33. Tela de bloqueio

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"'Eu não acredito em magia.'

O menino disse.

O velho sorriu.

- Você vai, quando vê-la. "

Atticus

**

Quando meu choro silencioso cessou naquele dia, certa raiva cresceu dentro de mim.

Não acreditava que Harvey tinha proposto a ideia de ser meu amigo.

Depois de ter feito sexo comigo no sofá, em cima da mesa de centro e no chão, aquele ridículo veio com a proposta de ser meu amigo, pois, segundo ele, não daríamos certo juntos.

Ele pelo menos tentou ser algo a mais antes de dizer isso?

Não, claro que não. Claro que não tentou.

No entanto, não demonstrei a minha irritação a Harvey. Afinal, eu tinha aceitado sua proposta com um sorriso grande e com a expressão sincera, pois tive medo de ficar sem nem mesmo isso. Sem nem mesmo a sua amizade.

Mas amigos? Sério?

— Vou te ensinar a fazer um café da manhã decente.

Harvey me disse aquilo no dia seguinte depois de vir bater na porta e me acordar delicadamente. Ele resolveu me acordar meia hora mais cedo para isso, não sabendo que eu tinha ido dormir extremamente tarde por chorar até que as lágrimas acabaram e por estar com a cabeça mergulhada em confusão.

Além disso, eu acabei acordando com uma dor de cabeça tremenda, que só me fez querer desistir de ir trabalhar naquele dia. Na verdade, fez-me sentir uma intensa vontade de desistir de levantar da cama naquela manhã. De desistir de viver.

Porém, o fato de Sirene despertar assim que sentiu meu corpo se mexer por debaixo das cobertas e correr para fora do quarto com uma animação que eu jamais demonstraria em minhas manhãs, resolvi levantar, vestir um roupão e ir até a cozinha para aprender a cozinhar com meu futuro marido e para impedir um possível rompimento da minha amizade com Harvey.

Amizade... Fala sério!

Mas, sim, eu ainda não havia desistido de Harvey.

Eu não sou de desistir fácil.

Nunca fui.

E, afinal, ele era o pai dos meus filhos.

Portanto, calcei meu chinelo e fui me arrastando até a cozinha.

Meus pés faziam um barulho estranho enquanto deslizavam pelo chão e soltei uma leve risada por parecer o grito engasgado de um gato. Olhei travesso na direção da cozinha, esperando que Sirene aparecesse para que eu pudesse provocá-la, mas aquela cachorra nem sequer me deu atenção.

Assim sendo, meu rosto murchou e, me sentindo contrariado, cruzei os braços.

Onde ela estava afinal?

De expressão fechada, comecei a me aproximar ainda mais da cozinha. Assim que cheguei, entendi o motivo de Sirene não vir latir para meu chinelo barulhento.

De costas para mim, Harvey estava alimentando ela com pedaços de pão fresquinho.

— OLHA SÓ — gritei, apontando meu dedo acusatório em sua direção.

Harvey quase caiu para trás e Sirene me olhou assustada.

— Ora, ora, o que temos aqui — voltei a falar e coloquei minhas mãos na cintura.

Destino EstranhoOnde histórias criam vida. Descubra agora