Boa demais para dizer adeus

459 23 2
                                        


- Mulher, quem é você?! – Phil quase grita, quebrando o silêncio que de repente tinha se instalado. Porém, dessa vez, não parece nem um pouco irritado, e sim surpreso.
- Ã... – Engulo em seco, mas agora me sentindo mais... aliviada. – Acho que já respondi isso...
- Sim, é verdade. – Ele sorri, olhando para mim. – Saphira, não é?
Não digo nada, apenas afirmo com a cabeça. Ele continua me encarando, parecendo pensar no que falar. Os demais parecem fazer o mesmo.
- Como... – Phil folheia as páginas à sua frente, parecendo... confuso. – Como você veio parar aqui? Por que seu nome não está na lista?
Congelo. Não sei o que responder. Felizmente, antes que eu possa sequer começar a gaguejar, Mark fala por mim.
- Eu sei o porquê.
Arregalo os olhos. O encaro. Ele sorri, olhando para mim.
- Na verdade, eu e Bruno sabemos... – Mark olha para Bruno e os dois parecem concordar. Me sinto ainda mais confusa e nervosa. – Liguei para ele alguns dias atrás e disse que tínhamos uma inscrição a mais, uma tal de Saphira...
Meu coração acelera e começo a prestar ainda mais atenção no que ele está dizendo.
- Mas Ari disse que não dava para encaixar mais uma inscrição... – Mark olha para Ari sorrindo, mordendo de leve a ponta de uma caneta. Parece estar sendo sarcástico. – E agora, Ari? Você acha que dá para encaixar?
Ari não responde nada, apenas me encara. Mark ri de leve, voltando a falar comigo.
- Mas você ainda não respondeu à pergunta de Phil... Como conseguiu entrar aqui? A secretária não disse que tinha te encaixado na lista sem nossa permissão.
- Ã... – Engulo em seco, me sentindo encurralada ao perceber que não terei escolha a não ser dizer a verdade. – Digamos que ela não me encaixou...
- Como? – Mark franze as sobrancelhas, parecendo confuso.
Percebendo que não posso mais enrolar, abraço a verdade. Respiro fundo e decido contar tudo de uma vez. Conto tudo tão rápido que acabo atropelando algumas palavras. Quando termino de falar, nem sequer respiro. Principalmente quando todos da sala arregalam os olhos, obviamente surpresos. Eles permanecem em silêncio por um tempo. É Mark quem volta a falar primeiro.
- Deixa eu ver se entendi... – Ele cruza as mãos em frente ao rosto, os olhos cerrados. – Você enganou a secretária, passou na frente de todas as garotas que estão esperando, invadiu a sala de testes e, pelo que percebi, quase quebrou uma maçaneta?
Engulo em seco. Sinto minhas pernas tremendo. Meu coração parece querer sair pela boca. Reúno o que resta de coragem em mim para falar.
- Er... Na verdade não só eu, mas eu e Jaque enganamos a secretária... – Abro um sorriso amarelo.
Depois de mais alguns segundos em silêncio e a expressão completamente séria, Mark... ri. Ele ri! Todos os outros continuam em silêncio. Me sinto confusa, sem saber o que fazer. Talvez percebendo que ninguém mais se pronuncia, finalmente Bruno toma a frente.
- Olha, eu preciso dizer... – Sua voz parece fazer meu corpo estremecer. Mais do que já estou sentindo. – Você sabe que você corria o risco de ser, talvez, até presa, certo?
Não sei se é uma pergunta retórica ou não. Decido responder.
- Sim.
- E mesmo assim resolveu correr esse risco?
- Sim, decidi correr o risco. – Afirmo, com a maior confiança que consigo no momento. Afinal, foi exatamente o que fiz. – Preciso dessa vaga. Mais que qualquer outra coisa.
É então que Bruno Mars me encara de uma forma que nunca fui encarada antes. Com confiança, mistério e mais alguma coisa que não consigo compreender. Sinto ao mesmo tempo um calafrio pelo corpo e uma chama dentro de mim. Engulo em seco, e decido falar algo antes que eu desfaleça no chão.
- Serei presa? – Minha voz parece a de uma criança com medo.
Temendo pela resposta, prendo a respiração. Bruno Mars continua me encarando por um tempo, mas, depois de longos e cruéis segundos, ele sorri, levemente. Sinto outro calafrio pelo corpo.
- Não, não será. Pelo menos não por conta disso... – Todos riem, e, pela primeira vez desde que entrei aqui, eu também. Com certeza, de alívio. – Eu... A verdade é que... – Ele parece pensar nas palavras. Quando fala, sua voz é baixa, e seus olhos estão grudados nos meus. – Nunca vi alguém fazer isso antes.
Sinto, mais uma vez, meu corpo inteiro tremer. A possibilidade de cair no chão é mais que real, agora. Quando ele volta a falar, penso se não estou sonhando.
- Sua coragem é... invejável. E seu talento também. – Ele sorri. – Saber que arriscou tanto para fazer o teste me deixa... impressionado. Demais.
Ok, talvez agora eu caia. Ouvir essas palavras saindo da boca de Bruno Mars me faz querer chorar, aqui e agora. De alívio ou felicidade, não sei. Só o que sei é que sinto uma emoção muito grande tomando conta de mim. Os olhos dele grudam nos meus novamente, e posso jurar que sinto borboletas no estômago. Quando ele começa a falar, sinto meu coração a cada segundo mais disparado.
- Você chegou aqui e incendiou essa sala. – Ele pisca algumas vezes, sem deixar de me encarar. – Preciso ser sincero... Fiquei me perguntando durante sua "audição surpresa" de onde vinha essa ferocidade que há dentro de você. Depois que nos contou o que fez para chegar até aqui, percebi que não se encontra só na voz, mas em você como um todo.
Não sei há quanto tempo estou prendendo a respiração. Só o que sei é que nunca irei esquecer essas palavras em toda minha vida.
- É claro que, se chegasse aqui e nos fizesse perder tempo, seria despejada. – Todos, de repente, riem com a súbita expressão séria que Bruno faz. Eu, por outro lado, não consigo rir. Não quando me sinto tão extasiada. Ele sorri para mim, e, inevitavelmente, sorrio também.
- O que eu quero dizer é que você pode ficar tranquila, porque não nos fez perder tempo. Na verdade, acredito que nos fez um grande favor hoje. – Ele sorri novamente, e quando seus olhos fitam os meus, penso que irei desmaiar. – Peço que quando sair, fale com Liza, nossa secretária, e peça para ela fazer uma ficha para você.
Não digo nada, apenas o encaro, sem conseguir esboçar uma reação sequer. Quando ele volta a falar, não consigo conter a felicidade em mim.
- Saphira, você agora está oficialmente competindo com as outras garotas. Parabéns.
Ai
Meu
Deus
Me sinto anestesiada. Não consigo acreditar. Eu consegui. Droga, eu consegui! Finalmente... Estou na lista! Não consigo controlar a emoção dentro de mim. Sinto algumas lágrimas escorrendo por meu rosto enquanto todos na sala me aplaudem, inclusive Bruno Mars. Choro como uma criança, sentindo tudo ao mesmo tempo. Sem pensar muito, caminho até eles. Bruno Mars me encara, um sorriso em seu rosto.
- Posso te abraçar? – Pergunto, minha voz embargada.
Ele parece se surpreender com o pedido, tanto que não diz nada e seus olhos se arregalam um pouco. Mas, mesmo sem dizer nada, o abraço.
- Obrigada, obrigada, obrigada... – Digo, chorando, sentindo real gratidão. – Não sabe o que fez por mim, não tem nem ideia... Obrigada!
Bruno parece se assustar, mas rapidamente sinto seu abraço me envolver por completo. O cheiro do seu perfume, inevitavelmente, inunda meu olfato. Posso sentir que ele também está sentindo o meu, principalmente quando cheira meu pescoço, de leve. O que me faz arrepiar, muito. É quando me afasto.
- Desculpe, é que estou muito emocionada... – Rindo, me desgrudo dele e caminho para trás, quase tropeçando. Os demais também riem. – Desculpe...
Rio, enxugando as lágrimas do rosto. Bruno Mars apenas me encara com um pequeno sorriso, parecendo constrangido. Droga, não acredito que fiz isso. Pigarreio antes de voltar a falar.
- Se não for incômodo, posso enviar a ficha por e-mail ou fazer aqui mesmo?
- Por que? – Bruno pergunta, parecendo curioso. – Algum problema?
- Ã... – Sorrio, quase sem graça. – É que Liza não sabe que estou aqui, e não quero deixar a Jaque em maus lençóis. Pretendíamos sair de fininho. Ou na pior das hipóteses, algemadas.
Todos riem novamente, e sinto um clima descontraído.
- Esqueci desse detalhe... – Bruno continua me encarando, mas dessa vez esboça um sorriso maior. – Tudo bem, posso te ajudar. Na primeira gaveta da mesa de Liza, estão alguns cartões com todas as informações de contato. Quando sair, pegue um deles e envie um e-mail com seus dados pessoais, como seu nome completo, nacionalidade, idade, identidade e etc. Insira também seu status de relacionamento, endereço, telefone e experiências no meio musical. Precisamos de tudo muito bem detalhado.
- Entendido. Pode deixar. – Não consigo conter o sorriso. – E quanto ao resultado? Quando irei saber?
- Ainda não sabemos quando, mas verifique sempre seu e-mail e seu celular. E não se esqueça de enviar seus dados ainda hoje.
- É, isso mesmo. – Diz o baixinho que perguntou meu nome quando entrei. Acredito que seja Ari Levine. – Agora, pode se retirar. Ainda temos um intervalo para fazer.
- Certo, certo... – Sorrio. – Mais uma vez, muito obrigada! E desculpa por tudo... – Me viro e saio da sala, quase correndo. E finalmente me sentindo aliviada.
E muito, muito feliz. Mais feliz do que posso explicar.
E com mais uma coisa.
O olhar de Mars gravado em minha mente.

Saphira OFF

Bruno ON

Pode parecer ridículo, mas não consegui tirar os olhos dela um segundo sequer. Desde que ela entrou nessa sala, senti uma energia... diferente. Algo forte, algo que me fez arrepiar. E não só por conta de sua entrada, digamos, inesperada. Mas por algo que ainda não sei. Cada detalhe dela, sua coragem, sua intensidade. Sua voz. O que foi aquilo?! Eu soube, na hora, que era diferente das demais. Me arrisco a dizer que, na verdade, superou minhas expectativas. Quando ela terminou de cantar, eu sabia que não podia deixar um talento desses me escapar. E de uma forma inexplicável, sua ousadia de fazer tudo aquilo me deixou ainda mais impressionado. Ela foi ousada, eu sei, mas quando ouvi sua voz e a senti em meu abraço, mesmo que por poucos segundos, o calor de seu corpo no meu e logo depois o cheiro em seu pescoço, foi o suficiente para querer tê-la conosco. Na verdade, para tê-la perto de mim. Bem perto...
Percebo que estou arrepiado quando Jamareo quebra o silêncio.
- O que foi isso?! – Jamareo grita, quase me assustando. Percebo que ainda estou arrepiado.
- Cara... – Dessa vez Dwayne se pronuncia, apontando para a porta. – Essa garota é louca. – Ao invés de rir, ele permanece sério. – Mas o que tem de louca, tem de talento.
- Uhum... – Mark resmunga, apoiando os pés no balcão. Ele parece muito pensativo enquanto morde a ponta de uma caneta.
- Ela foi inquestionavelmente boa... – Diz Eric, também parecendo pensativo. – Mas o que ela fez foi, de certo modo, perigoso, não acharam? Uma ousadia dessas seria bom para a banda? Quer dizer, ela parece ser bem imprevisível...
Não respondo nada. Apenas encaro a porta, pensando no que fazer.
- Ah! Já ia esquecendo... – Mark diz, propositalmente mais alto para que todos ouçam. – Não sei se todos perceberam ou somente eu, mas... Por que Bruno pediu que a moça colocasse na ficha seu status de relacionamento? Engraçado que não encontrei em nenhuma outra ficha algum tópico sobre "status de relacionamento"... – Ele sorri, maliciosamente. – Quer nos explicar, Bruno?
Todos me encaram com um sorriso no rosto, alguns rindo. Reviro os olhos, tentando me manter indiferente e não cair nas provocações.
- Foi um engano. – Respondo, sorrindo. – Nem percebi que pedi.
- Aham... – Mark resmunga, sorrindo, obviamente não acreditando no que digo.
- Olha... Estou bem cansado, Mark. Sabe, diferente de você, é comum pessoas que trabalham tanto quanto eu se confundir as vezes...
- AHAM... – Mark resmunga novamente, mais alto, ainda sorrindo e com a caneta na boca.
Os meninos riem, tirando sarro. Falam um monte de besteira. E então acabo entrando na brincadeira. Me descontrair com eles é uma das minhas coisas preferidas na vida.
Mas, de certa forma, Mark tem razão em fazer a pergunta. Realmente, não pedimos "status de relacionamento" nas fichas. E, na verdade, eu realmente não sei porque pedi isso. Foi... automático. E desintencional.
De qualquer forma, só o que sei é que mesmo depois de vários minutos de Saphira deixar a sala, continuo impressionado. E arrepiado.
E seu perfume continua em meu nariz.
É doce, e ao mesmo tempo forte.
Fecho os olhos.
Saphira.
Esse nome soa como música para os meus ouvidos.

Bruno OFF

Too Good To Say GoodbyeOnde histórias criam vida. Descubra agora