Lar.

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ANGEL

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ANGEL

Eu me lembro de pensar todos os dias em como sobreviveríamos aquilo, e bom se sobrevivêssemos, eu me perguntava como teria cara de admitir que coloquei ele em perigo assim que ele nasceu, assim que entrei naquele maldito navio.

Eu era uma mãe de merda.

Finalmente caminhei mais alguns passos até estar na frente do portão, pensei em tocar a campainha primeiro mas aí eles me veriam pelas câmeras e a julgar pelas possibilidades, podiam não me receber ou pensar que era apenas uma falha no sistema, uma gravação antiga. Isso sempre acontece quando chove e o chão estava molhado, então choveu recentemente.

Minha opção, foi testar o código e ver se continuava o mesmo e depois disso entrar de fininho, no que um dia já foi minha casa. Ergui a mão esquerda na frente do painel eletrônico e comecei a discar. 09 o meu dia, 15 o dia de Topper e 11 o meu pai. Após as combinações, cliquei no enter e como mágica a luz ficou verde e aquilo serviu pra acalmar algumas partes fazendo barulho dentro de mim.

Engoli em seco, assoprando pela boca e empurrei o portão de madeira escura. A grama estava perfeitamente aparada no jardim principal, como sempre foi. Continuei caminhando até me deparar com um canteiro de flores novo. Proteas. A minha flor favorita estava plantada e se erguia do chão as paredes do muro. Isso não estava aqui antes.

Me aproximei da parede para tocar em alguns ramos, e senti a textura fresca e harmônica da pétala nos meus dados. Inalei o cheiro com tudo que o meu corpo pendeu para trás. Casa.

Ao olhar para o cais, os barcos do meu irmão estavam ali, a sua coleção parecia não ter aumentado. Caminhei  em direção a porta e me preparei pra bater, e ao primeiro toque ela se abriu com a força mínima dos soquinhos que dei. Já estava aberta.

Adentrei a casa com medo e cuidado. Olhei ao redor e a sala parecia estar limpa, mesma coisa a sala de jantar e a cozinha também. Nenhum funcionário e nem sinal da minha mãe ou irmão. O jeito era checar os outros espaços.

Fui andando em direção ao corredor e ao olhar para o lado esquerdo, vi toda a nossa história nas paredes. A régua de altura que eu e Topper fazíamos. Os rabiscos que o meu pai não quis cobrir por nada. Fotos do meu primeiro dia de aula e ao lado o primeiro dia de Topper. Eu tocando piano aos 6 anos e sem os dentes da frente. Eu e Topper cantando no karaokê.

Uma lágrima escorreu do meu rosto, esses momentos, a nossa infância. Tudo foi tão precioso, tão mágico e ao mesmo tempo tão simples e puro. Éramos felizes, mesmo com a mamãe ausente e papai doente. Estávamos bem, tínhamos um ao outro.

O pesar no meu peito veio mais forte, ao lembrar da minha promessa e de nunca mais deixá-lo, eu já estava fora por um mês. Sabe lá o que ele pensou, o que ele sentiu ou pior o que ele pode ter se tornado.

I hate u, I love you • Rafe Cameron Histórias para pegar e não largar. Descubra agora