🍁CAPÍTULO 02🍁

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O tempo passava de forma estranha para Louis. Os dias e as noites no orfanato pareciam se arrastar, um emaranhado de rotinas que, aos poucos, perderam seu peso. Já não sentia aquela ânsia no coração ao ver os casais que vinham buscar uma criança para levar para casa. Com o tempo, se resignara ao fato de que essas visitas nunca eram para ele. Não porque ele não merecesse uma família, mas porque o destino parecia ter planos mais profundos e indecifráveis. E Louis, mesmo sem compreender, aceitava essa ideia com uma serenidade surpreendente para sua idade.

A solidão o ensinou a crescer rápido, e, ao longo dos meses, sua mente foi moldando uma visão clara e rígida sobre a vida. Ali, naquele orfanato esquecido, em meio ao frio e ao silêncio, estava sendo forjado um espírito resiliente, diferente dos garotos comuns. Ele já não se importava com as recusas e com a frieza dos olhares; a dureza que o mundo lhe oferecia parecia esculpi-lo com uma precisão calculada, preparando-o para algo maior.

Louis passava cada vez mais tempo na biblioteca, onde seus dias se preenchiam de leituras e pensamentos profundos. Ele já não era mais apenas uma criança que lia para fugir da realidade. Ele lia para desvendar os mistérios da alma, para entender a natureza das emoções que não conseguia experimentar na vida real. Nas páginas dos livros, sentia-se como um observador do destino, um aprendiz de algo que ele ainda não sabia definir. Havia um segredo em cada história, uma espécie de promessa oculta que o mantinha acordado à noite, pensando em como o futuro, um dia, viria ao seu encontro.

Aos poucos, ele começou a perceber que as palavras tinham poder. Enquanto os outros garotos se distraíam em brincadeiras vazias, Louis mergulhava em pensamentos intensos e complexos, buscando significado nas coisas que o rodeavam. A cada história, parecia que sua alma se tornava mais profunda, como se algo invisível estivesse sendo lentamente construído dentro dele. Era uma sensação indescritível, como se sua vida, mesmo em silêncio, carregasse uma promessa escondida nas dobras do tempo.

Certa noite, enquanto lia em uma das cadeiras da biblioteca quase vazia, sentiu algo diferente, uma sensação que ele nunca havia experimentado. Era como se uma voz interior, suave e misteriosa, murmurasse que o destino guardava algo de incomum para ele. Louis fechou o livro, sentindo o peso daquela intuição. Não sabia o que era, mas era como se, em algum lugar, estivesse sendo preparado para algo maior, algo que ainda não poderia compreender.

Havia momentos em que Louis se perdia em devaneios, imaginando um futuro onde, de alguma forma, ele fosse importante para outras pessoas. As páginas dos livros continuavam a alimentar esse sentimento silencioso de missão, de uma responsabilidade que, embora desconhecida, era inevitável. Ele não se via como um garoto comum, e, em sua quietude, começou a alimentar uma esperança secreta: talvez ele estivesse destinado a realizar algo extraordinário, a preencher um vazio nos corações de pessoas que ele sequer conhecia.

Essa sensação de propósito, ainda que incerta, o fortalecia em momentos de dor. Os olhares de desdém, a frieza dos adultos e a indiferença das outras crianças já não lhe pesavam tanto. Ele havia encontrado uma fonte interna de força, uma certeza quase inexplicável de que ele possuía um valor que o mundo, até então, não conseguia enxergar.

Louis sabia que o tempo, de algum modo, o levaria aonde precisava estar. E, enquanto isso, ele continuaria a ler, a aprender, a preparar-se silenciosamente para aquilo que a vida lhe reservara. Ele era como uma semente, crescendo em solo árido, mas carregando consigo o potencial para florescer em algo extraordinário.

O ar no orfanato parecia estar impregnado de uma mística silenciosa, como se as paredes testemunhassem o desenvolvimento de algo profundo e essencial. Os cuidadores e as outras crianças sequer notavam a mudança em Louis, mas ele sabia que, um dia, algo em sua vida mudaria para sempre. Até lá, ele seguiria pacientemente, aguardando o momento em que o mundo, finalmente, o chamaria pelo nome, revelando a importância oculta que ele já começava a vislumbrar.

DOIS ALFAS UMA BARRIGA DE ALUGUEL [CONCLUÍDO]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora