RUMIA
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CORA GREEN
Encarei o pó dividido em uma linha fina, meu corpo tremia de necessidade, engolindo em seco antes de me inclinar sobre a bancada de mármore, eu inalo soltando um suspiro porém não satisfeita.
Era meu último, e não era suficiente, eu vou enlouquecer desse jeito, eu havia decidido parar com as drogas mas ninguém me contou que esse seria um processo difícil, sentindo minhas mãos trêmulas eu encaro meu reflexo no espelho.
Odeio o que vejo. Baixando meu olhar eu cheiro os resíduos e respiro fundo fechando meus olhos jogando a cabeça para trás.
Não é suficiente.
Preciso de mais, muito mais, pelo menos por hoje, por agora, amanhã eu inicio minha meta de não cheirar, eu só.. Só preciso de um pouquinho e isso estava me matando porque eu não tinha, cocaína era caro e me custava muito para conseguir, mesmo que tenha achado um fornecedor online que fazia o trabalho de me mandar e dizia que eu poderia pagar quando puder, compro com ele desde os dezesseis anos então eu acredito seriamente que estou devendo muito dinheiro pra ele.
Eu não via muita saída além de me humilhar para isso. Repiro fundo, hoje é a última vez, eu juro para mim, último dia, é que as coisas não correram bem ultimamente.
Na verdade, as coisas não correm bem desde que fiz dez anos.
Suspiro antes de abrir a porta do banheiro da enorme casa de Patrick, a música eletrônica estoura meus tímpanos de volta enquanto eu caminho pelos corredores vendo várias pessoas um tanto quanto conhecidas bebendo, fumando, dançando, vasculho a área procurando pelo meu melhor amigo.
— E aí Cora.— um cara qualquer me comprimenta, eu era minimamente popular e já tive vários caras comendo no meu pé, mas desde que vazaram dois vídeos íntimos meus, as pessoas me enchergam como uma foda fácil, não julgo já que eu mesma provoquei.
Me virei para ele não o reconhecendo.
— E aí? Viu o Patrick?— pergunto e ele da um sorriso de lado.
— Pra quê Patrick enquanto eu estou bem aqui.— ele se aproxima, seu corpo suado por causa de dançar, eu acho, cheirando bebida e outras substâncias.
— Você da mais dois passos na minha direção e eu estou cortando suas bolas.— aponto.
— Não se faça de difícil, todo mundo sabe que você adora chupar um pau, te pago cem, se isso é suficiente para você se drogar até ao amanhecer.— reviro os olhos. Poderia me importar, mas esse tipo de comentário é tão comum que já não me abala.
— Vai se foder filho da puta.— me viro para sair mais ele me puxa.
— Filha da puta é você! Abaixe-se!— berra e eu dou um sorrisinho.
— Claro.— simulo e quando minha cabeça está devidamente na altura onde quero, dou uma cabeçada nas bolas dele e ele grita.— Filho da puta.
— Desgraçada.— ele diz segurando a região recém machucada, eu mando um beijo para ele e dou meia volta indo a procura de Patrick enquanto seus xingamentos vão ficando inaudíveis por causa da música alta.
— Patrick, cadê você.— murmuro ansiosa, sei que quero parar com as drogas mas elas me mantém distante dos meus pensamentos até certo ponto e essa luta será muito difícil pelos vistos porque eu não tenho nada realmente para que possa me segurar. Além de não ter nada e nem ninguém, eu não vejo motivos para lutar.
E não vejo motivos para lutar por mim quando acho que não mereço nada e nada de bom virá para mim, eu usei a imagem da minha irmã perfeita achando que teria uma vida perfeita, mal sabia eu que seria um pesadelo.
As vezes dou graças a Deus por Cora estar morta as vezes me arrependo— aquele acidente terrível me assombra até hoje, nunca imaginei que uma pessoa poderia morrer com um baque na cabeça, mas éramos novas demais, Cora tinha apenas dez anos e ela não sobreviveu assim como meus pais e a seguir fui eu. Só que Deus não quer tirar minha vida rápido igual fez com Cora ou meus pais, ele quer que eu pague na terra e no inferno me fazendo viver essa vida miserável que vivo.
E sinceramente? Eu estou fazendo de tudo para adiantar minha morte, está sendo torturante ter que viver assim, sofrendo sozinha. Antes eu tinha Melanie, mas até ela eu não consegui manter, meu coração aperta com dor, claro que não sou nenhuma santa e o que fiz com minha melhor amiga é imperdoável.
Mas não posso fazer nada, Melanie nunca vai entender, ela sempre teve tudo, eu nunca tive nada, estava tão desesperada que quando me deram o pouco achei que era tudo, mas agora que nem o pouco que tinha tenho? Vou me afundar no nada.
— Patrick!— o idiota estava aos beijos com uma garota na cozinha.
— Ei, oi cupcake.— ele se afasta da garota e sorri para mim, meu coração aquece. Além de Melanie, Patrick é outo amigo que tive— um de verdade que não me julga e me chama de Cupcake, um apelidinho brega mas estranhamente fofo e confortante.
— Desculpa atrapalhar isso.— gesticulo.— Mas eu preciso de..— coço o nariz para que ele entenda.— Você sabe.
— Achei que quisesse sair dessa vida.— ele pula da bancada e da um selinho na garota sussurando algo que faz ela sorrir e se retirar. Sorrio achando fofo.
— Eu também.— digo me aproximando dele.— Mas está difícil, você sabe.— dou de ombros.
— Olha Cora.— ele tira do bolso um saquinho e eu posso sentir meu corpo se animando.— Eu gosto muito de você, mas isto vai te matar, não pode mais ficar cheirando cocaína toda hora, é o momento de parar.
— Tudo bem, hoje é a última vez.— digo esticando minha mão.
— Não.
— Não?
— Se você quiser isso, você vai ter que pagar, sou seu amigo mas negócio é negócio.— ele da de ombros, ele está fazendo de propósito porque sabe que não tenho dinheiro. Sem contar que eu estou devendo meu antigo fornecedor, que por mais doido que seja, eu nem sei quem ele é.
— Você sabe que eu não tenho dinheiro!—digo entre dentes e ele da de ombros.
— Eu também, por isso estou lhe vendendo desta vez.— ele fala obviamente mentindo, seus pais são médicos mais famosos de Suntowen.
— Olha, eu posso arranjar, te pago em uma semana.— digo e ele nega.
— Preciso do dinheiro para amanhã.— outra mentira.
— Patrick...!— reclamo.
— E aí Rick!— Joshua aparece na cozinha abre a geladeira e tira uma garrafa de cerveja.— Exatamente o que eu queria.— ele arranca o saquinho da mão de Patrick.
— Ei filho da puta, estou cobrando!— diz Patrick.
— Relaxa cara,— Joshua tira do seu bolso cem fodidos dólares e joga para Patrick.— E aí Cora.— ele pisca e se retira.
— Foi mal cupcake.— Patrick diz balanço a nota.— Não pude ajudar dessa vez, agora se me der licença, minha garota está me esperando.— ele manda beijo e se retira.
Olho por onde Joshua saiu e pondero.. Bem, ele não é feio e é alto, então tudo bem, eu posso lidar com isso, eu só preciso de mais um pouco, um pouquinho para aliviar a tensão dos meus músculos, amanhã estarei parando, eu suspiro uma última vez antes de ir procurar Joshua.
Foda-se, vai ser isso.
CONTINUA....
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WHERE IS RUMIA?
General FictionViciado era um eufemismo para o que eu senti quando meus olhos bateram naqueles cristais azuiz. Cora era um sonho, uma fraude, uma mentira distorcida que ela contou para si e levou os outros a afundarem no barco de mentiras. Mas ela era acima de tud...
