Viciado era um eufemismo para o que eu senti quando meus olhos bateram naqueles cristais azuiz. Cora era um sonho, uma fraude, uma mentira distorcida que ela contou para si e levou os outros a afundarem no barco de mentiras. Mas ela era acima de tud...
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Eu arregalo meus olhos com a imagem de minha mãe e irmã caídas a minha frente, sangue escorre pela cabeça delas pintando o tapede bege de vermelho, meu coração erra algumas batidas enquanto eu me afasto lentamente balançando a cabeça em negação.
Eu não fiz isso, eu não posso ter feito isso. No entanto minhas mãos dizem o contrário, eu ouço passos...
Papai.
Eu fico em alerta e então pego o bastão correndo para me esconder, ele vai me bater, muito mais do que fazia antes, ele pode me matar também, eu sinto meu corpo tremer enquanto espero, minutos depois ele entra, eu vejo ele arregalar os olhos quando olha a cena a sua frente.
— O quê que aconteceu aqui?— ele olha em volta.— Meu amor?— ele vai até mamãe se agachando e toca seu pescoço, sangue manchano suas mãos.— Não, não, não.— ele diz e segue em direção da minha irmã. Ela sussura algo para ele e tosse, sangue sai de sua boca, eu aperto o bastão na minha mão mordendo o interior da bochecha até sentir o gosto metálico explodir, ela, sempre ela.
— Não, não... não!— me assusto com seu grito.— Quem fez isso? Onde está Rumia?— ele checa minha irmã.— Meu amor, meu amor fique comigo.— ele pega seu celular ligando, provavelmente para uma ambulância, minha visão fica vermelha, se ele ligar para a ambulância, vão querer saber o que aconteceu e eu posso acabar na prisão, eu não posso ser presa, eu só tenho dez anos.
Tudo que papai e mamãe fizeram comigo passa pela minha mente, eu fico com mais raiva ainda, preciso me livrar dele também, ele não gosta de mim, ele nunca gostou, ele só gosta da minha irmã, ele também precisa morrer. Eu ando de fininho até eles, minha irmã me nota, então ela tenta falar algo para alertar meu pai.
— Tudo bem querida, a ambulância estará aqui.— ele diz e segura ela em seus braços.
— Não..—ela tenta.— Rumia..— sussura.
— Rumia? Onde ela está?
É tarde demais quando papai vira a cabeça porque eu bato com força fazendo o pescoço de papai fazer barulho e o taco quebrar, papai cai ao lado da poça do sangue de minha irmã.
— Estou aqui, papai.— sussuro, não consigo sentir nada quando meus punhos apertam no bastão eu vejo minha irmã dar um último suspiro antes de fechar os olhos, agora os três estão deitados com sangue os cobrindo, eu deixo cair a parte que restou do bastão e olho aterrorizada.
Eu fiz? Eu fiz o que sempre sonhava? Eu matei meus pais e irmã? Eu mordo meu lábios com força e tremendo, e agora? O que vou fazer? Como vou viver? Eu engulo apavorada e ouço sirenes lá fora, engasgo e dou passos para trás, quando espreito pela janela eu vejo um carro da polícia e ambulância.
Eu recuo assustada, e agora?
Corre.
Uma voz no fundo do meu consciente grita e eu faço isso, eu dou meia volta pela porta dos fundos e corro, para longe, ou pelo menos pensei, eu corro um pouco antes de uma mulher me pegar, eu tropeço e começo a chorar desesperadamente tremendo.
— Eu não fiz nada eu não fiz nada.— eu digo assustada e ela agarra meus ombros.
— Está tudo bem querida, está tudo bem.— ela pega uma paninho e limpa minhas mãos.
— Eu não fiz nada.
— Eu sei, eu sei.— ela acarecia meus cabelos.— Mas você pode me dizer uma coisa?— dou de ombros.— Como se chama?
Eu mordo minha língua, nunca fui uma boa garota, nunca fui recompensada, papai sempre me batia e me humilhava assim como mãe, ao contrário da minha irmã, sempre a perfeita.
Eu respiro fundo.
— Cora.— olho para a polícial. — Meu nome é Cora Green.
Nesse dia, eu soube que estaria roubando a identidade da minha irmã para sempre e que deveia fazer coisas para horá-la.