Helena já enfrentou mais perdas do que muitos aguentariam. Órfã desde cedo, foi criada pela avó e, depois, por Camélia - a mulher que lhe deu abrigo quando tudo desmoronou. Cresceu entre contas apertadas, promessas silenciosas e a certeza de que só...
A grande porcaria do "casamento" da Helena será hoje.
E eu? Eu estou aqui às três da manhã escorado no balcão desse bar, bebendo a quinta dose de um uísque barato.
Perambulei a noite toda pela cidade na tentativa de esquecer, mas foi inútil. Cada lugar, música e risada lembrou-me ela.
Perdi a conta de quantas vezes pedi para tudo isso ser apenas um pesadelo, onde eu acorde e veja que Helena dorme aconchegada em meus braços, em seu pequeno sofá da sala.
Não nos falamos desde que ela marcou a data desse casamento, há um mês atrás. Eu simplesmente não consigo. Não consigo aceitar esse acordo idiota e até quebrei minha promessa de que ficaria sempre ao lado dela.
Eu perdi a alegria dos meus dias, que era ela quem trazia. Meu coração está despedaçado.
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— Ei, rapaz. — O dono do estabelecimento me chama. — Eu preciso fechar o bar. — Ah... É claro. Tudo bem. — Mato a última dose em apenas um gole e me levanto, cambaleando. — Já estou indo. — Você não se parece com as pessoas que frequentam aqui. O que houve para você ter tomado esse porre? — Ele me observa, enquanto limpa o balcão. — Nada. — Minto. — Só queria espairecer. — Bem convincente. Talvez eu acreditasse se não ouvisse essa mesma desculpa há mais de dez anos nas mais diversas vozes. — Ele deixa o pano. — Vamos lá, rapaz. — Minha melhor amiga vai se casar. — Me sento novamente, baixando os ombros. — Isso seria motivo de comemoração. — Ele se senta ao meu lado. — Já sei... Você é apaixonado por ela. — Touché. — Aí complicou. — Coça a cabeça. — E ela ainda quer que eu seja seu padrinho. — E você não aceitou, pois simplesmente não consegue fazer isso. Não consegue vê-la nos braços de outro homem, jurando amor eterno. — Você é dono de bar ou vidente?
Ele ri, dando um tapinha amigo em meu ombro.
— Já vi de tudo nessa vida, rapaz. E vai por mim, seu caso não é único. Já vi e ouvi tantas histórias de corações partidos que poderia escrever um livro. — Então me ajuda. O que eu faço? — O que você faz? Ora, vá atrás dela!
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Sigo o conselho do sábio dono do bar e após algumas horas de sono, um bom banho e remédios para dor de cabeça, visto meu terno e guio meu carro até a igreja.
Mas, ao invés de impedí-la de se casar, me posto no altar, como seu padrinho.
Quando a vejo entrando, deslumbrante em seu vestido de noiva, tenho vontade de correr até ela e levá-la para bem longe.
"Dane-se esse teatro!" — Penso.
Porém, todo meu plano vai por água abaixo quando ela me olha e sorri. Ela parece feliz.
Mantenho a postura durante toda a cerimônia, me seguro para não arrebentar o Babaca Gama quando ele a beija e aguardo sua saída da igreja.
Seus olhos vem de encontro aos meus. Vejo a aliança reluzir em seu dedo e tenho vontade de arrancá-la e jogar o mais longe possível.
Mais uma vez falho.
Apenas digo como ela está bonita e que eu a amo.
Minha cabeça doí, me sinto enjoado.
Talvez pelo porre da madrugada. Talvez por minha falta de coragem.
Decido ir embora e quando estou prestes à entrar em meu carro, Caíque me chama:
— Ei, Nathan, espere!
Giro nos calcanhares e o encaro.
— O que você quer? — Obrigado por ter vindo. Foi muito importante para a Helena. — Eu ainda tinha esperanças de que ela desistisse. — Ela aceitou fazer isso, ela quis. Está na hora de você se conformar, Nathan. — Você fez Helena adquirir uma dívida com você, mexeu com o emocional dela, jogou sujo. — Aponto o dedo para seu peito. — Eu não fiz nada disso. Eu só quis ajudar.
Dou uma risada sem humor.
— Não precisa se fazer de bom moço, Caíque. Não comigo. — Eu não estou me fazendo de nada. — Quem você quer enganar? — Olha, vamos ser francos, Nathan. Você não gosta de mim e eu também não vou com sua cara. Mas eu fiz o que fiz de coração, vi o desespero da Helena e me sensibilizei. Nunca exigi que ela aceitasse se casar comigo por isso. — Isso também já não importa mais. Está feito, não é? — Cerro meu maxilar. — Só espero que você cuide bem dela e a trate da melhor forma possível, porque se você não fizer isso, se Helena fizer uma única reclamação, eu juro que vou atrás de você, te acho até no inferno. — Você não me assusta. Sabe disso, certo?
Encaro-o, com os punhos cerrados.
— Mas fique tranquilo. Eu vou cuidar da Helena. Eu gosto dela.
Sorrio sem humor.
— Ela é diferente das mulheres que você está acostumado. Ela não vai te colocar em um pedestal só por causa do seu sobrenome. — Eu já sei disso. — Ele engole em seco. — Ótimo. Saiba que ela cerra os lábios quando está chateada ou magoada. Que ela ama brigadeiro, comédias românticas e tem medo de trovões, muito medo. Ela canta no chuveiro e só dorme com edredom, não importa o quão quente esteja. E por mais que se faça de durona, ela é sensível. Então, se você magoá-la, eu acabo com a sua raça! — Pego a chave do carro em meu bolso. — Agora vai lá ficar com ela, faça o seu papel de marido.
Entro em meu carro e dou partida, deixando Caíque parado me olhando ir embora, parecendo abalado.
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Ligo o som e sigo para casa, com lágrimas correndo livremente por meu rosto.
Entro em casa atordoado, afrouxo minha gravata e me jogo no sofá. Choro feito criança, como há muito não fazia.
Pouco depois, a campainha toca. Me recomponho rapidamente e digo:
— Pode entrar... Está aberta. — Oi. — Marina entra, com o olhar preocupado. — Precisava ver como você estava. Vi como você saiu abalado do casamento. — Eu não quero falar sobre isso, Ma. — Fungo. — Ok, não falaremos, então. — Ela desvia seu olhar para o tapete. — Então... Será que eu posso ficar aqui? Não quero voltar para casa. — Seus pais ainda estão em crise? — Dou espaço para ela se sentar. — Cada dia pior. — Vai ficar tudo bem. — Não sei. Mas espero que fique.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
— Está com fome? — Pergunto.
Ela concorda com a cabeça.
— Vou fazer um lanche para a gente, então. — Quer ajuda? — Ela pergunta. — Quero.