33. Misericórdia

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Percebendo as mãos de Natália tremendo, Manu segurou entre as suas.

— Eu tô bem aqui contigo. Não vou te deixar sozinha! — afirmou.

— Dá uma vontade de sair correndo de volta pro aeroporto!

— Eu sei, Nat, mas tu precisa passar por isso. Lembra que é por tu, por mais ninguém, só por tu.

Natália assentiu olhando para a casa do outro lado da rua. A cor era a mesma de sua infância, verde-claro, na lateral era possível ver a janela gradeada do seu quarto por onde costumava assistir as outras crianças brincando lá fora.

Naquele exato momento, crianças brincavam de amarelinha na rua sem asfalto, sorriam, com suas roupas sujas e exalando liberdade.

— Eu sempre quis brincar na rua assim quando era pequena.

— Tua mãe não deixava? — perguntou Manu.

— Não. Ela dizia que os meninos que brincavam na rua não tinham nem eira e nem beira.

— Tu nunca brincasse na rua, é isso?

— Nas férias ela me deixava brincar uma horinha, mas eu nunca me senti livre como esses pirralhos aí. Eu brincava dentro de casa e a parte mais chata era ouvir as risadas das outras crianças.

— Então tu não tinha amigos?

— Na escola tinha algumas colegas e aqui na rua eu tinha Carol, ela morava ali — disse, apontando para a casa azul de esquina — ela era um ano mais velha do que eu e eu acho que ela tinha pena de me ver presa, porque ela sempre dava um jeito de ir lá em casa brincar comigo.

— E tua mãe deixava?

— Contanto que fosse dentro de casa e debaixo das vistas dela, deixava sim. Toda vez que Carol ia embora eu abria o berreiro.

— Bichinha de tu!

— Oxe, eu com catorze anos abria o berreiro do mesmo jeito, chamando por Carol o tempo todo.

— E tu ainda brincava com catorze anos, Nat?

— De boneca, de casinha... no interior a gente demora a crescer. Mas de que adianta ter uma infância longa e viver num presídio?

Manu esfregou a mão nas costas da amiga.

— Mesmo eu com dezoito anos, mainha que decidia pra onde eu ia, com quem eu ia e de que horas eu voltava. Lembro que quando fui prestar vestibular a primeira coisa que pensei foi que eu queria estudar bem longe de casa.

— E por onde andou teu pai esse tempo todo?

— Painho nunca foi presente. Ele sempre me ajudou financeiramente, mas eu nunca tive o mínimo de intimidade com ele. Até hoje ele me ajuda e era com o dinheiro dele que eu pagava a república lá no Rio de Janeiro, acho que é o jeito dele de mostrar que é pai.

— Mas isso te magoa.

— Claro que sim! Quando eu era criança imaginava várias vezes que ele vinha me buscar pra morar com ele, mas isso nunca aconteceu e nunca vai acontecer.

— Agora tu mesma é tua heroína, Nat.

Natália ergueu a cabeça sorrindo para a loira, segurou de novo sua mão e disse:

— É isso mesmo. Acho que é melhor a gente ir lá e enfrentar as onças.

Tinham pego um voo até a cidade de Caruaru e o plano era voltar no mesmo dia. Manu para Recife e Natália para o Rio de Janeiro.

Natália bateu palmas quando estavam de frente ao portão e o cachorro latiu ajudando a chamar a atenção dos moradores dali.

Não demorou para alguém vir até o terraço, a tia de Natália, que arregalou os olhos diante da visita nada conveniente.

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