RUMIA GREEN
Quem é Rumia?
O que ela gosta?
O que ela faz para se sentir feliz?
Meus olhos brilham no espelho embaçando minha visão, Marcus saiu do quarto cerca de cinco minutos atrás, eu vasculhei o ambiente, tem muita roupa e maquiagem feminina, eu me pergunto de quem é este quarto, eu também me pergunto se Marcus fez ele para mim e depois rio, claro que não.
Eu desvio meu olhar do espelho para a banheira que enche, voltando para o espelho eu me faço as mesmas perguntas novamente: Quem é Rumia? Toda a minha vida eu vivi com a imagem da minha irmã, Cora perfeita, uma boneca barbie, uma princesa, a filha amada, eu fazia coisas que achava que Cora faria, eu não sei o que eu gosto, eu não sei quem sou.
Então porquê que eu fiquei triste e abalada quando Marcus me chamou de Cora? Não era esse o nome que eu usava? Eu não deveria estar feliz? Pelo menos assim eu não me sentiria exposta, pelo menos assim parecia que ele não sabia dos meus segredos mais escuros e outra pergunta, como ele sabe? Quem contou? Ele investigou? Suspirando, eu coloco uma bola de espuma na banheira, tem cheiro de morango e algo mais doce.
Eu sempre me certifiquei de usar perfume de baunilha, era o cheiro de Cora, eu não lembro qual era o meu, mas morango é bom, eu gostei de como a água ficou vermelha como um rio de sangue, eu arregalo os olhos... Sangue.
"Vermelho fica lindo em seus lábios"— eu me lembro da voz de Berlingam na sala médica dele, fechando meus olhos com força, eu respiro fundo antes de me livrar da camisola e entrar na banheira, eu afundo nela sentindo a água quente relaxar meus músculos e o vermelho pintar minha pele pálida.
Quem é Rumia?
Eu tenho vinte anos, todos meus aniversários eu passei sozinha, eu era popular na escola, de facto mas nenhum dos parabéns que recebi tinham calor que eu esperava, até os parabéns de Melanie não eram tão calorosos quanto eu desejava porque eu me sentia uma fraude, não era "Feliz aniversário Rumia" era "Feliz aniversário Cora".. Rumia nunca recebeu feliz aniversário. Rumia nunca teve festa de aniversário desde que completou dez anos, Rumia não é ninguém, ninguém conhece Rumia, Rumia não tem amigas, Rumia nunca foi amada, Rumia nunca foi vista.
Rumia não existe.
Só duas pessoas conheceram Rumia— Jaden, meu primeiro namorado e ele.. Marcus, eu sorrio brincando com a água, Marcus viu muito mais do que Jaden.
Jaden viu minha inocência e usou isso para me manipular, Marcus viu minha escuridão e me abraçou, ele gostou disso, ele gosta da minha explosão, ele gosta da minha luta, ele não gosta da minha inocência.
— Marcus.— eu sussuro antes de afundar mais meu corpo, eu fecho os olhos debaixo da água, é a primeira vez que falo seu nome em voz alta.
Ele é meu fornecedor, talvez, no fim das contas, eu só precise parar de correr e pagar minha dívida, quem sabe assim eu não seja liberta? Eu nem sequer pensei nisso, talvez ele realmente me liberte, eu posso começar do zero, sem vícios, sem mentiras, eu posso ir para uma nova cidade e ser Rumia Green, ou posso voltar para a minha antiga e continuar ser Rumia, ninguém vai se importar comigo, ninguém se importa, ninguém me espera, ninguém me vê, ninguém gosta de mim.
Eu ouço a porta do banheiro abrir, eu não saio debaixo da água, sei que é Marcus pelo passo cauteloso, eu também posso sentir sua presença.
Alguns minutos depois, quando o ar me falta eu me retiro, a água vermelha esconde o meu corpo nu, eu olho para ele, suas sobrancelhas franzidas enquanto ele me encara.
— Arrume-se, nós vamos sair.— sua voz soa dura e distante. Porquê que ele está distante? Ontem a noite ele me abraçou, ele pode fazer isso se quiser, eu deixo.
— Pra onde?— sussuro, uma lágrima solitária cai em minha bochecha. — Preciso saber como vestir.— falo quando ele permanece em silêncio me encarando sem expressão.
— Uma festa de gala.— é tudo que sai de seus lábios antes dele se virar e sair, eu suspiro e puxo meus pés para meu peito.
Volte Marcus, volte e me console, por favor.. Por favor Marcus, me mostre o que é amor, me mostre quem eu sou, será que ele pode fazer isso? Será que eu mesma posso fazer isso? Eu estou fugindo e lutando, isso é amor suficiente por mim?
Enchugando as lágrimas eu saio da banheira e entro no box me molhando com a água limpa depois puxo um roupão no cabedeiro e visto, eu entro no enorme closet e procuro o que vestir, eu vasculho entre os vestidos procurando um que me agrade. Eu passo meus dedos pelos vestidos caros olhando um por um, sorrio quando vejo um azul chamativo, eu me lembro de ter um moletom azul quando eu tinha sete anos, era meu favorito porque era da cor dos meus olhos.
Talvez minha cor favorita seja azul.
Puxo o vestido e suspiro, é longo com um V aberto na parte das costas, em frente tem um decote e é apertado na parte da cintura e quadris, ele também tem uma fenda enorme até ao chão, ele é lindo. Eu olho para os saltos e escolho um que combine, eu pego uma espécie de cachecol branco de pelos fofos e deixo de lado, de joalheria pego apenas um colar delicado e uma pulseira de prata também.
Eu não deveria me sentir confortável em usar roupas de alguém que eu nem saiba, mas neste momento nada me interessa muito, eu prendo meu cabelo em um coque elegante no alto da cabeça e faço uma maquiagem impecável não esquecendo o detalhe azul nas sombras e pedrinhas brilhantes azuis e pratas para combinar, depois de vestir eu sorrio para o meu reflexo. Pela primeira vez na vida vesti pensando em mim.
Em Rumia! Pela primeira vez na vida não olho para mim e acho que sou uma fraude, eu estou linda, eu sou Rumia.
Algumas batidas na porta soam.
— Entre.— digo ao sair do closet para o quarto e então vejo a empregada da casa, ela me da um sorriso mínimo.
— Senhorita Green, o senhor Berlingam a espera lá em baixo.— ela avisa e eu assinto.
— Obrigada Greta.— ela sorri fraco.
— A propósito senhorita, você está linda, você está mais linda loira.— ela diz antes de sair e eu franzo as sobrancelhas confusa.
Eu sempre fui loira, será que ela me viu mal? Balançando a cabeça puxo um pouco meu vestido e saio do quarto, não antes de pegar uma bolsinha branca, eu passo o casaquinho branco pelos meus ombros e desço lentamente as escadas com medo de cair por causa do salto alto e meu tornozelo ainda latejante.
No andar de baixo eu ouço vozes masculinas e o barulho do meu salto chama atenção, eu estou no último degrau quando três cabeças me encaram, Turken, pai de Berlingam e o próprio Berlingam, o ar foge dos meus pulmões quando seu olhar encontra o meu.
É como se fosse a primeira vez eu a ver ele, meu coração acelera em sua caixa e vejo os olhos dele brilharem levemente ao se arregalarem, sua boca forma um pequeno O e ele estuda todo meu corpo, eu sinto um formigamento na barriga e nos dedos dos pés.
— Estaremos lá fora.— seu padrasto diz e puxa Turken, Marcus e eu ainda estamos nos encarando, ele também está bonito com as calças pretas de tecido leve, camisa preta e um casaco preto chique e provavelmente caro, eu engulo em seco e me endireito quando ele começa a caminhar, eu sinto que vou cair por por isso agarro o corrimão com força.
Este homem será minha ruína.
CONTINUA...
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WHERE IS RUMIA?
General FictionViciado era um eufemismo para o que eu senti quando meus olhos bateram naqueles cristais azuiz. Cora era um sonho, uma fraude, uma mentira distorcida que ela contou para si e levou os outros a afundarem no barco de mentiras. Mas ela era acima de tud...
