O prisioneiro

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Meses antes

Outono

Sakura

Aos domingos à tarde, o Ichiraku ficava lotado por horas, ocupado apenas pelos pupilos dos senseis de Gai, Asuma, Kurenai e de Yamato. Contudo, por algum motivo que desconhecia, quando Sakura chegou, não havia ninguém. Desacelerou o passo ao parar na entrada do local e ver apenas dois Jōnin desconhecidos rindo alto, provavelmente já embriagados. Intercalou dois bancos de distância e sentou-se cautelosa. Pediu o de sempre, olhando para os lados na esperança de avistar algum conhecido. Imaginava se eles tinham resolvido fazer algo de diferente, e tentava resgatar na memória o motivo de não a terem chamado. Lutando contra sua curiosidade, perguntou a Ayame, ajudante do Ichiraku, se ela sabia de algo.

— Foram ver o prisioneiro — Sakura ergueu as sobrancelhas num gesto de compreensão.

Lembrou-se de Naruto ter comentado, semanas atrás, que ele seria liberto, mas preferiu não dar atenção. "Não sei por que você ainda insiste nisso", respondeu ao melhor amigo, "As coisas ficaram bem melhores para todo mundo desde que ele foi preso, e continuariam bem melhores se ele ficasse lá".

Sakura sempre desconfiou que houvesse fraudes do Conselho de Konoha na sentença atribuída ao Sasuke. Não era plausível que o libertassem com apenas três anos de cumprimento de pena levando em consideração todos os seus crimes. Qualquer civil morreria atrás das grades.

— Ainda devem estar lá — acrescentou Ayame. — Disseram que — Sakura ergueu a mão como um sinal para Ayame não continuar. Ela já havia saciado sua curiosidade ao ponto de ter seu bom-humor de domingo devastado pela notícia. Fez uma breve reverência deixando o pagamento no balcão e saindo da tenda.

De volta às ruas pacíficas de Konoha, não conseguiu deixar de imaginar como havia mudado. Há três anos, ela teria sido a primeira a saber sobre isso, a primeira a divulgar e a primeira a estar lá para recebê-lo ansiosamente de volta. Talvez ainda tivesse alimentado esperanças de algum afeto recíproco. Nenhum desses sentimentos que considerava tolos e juvenis sequer passavam pela sua cabeça de jovem-adulta aos vinte e um anos. Ainda assim, ela precisava pensar, organizar sua cabeça, parar de evitar o que vivia ignorando há anos. Sasuke ainda existe. Sasuke está em Konoha. Sasuke está preso. Sasuke vai ser solto. Naruto até tentara prepará-la para isso, mas seu medo de imaginá-lo de volta a sua vida a fez ignorar o fato por completo.

Como seria dali em diante? O que Sasuke faria? Quem ele era depois de três anos pensando em tudo o que foi? Qual seria sua aparência amadurecida? Era fácil evitar a sua existência quando ela estava praticamente esquecida em algum porão da prisão de Konoha, mas com ele por aí, de volta à vida comum na Aldeia, como seria? Teriam muitas chances de se esbarrarem pelas veias estreitas de Konoha. Como ela reagiria?

Durante os três anos, Sakura não o visitou uma vez. Muitos insistiram, pois ao final da guerra, Sasuke havia se desculpado, contudo, algo dentro de dela já tinha mudado. Ela sabia Sasuke não foi o único ou principal responsável por isso, talvez tenha sido a guerra que a petrificou, ou o medo de saber que aquele por quem tanto lutou para ter de volta estava tão perto, mas ao mesmo tempo muito longe do garoto que ela amou por tantos anos.

Quando deu por si, já estava na entrada de casa, mesmo pegando o caminho mais longo para conseguir pensar. Não se sentia cansada o suficiente para dormir, nem disposta o suficiente para terminar de arrumar os caixotes da mudança. Sabia que podia adiantar isso, como sabia que poderia esperar Naruto para ajudá-la, e preferiu a segunda opção. Como dizia sua mãe, era mesmo uma mal-acostumada. Se acomodava no amigo mais do que deveria, mas ele também se oferecia demais, era prestativo demais, atencioso demais, o que a fazia se sentir menos culpada. Além disso, Sakura tinha quase certeza de que essa disposição excessiva do Naruto não era exclusiva, mesmo com todos dizendo que ele agia assim somente com ela.

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