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Eu, sendo da cor amarela, sempre tive uma boa percepção sobre feições. Já Merry, sendo da rosa, era ainda mais explicita em exibi-las, o que, no fim, não dificultava para eu saber tudo que ela queria dizer porque seus olhos eram tão expressivos quanto todo o seu rosto.
Ela me puxou para um abraço apertado e eu retribui sem hesitar. Não queria soltá-la, mas, quando nos desprendemos ela assentiu.
— Nos encontraremos.
— Claro que nos encontraremos. — confirmei, mesmo que ela não tivesse falado o contrário daquilo.
Nos abraçamos mais uma vez e por não termos consciência do tempo, não saberíamos em quanto tempo nos veríamos novamente.
Quando nos afastamos, nos encaramos brevemente e viramos de costas um para o outro.
Eu, pela esquerda; ela, pela direita.
E eu segui.
Caminhar sozinho, para mim, nunca foi bom. Afinal, eu nunca fui uma pessoa reclusa. Sempre gostei de estar perto do maior número de pessoas possíveis. Agora, segui um corredor reto que a cada passo se escurecia mais, em deixava entre o desespero e angustia.
Eu queria voltar correndo gritando pelo nome de Merry, mas, a minha parte racional, me fazia andar adiante. Um passo de cada vez. A luminosidade ainda existia entre aquelas paredes de um design ruim e cores mortas, porém, fracas. Eu não queria sequer pensar o que poderia estar abaixo de meus pés.
Esfreguei uma mão na outra e pulei como nós, Caçadores, éramos ensinados a fazer: com um joelho flexionado após o outro. Quase como um soldado... O soldado que, na verdade, éramos.
Ser ensinado a ser um soldado era estressante e frustrante. Eu sempre segui regras, normas, leis ou qualquer outro nome que fosse para definir o que outras pessoas deveriam fazer. No entanto, apesar de não ter consciência de outra realidade, eu não queria me sentir assim, preso. Seguíamos em uma linha reta por toda a nossa vida, sem termos conhecimento de nada. Minha idade era uma incógnita. O tempo era entre o antes e agora. A única coisa que eu tinha livre era minha mente. Com minha imunidade, ninguém me controlava. Ou assim eu acreditava. Até aquele momento. Eu me sentia controlado quando não tinha chances. Tudo que poderia fazer agora era seguir reto. Agora, eu não era obrigado a nada... Mas me sentia obrigado a tudo.
Já não era mais um Caçador, ao menos, não me sentia como tal. Respeitava regras, mas tentava, a todo o — fabuloso e improvável — tempo pensar por mim.
Era bom ter uma mente livre, mesmo que nosso corpo não fosse.
Parei de andar para olhar para trás e, como já tinha acontecido, em determinado ponto, eu não via mais nada.
Virei minha cabeça para a frente e corri. Tinha "fôlego" e força, fui treinado para isso.
"Fôlego", porque, na verdade, eu nem sequer respirava.
Um passo de cada vez. Flexionando joelhos. Com as mãos cerradas. Cabeça erguida. Olhar para a frente.
Nunca me senti tanto um soldado quanto naquele momento.
Não olhei mais para trás e continuei seguindo. Não parecia ter fim e se eu respirasse, estaria sem fôlego.
Um barulho agudo, fino e prolongado me fez parar de correr.
Eu não estava correndo tão rápido, apenas rítmico, mas, quando olhei para trás, vi que o barulho fino era de uma represa, quebrando. Eu nunca vi tanta água em toda minha vida. E toda aquela água vinha em minha direção.
Agora, eu não tinha sequer chances de não correr. Era correr ou correr. Afinal, nem nadar eu sabia. Nunca nadei em toda a minha vida.
Percebi que eu era imune a todos os poderes humanos, mas não os naturais.
Acreditava que nunca corri tão rápido em toda minha vida. O barulho da água se tornava cada vez mais alto e eu me tornava cada vez mais desesperado.
Se fosse fogo, eu não me importaria tanto. Porque, talvez, o fogo não fosse real e tudo que não era real não poderia me tocar. Porém, aquela correnteza em minha direção não parecia não ser real. Mesmo que fosse uma ilusão — no caso, mais uma de Z-Mil — eu não correria o risco.
Um passo atrás do outro. Repeti para meu subconsciente.
Um passo cada vez mais rápido atrás do outro.
O corredor parecia se tornar mais estreito. A água mais próxima. Meus passos mais rápidos. Minhas panturrilhas latejavam. Minhas têmporas palpitavam.
E, enquanto isso, o barulho da água era contínuo.
— Por Poseidon! — xinguei.
Por que o Deus dos Mares não poderia me ajudar?
Não tínhamos religião, nem em Z-Mil e eu sabia que nem no resto de Marte, mas, se tivéssemos, eu votaria pelos Deuses. Principalmente porque já éramos Marte, o deus romano equivalente ao deus grego Ares. Afinal, a associação do "Planeta Vermelho" à guerra, não era sem propósito.
Pensei em Ariana e me senti um pouco lunático quando sorri enquanto ainda corria. Eu e ela não tivemos muito contato. Nossas cores não eram exatamente melhores amigas e nossas personalidades se divergiam, porém, ao pensar nela, eu me distraí.
O nome dela era comum em Marte, mas eu nunca conheci outra Ariana além dela. Não tinha muita lógica.
Balancei minha cabeça e franzi meu cenho.
Por que estou pensando nisso?; eu deveria ter sérios problemas.
Enxerguei, finalmente, uma luz. Não no fim do túnel, mas no fim do corredor. Aos poucos, seu estreitamento mudava, se tornando mais largo. A água continuava atrás de mim e eu sentia os pingos dela sobre minha cabeça. Talvez aquele lugar estivesse preste a desabar pela umidade.
Tentei não pensar em desabamento sobre minha cabeça e continuei pulando, tentando chegar o mais rápido possível naquela luz que apesar de parecer próxima, não era tanto quanto eu imaginava.
Um passo.
Um pulo.
Uma corrida.
Uma luz.
Um esbarrão.
— Por Fobos e Deimos! — falei, assustado, os nomes dos deuses irmãos do Medo e Terror; respectivamente.
Cairia se mãos ágeis não tivessem me segurado pelos ombros.
— Você! — encarei a dona da voz que soava surpresa.
Nunca vi olhos vermelhos tão intensos. Eram a mistura perfeita de fogo com paixão. Guerra com amor. Uma placa de "pare" interligado a uma capa de toureiro. Ou, na melhor das explicações, Ares com Afrodite.
— Fogo! — ironicamente era meu grito para avisar que a água estava vindo.
Como se eu não pesasse nada, Ariana me puxou para a frente, me colocando na posição que ela estava e me abraçou antes que a água batesse em minhas costas. Ela quem deu as costas para a água, me protegendo como uma muralha de fogo.
Nunca esperei tanto que o fogo não fosse apagado pela água.
Notei que amava o vermelho, mas meu tipo era o cinza.
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A Indomada
Fiksi IlmiahTerceiro Volume da Trilogia "A Estranha" Claire e seus amigos tem mais um problema: conseguir sair de Z-Mil. Eles juntos são fortes, porém, teriam coragem e força - tanto mental quanto física - suficiente para vencer a batalha contra seus progenit...
