Capítulo 12

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  • Sofia •
Mafalda: Eu sei que você tem medo que isso aconteça de novo, sei que você pisa em ovos, que se polícia diariamente e que tem medo pelas pessoas ao seu redor. Sinto lhe informar mas enquanto você não denunciar isso vai continuar acontecendo. - Uma lágrima escorreu do meu olho.
Sofia: Como sabe disso tudo? - Tentei mudar minha voz. - Já passou por isso?
Mafalda: Não, mas minha mãe já. Meu pai espancava ela, abusava, humilhava, xingava. Só porque eles eram casados não deixava de ser abuso Sexual. Não deixava de ser estuprado!
Sofia: Ela denunciou?
Mafalda: Sim. Depois de muitos anos sofrendo ela teve coragem de ir a uma delegacia, mas isso só aconteceu quando ele quase a matou. Na verdade quem mais incentivou ela a denunciar foram os vizinhos, ninguém mais podia ouvir os gritos, o sofrimento, tanto dela quanto dos filhos. Na época eu era só uma criança e não entendia o que acontecia, mas hoje eu entendo e desprezo aquele homem. Quando cresci jurei ajudar mulheres que assim como a minha mãe passaram ou ainda passam por isso.
Sofia: Por isso se tornou enfermeira? Talvez se fosse policial ou algo do tipo conseguiria realmente alcançar seu objetivo.
Mafalda: É, talvez. Você foi estuprada, não foi?
Sofia: Fui. - Comecei a chorar.
Mafalda: Quem fez isso com você?
Sofia: Por favor.
Mafalda: Tudo bem, não vou te obrigar a citar nomes. Só me responde uma coisa, essas agressões acontecem em casa? - Assenti. - Aposto que é alguém próximas a você e a sua família, que faz isso.
Sofia: Como sabe?
Mafalda: Na maioria dos casos o agressor é o pai, padrasto ou algum amigo da família. - Ela parou o que fazia e veio na minha frente, segurou meu rosto em suas mãos e me fez olhar em seus olhos. - Não espere mais, vá até a delegacia e denuncie quem fez isso. Quanto mais você esperar pior vai ser. Isso nunca vai parar, eu sei que você tem medo, mas não deixa ele te matar. - Ela me envolveu em seus braços, apoiei minha cabeça em seu ombro e chorei. - Não se sinta envergonhada por isso, o lixo é ele não você. - A Mafalda disse tudo o que eu precisava ouvir. Eu não posso mais viver isso, eu não vou suportar outro estupro, outra agressão.
Eu não aguento mais essa vida, e isso tudo só vai acabar quando eu tomar coragem e pôr um fim nisso tudo. Não posso mais viver dessa forma, não posso me esconder e ter medo de tudo.
Sofia: Obrigada. - Funguei.
Mafalda: Me agradeça denunciando esse monstro. - Desfez o abraço e voltou a segurar meu rosto. - A partir de hoje serei sua confidente e sua amiga, pode desabafar comigo quando quiser.
Sofia: Obrigada.
Mafalda: Além de mim você pode contar com seus amigos também, àqueles dois gostam muito de você e vão te proteger, basta você aceitar os cuidados deles. Fique tranquila que nada do que foi conversado aqui será comentado lá fora. - Secou minhas lágrimas com a ponta dos dedos. - Nada de ruim vai acontecer com eles, eu prometo. Eu vou cuidar de você! - Me abraçou mais uma vez. Nessa abraço me senti protegida e amparada. Foi como se eu ganhasse um abraço de mãe, aqueles que te protegem de tudo. Nem lembro quando foi a última vez que recebi um abraço assim.
Por mais que eu negue, as vezes sinto falta da Suzana, principalmente de quem ela era antes do Gabriel entrar nas nossas vidas. Sinto falta dos carinhos que ela me dava, do beijo de boa noite antes de dormir, dos abraços, das histórias de princesas que ela contava pra eu dormir . A Suzana era uma ótima mãe até se envolver com o traste do Gabriel, depois disso ela só pensou nela e esqueceu de mim e da Bárbara. Saiu mundo a fora salvando sua própria pele, deixando pra trás as pessoas que ela dizia amar.
A Mafalda acariciou meus cabelos, cantou baixinho pra mim e em um piscar de olhos as lágrimas haviam secado. Eu já me sinto mais leve por dividir com alguém o que eu passo. Agora terei com quem conversar, não que eu não confie no Lucas ou no Vini, é só que eu conheço os dois e sei que eles iriam direto tirar satisfação com o Gabriel e com o Danilo, e bateriam de frente e eu sei muito bem como esse confronto iria acabar. Os monstros na cadeia e nós três a sete palmos da terra.
A Mafalda terminou meus curativos, me emprestou uma blusa já que a minha estava toda suja de sangue e me dei um tubo de pomada pra levar pra casa, para passar nas feridas. Me deu também seu telefone e endereço.
Sofia: Vou ser grata a você pra sempre.
Mafalda: É o mínimo que eu poderia fazer. - Sorriu. - Sempre que precisar pode me ligar e correr para minha casa, não importa a hora. - Me abraçou mais uma vez. - Se cuida tá?
Sofia: Tá.
Mafalda: Vá a uma delegacia o quanto antes. Peça ajuda aos seus amigos, e se for preciso saia de casa.
Sofia: Pode deixar. - Ela deixou um beijo na minha testa e abriu a porta pra mim. - Obrigada mais uma vez. Até mais.
Mafalda: Até. - Assim que passei pela porta da enfermaria quatro braços rodearam meu corpo.
Sofia: Meu Deus! Calma.
Lucas: Que demora lá dentro. Você tá bem?
Sofia: Estou.
Vinicius: Por que demorou tanto?
Sofia: Fiquei conversando e não vi o tempo passar. - Passei meus braços pela cintura dos meus Defensores. - Eu tô bem.
Vinicius: E o machucado?
Sofia: Não é nada de mais, vocês ouviram, é só uma ferida mal cicatrizada.
Vinicius: É só isso mesmo?
Sofia: É. - Sai do abraço deles e sorri para os dois. - Gosto de ter vocês por perto. - Acho que essa é a primeira vez que digo isso sem sentir medo.
Lucas: Gostamos também. - Fez carinho na minha bochecha.
Vinicius: Eu te amo tanto minha bolinha. - Me abraçou, fazendo meus olhos marejar. Faz anos que não ouço essa frase, e ouvi-la agora fez com que eu me sinta viva. Alguém nesse mundo ainda me ama! Essa é a primeira vez que o Vini me diz isso, por mais que ele sempre demonstre esse sentimento em atitudes e cuidados, ouvir da sua boca faz tudo ser ainda mais especial e importante.
Sofia: Eu também te amo. - Abracei forte sua cintura.
Lucas: Quero abraço também. - Ri. Enquanto ele envolvia eu e o Vini em seus braços.
Vinicius: O Lucas é muito Bobão. Gostei.
Sofia: Um bobo sempre gosta do outro. Lucas: Por isso você gosta da gente. - Gargalhei.
Sofia: Verdade. - Desfizemos o abraço e ficamos um olhando para a cara do outro.
Lucas: Não tô nem um pouco afim de voltar pra aula.
Sofia: Nem eu. - Me encostei na parede.
Vinicius: Que tal a gente ir pra algum lugar, beber alguma coisa, jogar conversa fora. Topam?
Lucas: Eu tô dentro. E você?
Sofia: Não sei. - Cocei a nuca.
Vinicius: Você vai e pronto.
Sofia: Se o Gabriel descobrir que eu não tô aqui, eu tô ferrada.
Vinícius: Ele não precisa saber. Vamos aproveitar que o Danilo não está aqui.
Sofia: Tá, eu topo.
Lucas: Que linda! - Me abraçou. - Vou lá pegar nossas coisas, enquanto vocês vão para o estacionamento. - Me soltou. - Para todos efeitos o Vinícius tá passando mal e nós dois vamos leva-lo ao hospital.
Vinicius: Esperto você!
Lucas: Até daqui a pouco. - o Lucas saiu apressado pelos corredores, enquanto o Vini passava um dos braços pelos meus ombros e íamos para o estacionamento onde a moto do Lucas está. Quando chegamos lá ficamos esperando ele por alguns minutos. - Demorei muito?
Sofia: Não. - O Lucas entregou a minha mochila e a do Vini e embarcou na moto já que a dele já está em suas costas.
Lucas: Vamos pra onde? Algum palpite?
Sofia: Algum lugar que não tenha muita gente conhecida de preferência.
Vinicius: Que tal lá pra minha casa?
Sofia: Mas e os seus pais? Eles não vão se importar?
Vinicius: Se você estiver junto não. - Sorriu de lado. - Mas se fosse só o Lucas... Bom, você já sabe né?
Sofia: Já. - Peguei em sua mão.
Lucas: Você está do quê?
Vinicius: De carro. A Soso vai comigo pode ser?
Lucas: Pode. Antes de ir pra tua casa vou passar em algum lugar e comprar algumas coisas pra gente comer.
Vinicius: Tá bom. Depois a gente racha a conta.
Sofia: Você sabe onde é a casa do Vini?
Lucas: Sei. Dei carona pra ele esses dias.
Vinicius: Quase que eu fisgo o teu boy. - Ri.
Sofia: Ele não é o meu boy. - Revirei os olhos. - Vamos então?
Vinicius: Vamos. Até daqui a pouco, Lucas.
Lucas: Até. - Colocou o capacete.
Sofia: Cuidado na estrada.
Lucas: Pode deixar. - Deu uma piscadela.
Sofia: Queres que eu levo tua mochila comigo?
Lucas: Quero.
Vinicius: Deixa que eu levo. - O Lucas tirou a mochila das costas e entregou para o Vini. Nos despedimos do Lucas e fomos para o outro lado do estacionamento onde o carro do Vini estava estacionado. - O Lucas é um amor, né? - Abriu a porta do carro pra mim. - Você não acha?
Sofia: Acho. - Joguei minha mochila para o banco de trás. - Ele é um cara legal.    

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