Louis nunca conheceu o calor de um lar. A primeira memória que tinha era de um quarto frio, com paredes altas e escuras, e o eco das vozes das freiras, quase sempre sussurrando suas orações pela manhã e pela noite. Para ele, aquele era o único mundo existente: longos corredores, dormitórios repletos de camas vazias, e o cheiro acre de desinfetante misturado ao de velas.
Quando completou cinco anos, foi informado de que seria levado para outro orfanato, um onde ele teria “mais chances” de encontrar uma família. Ele não compreendia o que isso significava, mas o dia em que se despediu das freiras foi marcado por um misto de medo e expectativa. Porém, ao chegar no novo orfanato, percebeu que as promessas de um futuro brilhante e cheio de amor eram vagas. A realidade era tão fria quanto o lugar de onde saíra.
Louis observava as outras crianças no orfanato; a maioria delas parecia endurecida, com olhares distantes e gestos calculados. A experiência de ser constantemente rejeitado deixava marcas profundas. Quando um casal entrava para visitar o orfanato, era comum ver os meninos e meninas se transformando em versões idealizadas de si mesmos: tentavam sorrir mais, exibir seus talentos, mostrar que poderiam ser filhos adoráveis e fáceis de lidar. Era uma encenação que Louis jamais conseguiu imitar; ele apenas observava à distância, com o coração sempre acelerado.
Com o tempo, começou a perceber a sensação de invisibilidade. Quando uma criança nova chegava ao orfanato, o alvoroço era intenso: todos queriam conhecê-la, queriam saber sua história, mas logo depois, ela também passava a fazer parte do cenário. Assim, Louis aprendeu a viver entre os cantos, onde as sombras o mantinham seguro e protegido dos olhares curiosos.
A dor da rejeição, mesmo não dita, tornava-se cada vez mais evidente. Louis era visto, mas não notado. Os olhares dos adultos pareciam atravessá-lo, como se ele fosse parte da mobília do lugar. Houve dias em que ele se perguntava se, talvez, estivesse destinado a ficar para sempre ali. Não sabia se conseguia lidar com a ideia de que ninguém queria um menino que trazia consigo uma solidão tão marcante. Os poucos amigos que ele fazia logo eram levados para novas casas, enquanto ele permanecia.
A rotina no orfanato era dura. Havia horários rígidos para as refeições, e qualquer desvio poderia resultar em punições severas. As refeições eram sempre simples e escassas, e o sabor monótono da sopa e do pão seco era uma constante que o lembrava de sua condição. Para uma criança de apenas cinco anos, aquelas refeições insípidas tornavam-se uma metáfora amarga: era como se o mundo inteiro fosse feito de coisas sem sabor, sem afeto.
Além disso, o orfanato não era um lugar para expressar fragilidade. Chorar era um sinal de fraqueza, e aqueles que o faziam geralmente eram ridicularizados pelas outras crianças ou, pior, recebiam olhares de desprezo dos cuidadores. Louis aprendeu a engolir o choro, a guardar as lágrimas para os momentos em que estivesse sozinho, escondido nos cantos escuros dos corredores.
Apesar de tudo, ele encontrou alguma paz na leitura. Havia uma pequena biblioteca no orfanato, um espaço empoeirado e pouco visitado. Ali, ele se refugiava em histórias de heróis e aventuras que lhe davam um vislumbre de um mundo diferente do seu. Sentado entre os livros antigos, com seus dedos percorrendo páginas desgastadas, ele encontrava uma forma de se desligar, de imaginar um futuro onde talvez fosse livre e feliz. Os livros eram seu consolo silencioso, algo que lhe dava um propósito, ainda que frágil.
Com o passar do tempo, o comportamento de Louis se tornou ainda mais introspectivo. Ele evitava conversas longas e raramente participava das brincadeiras com as outras crianças. Era como se tivesse construído um escudo em volta de si, algo que o protegia, mas que também o isolava ainda mais. Afinal, confiar era um risco, e Louis aprendeu, cedo demais, que as pessoas podiam partir sem aviso, deixando um vazio que nunca se preenchia completamente.
No fundo, ele sonhava com o dia em que alguém finalmente o veria pelo que ele realmente era, alguém que não apenas olhasse por cima, mas que realmente o enxergasse. Ele esperava, mesmo que sem esperança.
A velha biblioteca do orfanato era um espaço que poucos procuravam. Talvez pelo cheiro agridoce de madeira e poeira, ou pelo ar abafado que tornava o ambiente pesado. Para Louis, no entanto, era o refúgio ideal. As estantes altas e cheias de livros pareciam esconder um portal secreto, um mundo inteiro esperando para ser desvendado. Era ali, em meio àquelas páginas esquecidas, que ele encontrou as companhias que nunca tivera entre as pessoas.
Sua paixão pelas “Crônicas de Nárnia” nasceu assim que ele pegou o primeiro volume, quase por acaso, enquanto explorava as prateleiras. Ao abrir o livro e ler sobre uma terra cheia de magia, onde crianças comuns eram levadas a aventuras épicas, algo dentro dele despertou. Ele sentiu, pela primeira vez, uma espécie de pertencimento. Naquelas histórias, não importava o passado de quem as vivia, nem as dores ou cicatrizes que carregavam. Ali, em Nárnia, até os mais solitários podiam se tornar príncipes.
Louis se identificava particularmente com Edmundo. Ao contrário de Pedro, que era sempre forte e corajoso, Edmundo tinha suas fraquezas e cometia erros, mas ainda assim era amado e perdoado. Na fantasia, Louis encontrou a esperança de que talvez um dia também pudesse ser amado por quem era, apesar das falhas e das dores que guardava. Enquanto lia sobre o príncipe que se redimia, imaginava-se ao lado dele, um amigo leal que enfrentava batalhas e protegia seus irmãos de armas.
Havia tardes inteiras em que ele se perdia nas histórias, transportado para florestas geladas, castelos dourados e batalhas épicas. Nos livros, ele vivia o que jamais conhecera na realidade: a sensação de ser importante para alguém, de ser compreendido e aceito. Quando se via refletido nas linhas da história, com suas fragilidades e medos, sentia que talvez sua solidão fosse menos amarga, pois compartilhava algo com personagens que não o julgavam nem o rejeitavam.
Nos momentos de maior tristeza, quando a sensação de invisibilidade parecia esmagadora, ele folheava as páginas já desgastadas e se concentrava nos trechos em que Edmundo era perdoado e acolhido pela família. Às vezes, ele se pegava desejando que alguém o encontrasse ali na biblioteca, envolto na leitura, e sentisse vontade de conhecê-lo, de desvendar quem ele era de verdade. Mas o orfanato não era Nárnia, e não havia Aslan para amá-lo sem questionar.
À medida que se afundava nas histórias, Louis percebeu que os livros faziam mais do que distraí-lo do mundo. Eles o transformavam. Ele começou a entender sentimentos que, até então, pareciam vagos e distantes: o orgulho, a honra, a culpa, a coragem, o amor. Era como se, através dos personagens, ele experimentasse cada um desses sentimentos em profundidade, tornando-se, em essência, um garoto “demasiadamente humano”.
No entanto, um sentimento lhe escapava: o de reciprocidade do amor. Ele lia sobre laços profundos, sobre amizades e amores que floresciam ao longo das histórias, mas, ao fechar o livro, voltava ao mundo onde esses laços lhe eram negados. Sentia amor pelos personagens, uma afeição intensa e sincera, mas nunca sabia o que era receber esse amor de volta. Essa ausência era como uma ferida que nunca cicatrizava, uma falta que persistia. A cada nova leitura, essa necessidade de ser amado o consumia mais.
Louis, com o tempo, tornou-se mais introspectivo, mergulhando nas profundezas dos sentimentos dos personagens. Ele se perguntava se era possível para alguém como ele, um órfão sem passado, ser visto com os mesmos olhos que enxergavam Edmundo ou Pedro. Ele ansiava por um olhar que visse além do garoto solitário, alguém que visse seu coração.
Assim, ele continuava suas leituras, muitas vezes em silêncio e escuridão. Se deixava absorver pela dor de um personagem, ou sentia a glória de uma vitória como se fosse sua. Era paradoxal, mas nesses momentos ele se sentia vivo de uma maneira que jamais se permitia fora das páginas. No fundo, sabia que não estava apenas lendo; estava tentando preencher uma lacuna que, talvez, jamais pudesse ser preenchida de fato.
Ao final de cada livro, um peso caía sobre ele. O orfanato voltava a ser o lugar sem cor, sem afeto. E Louis, ao fechar o último capítulo, sempre se via sozinho de novo.
Continua...
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DOIS ALFAS UMA BARRIGA DE ALUGUEL [CONCLUÍDO]
FanfictionLouis Tomlinson busca recomeçar a sua vida e decide ser barriga de aluguel. Harry um policial e Edward um bombeiro buscam um filho, e se? Uma fic Larry Original
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