
Quando ele chegou ao castelo, deixou algumas das anotações que tinha feito sobre os símbolos catalogados na biblioteca, depois de descobrir que Idris estava descansando de novo depois da noite inteira acordado com mais tentativas de invasão. Radulf não demorou muito, mas aproveitou para encontrar os guardas que faziam rondas regulares ao redor do castelo e pela capital e dar novas instruções, além de descobrir que eles também tinham detido outros invasores e a frequência estava diminuindo.
Em menos de uma hora, Radulf tinha retornado à casa que agora compartilhava com Wafula, e mal desceu do cavalo para guiá-lo até o cercado, deteve os movimentos ao ouvir um barulho alto e pousar os olhos sobre o garoto que Wafula tinha trazido mais cedo. Ele tinha acabado de pular da janela do primeiro andar, pelado, sujo, e corria sobre o teto como se fosse um gato muito hábil.
Mas Radulf não teve tempo nem de se surpreender com a agilidade dele em cima do telhado da casa, quando viu que ele tinha se aproximado demais da borda. O conselheiro correu o mais rápido que conseguiu, bem a tempo de segurar a criança que tinha se jogado do teto sem o menor receio. A surpresa foi tanta que Radulf nem conseguiu se sustentar de pé, caiu de bunda no chão, com o menino agarrado no braço lhe encarando de volta de forma curiosa.
– Moço! – o menino apontou para o rosto de Radulf. – Num fala!!
Radulf soltou o ar todo de uma vez, sentindo como se o coração fosse sair pela boca. Nem a voz de Wafula desviou a sua atenção da criança.
– Garoto! – Wafula apareceu no telhado e deu uma boa olhada para baixo para confirmar que o menino estava inteiro e que Radulf estava lá. – Rad! Ainda bem que você tava aí!
Wafula não pensou muito também antes de pular do teto, caindo no chão bem mais seguro do que a criança.
– Ahhhh!!! Banho não!!!
A presença de Wafula foi suficiente para que o garoto esperneasse para sair dos braços de Radulf e continuar fugindo. Wafula até pensou em agarrar o menino antes que ele arrumasse um jeito de escapar, mas Radulf foi mais rápido, com um braço em volta do garoto para garantir que ele não sairia, fechou a outra mão em punho e desceu com vontade no topo da cabeça dele num cascudo seguro.
– Aaaauuuu!!! – o menino parou de espernear e levou as duas mãos à cabeça, fazendo um bico enquanto os olhos se enchiam de lágrimas. – Waaaaaahhhhh!!!
Radulf até fez um sinal veemente com a mão acompanhando o movimento dos lábios dizendo um "não faça isso de novo", mas não era como se o garoto estivesse prestando atenção ou pudesse entender em meio ao choro desesperado.
– Ele não vai te entender, Rad. – Wafula sorriu, abaixando-se ao lado do conselheiro para notar a expressão pálida dele. – Mas ainda bem que você chegou a tempo, não sei se ele ia ficar int-ai, ai, ai!!
Radulf aproveitou que Wafula tinha se abaixado e segurou-o pelos cabelos trançados para puxar para baixo com força também. Para Wafula, foi muito mais fácil ler os lábios dele num "você também". O choro quase desesperado do garoto foi só substituído pelo interesse no puxão de cabelo que Radulf tinha dado em Wafula.
– Não foi de propósito, Rad! Ele saiu correndo, eu disse que ele era rápido! E ele não quer tomar banho.
– Eu num quer!!!
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Um Silêncio de 15 Anos
Romance࿐ Spin-off: O Ladrão dos 13 Corações ࿐ Por mais de vinte anos, Wafula e Radulf serviram no exército de Arcallis e não há nada que eles não saibam sobre o reino, o regente, as guerras e as duras vitórias conseguidas com muito esforço e a paz alcançad...