🍁CAPÍTULO 23🍁

701 73 11
                                        

O relógio parecia ter parado nos últimos meses. Os dias de Louis se misturavam, uma repetição interminável de rejeição e desespero. A busca por um emprego se tornava cada vez mais inútil, e a esperança, antes apenas uma chama fraca, agora era uma brasa prestes a se apagar.

Ele não sabia dizer quantas portas bateu, quantos olhares desconfiados recebeu ou quantas desculpas ouviu. O peso do seu passado era um fardo impossível de esconder. Quando chegava o momento de preencher o formulário ou responder sobre seu histórico, a palavra "homicídio" emergia como uma sentença silenciosa, cortando qualquer possibilidade. Não importava o quanto ele estivesse disposto a trabalhar, o quanto suplicasse por uma chance — para o mundo, ele era apenas um criminoso sem lugar na sociedade.

Sem um lar, sem uma renda e sem ninguém, a rua tornou-se sua casa definitiva. Louis se encolhia em becos gelados, sustentado apenas pelo instinto de sobrevivência. Cada vez que alguém o olhava como se ele fosse invisível ou, pior, como um lixo descartável, ele sentia seu valor diminuir ainda mais. Aos poucos, a ideia de ser útil, de ser digno, começou a desaparecer completamente.

Foi em uma dessas noites, enquanto vagava pelas ruas, que ele encontrou o homem.

Era uma viela escura, um canto esquecido de Londres onde a podridão do mundo se mostrava sem pudor. O homem estava encostado em uma parede, tragando um cigarro preguiçosamente enquanto observava o movimento quase inexistente da rua. Ele era robusto, com cabelos raspados e olhos astutos que pareciam enxergar tudo e todos. Quando Louis passou, tentando ignorar o cheiro forte de maconha que impregnava o ar, o homem chamou.

— Ei, garoto. — Sua voz era rouca, mas firme, com um tom que fazia as palavras parecerem mais uma ordem do que uma chamada casual.

Louis hesitou. Não tinha nada a perder, mas sabia que conversas com estranhos em lugares assim raramente levavam a algo bom. Ainda assim, algo o fez parar. Talvez fosse a fome que roía seu estômago, talvez fosse a exaustão de tentar e falhar tantas vezes.

O homem deu um passo à frente, analisando-o de cima a baixo.

— Tá precisando de grana, né? — Ele não esperou por uma resposta. — Dá pra ver de longe.

Louis manteve o silêncio, mas não desviou o olhar. O homem sorriu de canto, um sorriso sem humor.

— Escuta, eu posso te ajudar. Um trabalho simples, nada demais. Melhor do que morrer de fome, não acha?

Louis sentiu o estômago embrulhar. Ele sabia onde aquilo ia dar. Já tinha visto outros como ele serem puxados para dentro desse mundo, mas, ao mesmo tempo, sentia-se sem opções. Ele sabia que ninguém mais lhe daria uma chance.

— O que você quer de mim? — perguntou, sua voz baixa, mas firme.

O homem riu, um som áspero e seco.

— Nada que você já não possa fazer. Só precisa entregar umas coisinhas pra mim. — Ele levantou um pequeno pacote de cigarros de maconha. — Nada grande. Você só entrega, pega o dinheiro e pronto.

Louis olhou para o pacote por um longo momento. A vergonha queimava em seu peito, mas a fome e o frio eram mais fortes. Ele sabia que, ao aceitar, cruzaria uma linha da qual talvez não pudesse voltar. Mas ele já estava tão longe de si mesmo, tão perdido, que a linha parecia não importar.

— Quanto? — ele perguntou, sua voz carregada de derrota.

O homem sorriu mais uma vez.

— O suficiente pra você comer e não morrer congelado.

Louis aceitou.

Nos dias seguintes, ele foi puxado para dentro daquele mundo sombrio. A rotina era simples: ele ficava em uma viela decrépita, esperando clientes que sabiam exatamente onde encontrá-lo. A troca era rápida e discreta — ele entregava os cigarros e recebia o dinheiro. No começo, as mãos de Louis tremiam toda vez que segurava os pacotes. Não era medo da polícia, mas da ideia de que ele estava se afundando ainda mais.

DOIS ALFAS UMA BARRIGA DE ALUGUEL [CONCLUÍDO]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora