31° CAPÍTULO

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A minha vontade de levantar da cama na segunda-feira se resume a nenhuma. Férias nos deixam mal-acostumados.

Eu me arrumo rapidamente e pego minha bolsa antes de ir à cozinha.

Sarah finge levar um susto quando me vê sentada na banqueta.

– Gata, o que aconteceu com o seu cabelo? Parece um tipo de... Criatura sobrenatural. Poderíamos chamar os Winchesters. – Diz referindo-se à sua série preferida.

Coloco a mão na boca para cobrir um bocejo.

– Estou cansada demais para arrumá-lo.

– Ainda bem que o Carraway não acorda todos os dias com você.

– Cale a boca.

Ela dá risada e encosta-se ao balcão, amarrando os cabelos longos e negros em um coque.

– Vai querer comer alguma coisa?

– Será que você poderia me dar uma xícara cheia de café? – Peço.

Sarah dá meia-volta e abre a porta do armário, retirando uma xícara de lá. Enche de café e me entrega junto com o adoçante. Só depois do primeiro gole que eu começo a me sentir um pouco mais disposta.

– Acho que preciso falar com você. – Diz baixinho.

Essas conversas nunca levam a algo bom. Assopro a superfície e olho para ela por cima da borda da caneca.

– Será que eu vou precisar de algo mais forte para enfrentar o que você vai falar? Tenta se lembrar de que ainda nem são oito horas.

Ela sorri. – Será que você não quer um pouco de vodka?

Estreito os olhos, não gostando nem um pouco da insegurança no seu tom de voz. – Fala logo, Sarah.

– Tá, certo. – Pega uma respiração profunda. – Eu acho que vou me mudar.

– O quê?! – Exclamo, colocando mais força em minha voz do que deveria.

Espero ela dizer que está brincando, mas não acontece.

– Como assim você quer se mudar?

Eu entendo que nós duas já somos bem adultas para dividir um apartamento, mesmo que ele seja grande o bastante, mas nós moramos juntas há muito tempo. Não estou preparada para isso. 
A gente nunca está preparado para nada até que acontece.

– Anne, olha. Eu tenho vinte e seis anos, farei vinte e sete daqui alguns meses, não é certo eu não ter a minha casa, o meu espaço, entende? Você está namorando, eu também, e precisamos ter a nossa privacidade.

– E... – Balanço a cabeça, tentando colocar meus pensamentos em ordem e, ao menos, considerando as coisas que são verdades no que ela falou. – Você quer morar em outra cidade?

– Não. Quero um apartamento perto do Mount Sinai. Eu não aguentaria ficar tão longe de você indo morar em outra cidade, gata.

– Preciso de um tempo para me acostumar com a ideia. – Pego minha bolsa ao meu lado e vou até ela para lhe dar um beijo na bochecha. – Preciso ir, mas temos muito que conversar. A gente se fala à noite.

Ela balança a cabeça e eu saio do apartamento. Eu até poderia usar o metrô, mas pretendo ir a outros lugares depois do expediente.

Enquanto dirijo no trânsito infernal, penso no que Sarah disse. Mesmo que seja difícil assumir, é mesmo a hora de termos a responsabilidade de uma casa, de cuidarmos de algo sozinhas. A vida é feita de mudanças, mesmo que às vezes elas causem dor, afinal, Sarah é o meu ombro amigo, uma das pessoas que eu mais confio e que sempre esteve ao meu lado. Se realmente isso acontecer, vai ser difícil me acostumar.

Em Seu DesejoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora