39. Anabel

41 9 5
                                    

O mês acabou passando muito rápido, estamos em dezembro e o inverno parece disposto a nos prender em casa.
A emoção do pedido de casamento passou, pelo menos para minha família, já que eu dou sorrisos e até gritinhos quando olho para o anel em meu dedo.

No dia de ação de graças, semanas atrás, Marcus foi jantar com seus pais e eu com os meus. Ele revelou nossa relação para eles e marcou um jantar em sua casa, que acontece amanhã, na véspera de Natal. Finalmente nos apresentaríamos e eu daria a notícia da minha gravidez, já que completei os três meses. Minha família também estará presente para a novidade.

Fecho o notebook e encerro meu último dia de trabalho do ano, animada para os dias na casa de Marcus.

Organizo minha mesa e me levanto, pegando meu casaco, o gorro e meu cachecol antes de seguir para o elevador. Os gêmeos já estão no meu destino, sendo cuidados pela Elizabeth, que os adotou como netos.

Pego meu celular e envio uma mensagem para Marcus, mas ele não responde. Notei que passou o dia cabisbaixo e pensativo, mal trabalhou e decidiu ir para casa mais cedo, logo depois de sair de uma reunião longa e decisiva.

Dirijo com cuidado até o condomínio, deixando o carro do lado de fora da garagem, já que não tenho acesso.
Desço com minha bolsa em mãos e toco a campainha, sendo atendida sem demora pela governanta.

— Ana, venha para dentro, está congelando aí fora! – Me puxa com cuidado.

— Obrigada, Beth. – Sorrio. — Onde está todo mundo?

— Noah e Alicia estão cochilando no quarto de hóspedes e Marcus está no escritório.

— Tudo bem, vou vê-lo.

Deixo meus agasalhos e sapatos com ela, que faz questão de me ajudar. Deposito um beijo em sua bochecha e caminho para dentro, subindo as escadas para encontrar Marcus. Porém, não o encontro em lugar algum, estranhando sua ausência.

Passo pelo quarto de hóspedes e beijo meus filhos, os aconchegando nos edredons macios e quentinhos.
Assim que saio e fecho a porta, ouço o barulho de algo se quebrando. Imediatamente me preocupo, indo apressadamente até o fim do corredor, onde vejo o quarto misterioso entreaberto.

— Marcus! – Chamo por ele, sem me exaltar, mas não obtenho resposta. — Marcus... – dou passos cautelosos, espalmando a porta para abri-la aos poucos.

O que vejo me deixa um pouco confusa, com sentimentos se embaraçando dentro de mim: surpresa, susto, tristeza, dor, receio.

É um quarto todo verde, com berço e decorações de um quarto infantil, com fotos de uma família feliz por todos os lados.
Minha visão fica embaçada pelas lágrimas, mas não deixo de apreciar a mulher linda com uma barriga ainda mais bonita.

Então, algo que sempre evitei questionar me deixa um pouco abalada, mas tento não parecer nervosa para não piorar a situação.

— Marcus... – engulo seco para não evidenciar a vontade de chorar.

Toco suas costas e o sinto ficar ainda mais tenso, com as mãos apoiadas na cômoda branca, com três porta-retratos de sua falecida esposa ainda jovem, sorridente. Em um deles, os dois estão abraçados, com um lugar todo iluminado atrás e a neve caindo na rua. É a primeira vez que vejo um sorriso verdadeiro no rosto de Marcus, o que me deixa um pouco abatida.

Eram tão bonitos e felizes juntos que me parte o coração em pedacinhos saber que ela não existe mais.

No chão, posso ver um quadro quebrado, com cacos de vidro espalhados. É uma foto do rosto dela, com olhos escuros e tão brilhantes quanto uma noite estrelada. Ao tentar pegar o objeto, piso sem querer em um dos estilhaços e sinto o ardor de um corte no calcanhar. Meu murmuro de dor faz Marcus se virar rapidamente em minha direção, olhando-me com culpa.

LIBERTE-MEOnde histórias criam vida. Descubra agora