54 - Ariana

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— Helô, cuidado. Você sabe o que passou por causa desse sentimento, não sabe?

Ela vira o olho e meneia a cabeça. Dou-lhe um sorriso antes de sairmos. Domingo a tarde é dia de ir para a rua falar de Jesus. Mas, como líder da FJ, preciso cuidar das almas que estão sob minha responsabilidade. E a Heloísa é uma das minhas primeiras ovelhas.

Depois de ter dado atenção a ela, fico livre para sair. Começamos o trabalho para o Resgate da Virada. Vamos para o residencial Clarke, um de classe média mais ao centro da cidade. Na primeira rua entrego metade dos meus jornais. Mais dois na esquina e entramos na segunda rua do residencial.

— Ary? — diz aquela pessoa quase cantando. — Como você está?

Só pode ser brincadeira! Estamos em quase vinte pessoas, e justamente eu vim na casa dessa? Deus está me provando, só pode.

— Joana, tudo bem. Melhor que nunca! E você?

É impressão minha ou minhas veias estão pulando?

— Ah, sim, estou bem. Preciso admitir, seu novo patrão é um bom empresário. Mande um abraço para ele por ter salvo minha empresa.

Minha empresa, ela pensa.

— Tá, mas não é sobre isso que vim falar. É sobre uma oportunidade para você mudar de vida. Digo, em seu interior, no pessoal. De conhecer o Deus vivo, grande e poderoso, que...

— Mudar de vida? Eu? Estou na melhor fase da minha vida. Tudo está muito bem, não está vendo?

Como se ter uma mansão fosse sinônimo de estar bem.

— Sim, entendo. Mas você já pensou na possibilidade de morrer amanhã? Ou mesmo hoje? Já pensou na sua alma?

— Ai, Dixie, não vem falar de alma pra mim não, tá. Sabe que eu te respeito — ela disse que me respeita com a franqueza linda no rosto — e quero que me respeite também.

— Apenas dê uma chance. Deus mudou minha vida de um jeito que você nem imagina.

— A-hã. Você era uma neguinha empregada e agora é uma empregada de um negão.

Dentro de mim a voz do espírito dá uma ordem: saia daí, para o seu próprio bem. Respiro fundo, ainda olhando nos olhos da mesma racista com quem convivi durante dois insuportáveis meses.

— Sabe, Joana, se eu fosse você, aproveitaria essa chance. Não sei quando e se Deus vai te dar outra, pra mudar seus pensamentos. Você sabe muito bem que pode ser presa por essas palavras, não sabe?

— Se eu fosse você, primeiro fazia essa mudança de vida que você diz aparecer, depois que você tiver uma casa dessas e, pelo menos, um carro como aquele — ela aponta o mais simples dos seus três carros: uma BMW que, apesar de cara, acho horrível — aí você pode vir me falar de um deus grande e poderoso, entendeu neguinha?

Um carro que nem sei o nome dobra a esquina e entra na garagem da mansão. Buzina para nós, e Joana abre um sorriso mais sarcástico.

— Está vendo? Arrumei até um namorado! Coisa que você nem é capaz de fazer.

Na minha mente grito que ela não sabe de nada, e que se não aproveitar essa chance, o inferno a espera. Mas sei que isso só vai piorar as coisas. Despeço-me e tento ir para a próxima casa, mas ao ver que todas são do mesmo nível, e imaginar a imagem da minha pobre casa, até com minha mãe sentadinha no sofá rasgado, faz arder em mim uma dor misturada a uma revolta tão grande que grito com Deus aqui na rua mesmo:

— Deus, eu não aceito servir o Todo-Poderoso, o Deus Vivo, Criador do universo, e viver nessa miséria. Como posso falar do Senhor se não Te vejo na minha vida? Não aceito ser uma hipócrita e falar algo que não vivo!

Entrego os jornais para o pastor, que vem na mesma rua, e vou embora a pé.

No caminho, encontro alguns mendigos, para os quais falo do que conheço. Consigo até marcar para buscá-los para a vigília. Edson, Pawlo e Angélica são seus nomes. Pessoas de cor, como eu, que não julgam pela capa, e aceitaram meu convite. Mesmo assim, volto de passos firmes, lutando em minha mente, buscando a resposta, o que faço para ter minha vida financeira transformada. Até esqueci que a Helô estava me esperando. Mando uma mensagem pedindo desculpas e ela parece aceitá-las.

Quantas voltasOnde histórias criam vida. Descubra agora