XXII. Uma Manhã Agitada

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Andras trabalhava com o conselheiro há bons dez anos. Sua carreira ia desde ter chegado ao palacete só como um funcionário de baixo status, até aprender rápido como as coisas funcionavam e principalmente aprender a língua de sinais de Radulf para ser gradualmente promovido no trabalho. Era um trabalho cansativo, mas era um trabalho que compensava, e enquanto conseguisse atender aos requisitos do conselheiro e manter o serviço em ordem, era bem recompensado.

Por outro lado, se o conselheiro ficasse desagradado... bom, as execuções de dez anos atrás não eram só decisões do rei. E naquele dia, em dez anos de trabalho, Andras tinha certeza de que seria executado, nem que fosse na calada da noite.

Era simplesmente impossível fazer o próprio trabalho e ficar de olho naquele garoto mais rápido e esquivo do que os guardas bem treinados do palacete. Andras o perdeu de vista mais de três vezes e ainda colocou os guardas para perseguirem o garoto que foi encontrado até em cômodos trancados e em cima do teto. Mas quando achou que estava salvo, no fim da tarde, Dargan sumiu mais uma vez, mesmo com todos os guardas mobilizados, não havia sinal da criança, e o sol estava sumindo no horizonte.

Dez anos de trabalho duro, guerras intermitentes, invasões e execuções. Era irônico que ele fosse morrer por ter perdido uma criança de vista. Os guardas continuaram procurando pelo garoto, quando Andras resolveu finalmente voltar ao escritório de Radulf e aceitar qualquer que fosse a punição pela sua falha.

Ele bateu na porta um par de vezes, antes de ouvir uma batida em resposta para poder entrar.

– Vossa excelência, com licença, eu...

Andras nem precisou terminar a sentença. Os olhos pousaram primeiro em Radulf que tinha se levantado atrás do gabinete com papeis em mãos, e depois, em Dargan deitado no chão do meio da sala, muito distraído riscando uma pilha de papeis e pergaminhos. O secretário não sabia se ficava aliviado por ter achado o garoto ou se ficava ainda mais preocupado que, se ele estava ali, era a prova de que o tinha "perdido de vista". Mas antes de conseguir explicar algo, Radulf se aproximou com vários papeis em mãos e estendeu em sua direção, para gesticular em seguida.

"Mande os documentos por um mensageiro para o castelo. Eu vou para lá primeiro amanhã, volto durante a tarde".

– Sim, senhor.

"Vou embora agora, se houver alguma urgência, mande um mensageiro", Radulf especificou, voltando na direção de onde Dargan estava muito interessado em continuar riscando as folhas.

– Olha, olha! Eu desenha!! É papel, bem muito papel! – Dargan levantou vários pergaminhos de uma vez para mostrar os muitos rabiscos indistintos. Logo viu um par de sinais de Radulf que ele entendeu como "ir" e "casa". – O papel tabém vai?

Radulf concordou com um aceno de cabeça e o garoto concordou com um "Tá" muito animado, juntando todas as folhas debaixo dos dois braços, amassando mais da metade, para acompanhar os passos de Radulf mais obediente do que tinha sido a tarde toda.

– Tchau, tio! – Dargan ainda se despediu de Andras ao sair da sala a frente de Radulf, que se despediu com um aceno breve e deixou a sala, fechando a porta ao passar.

Andras nem respondeu, só acompanhou a cena como se fosse impossível assimilar o que tinha acontecido. Bom, ao menos ele continuaria vivo por mais alguns dias.

Dargan não tinha se cansado tanto quanto depois de correr pelo castelo inteiro e dar trabalho aos criados de Idris no dia anterior, mas descobriu que o papel era uma novidade interessantíssima para o menino, e aquilo lhe ajudou a conseguir mantê-lo pelo menos dentro de casa naquela noite, até ter a mesma guerra para o banho e conseguirem dormir.

Um Silêncio de 15 AnosOnde histórias criam vida. Descubra agora