88 - Ariana

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Eventualmente o luto tem fim. A vida não pára, e precisamos seguir em frente. Deixar o que passou para trás não é fácil, mas é necessário. Hoje tiro o dia para remover do escritório tudo que me faz lembrar do Valdir, e do que sentia por ele.

— Como você se sente agora sem seu protetor?

Joana passa várias vezes pela minha porta, sempre zombando. Como pode uma pessoa chegar a esse nível? Como ela se deixa ser usada pelo diabo com tanta força?

— Ele era seu patrão também, sabia? — respondo.

— Aproveite seu dia... seus últimos dias. Valdir não é mais o chefe aqui, e o conselho está decidindo quem será o novo presidente. Uma dica: será uma mulher. Outra dica: não será você.

Ela vai embora rindo. Como assim? O conselho quer colocá-la como presidente? Isso não pode acontecer! Meu Deus, isso é uma injustiça, e não aceito! Colocar a Joana como nova presidente da empresa. Sim, aquela Joana que deveria estar atrás das grades... Digo isso não com ódio, mas senso de justiça. E já está amarrado!

Terminando de remover da minha sala tudo que me lembrava do Valdir, vou para a dele fazer o mesmo. Encontro uma caixinha que não estava lá quando me mudei para esta sala. A caixa tem uma notinha com a letra dele: para Ary.

Documentos dele. Cartas e letras de músicas escritas... para mim?! Ai, meu Deus. Levo a mão à boca e ainda passo nos olhos para secar as lágrimas. Ele realmente gostava de mim. É como levar um soco no coração, mas essas cartas precisam ser destruídas. É triste, mas é a vida.

A última coisa no fundo da caixa é um documento oficial, com selo de cartório e tudo.

Um testamento.

Quantas voltasOnde histórias criam vida. Descubra agora