Toda noite é o mesmo pesadelo. Desço por um túnel escuro até cair num piscinão de fogo. Culpa da minha vó, que contava histórias de crente para eu dormir quando era mais novo, agora tenho essas merdas de pesadelo toda noite. Ainda mais acordar gritando de madrugada. Os caras vão achar que sou veado se continuar assim.
Atrás das grades tenho tempo. É só o que tenho. Tudo. Tem uma Bíblia aqui também, mas não vou ler mesmo. Esse livro dá um bagulho estranho. Parece que ele vai me condenar.
Como se meus esquemas fossem garantir meu cantinho no céu!
Será que minha velha está preocupada comigo? Já faz onze dias que dancei e ela não veio me ver. Nem trazer aquelas bolachinhas. Quantas lembranças. Quando eu roubei pela primeira vez, bons tempos! Foi no sítio que a velha tinha antes de dar tudo na igreja. A família toda reunida, e na hora da sobremesa, havia sumido o pote de bolachas. Enquanto as tias procuravam, eu estava de boa debaixo da minha árvore favorita me acabando naquele pote. Passei até mal no dia seguinte! Foi legal. Nunca mais larguei aquelas bolachinhas. Se tornaram meu vício.
Quem dera fosse o único. Entrei na farinha e usei pedra algumas vezes. Agora sinto duas coisas: a fissura e a burrice. Mas o tal Deus não cura os vícios, como minha velha falava? Cadê ele?
Cadê? Onde está aquele que tanto a vó falava? Você existe mesmo? Nunca vi nada de bom na vida da velha. Para mim, ela estava sendo enganada esse tempo todo. Mas o sorrisão que ela tinha ao me ver, mesmo eu fazendo de tudo para ela chorar... Por quê, Deus?
— O cara tá chorando! Seja homem, rapá!
— Êh, tá pensando o quê? Vai se f****, maluco! Aqui é macho. Isso é... orgulho líquido, falou?!
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Quantas voltas
General FictionO preconceito começa dentro de casa, quando nem a mãe acredita que Ariana possa ser grande. Após se mudar para uma cidade maior em busca de novas oportunidades, conhece a fé no mesmo grupo de Arnaldo, o jovem mais bonito de sua igreja, mas também o...
