Letal

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Eu podia ouvir o martelar que ecoava pelo corredor, o som não estava muito alto, mas foi suficiente para me fazer abrir os olhos.

— Justin? — chamei confusa, tateando minha cama em busca de seu corpo.

O quarto estava escuro, janela e porta fechadas. Eu deveria ter previsto sua intenção de me fazer dormir quando me deitou em seu peito, acariciando meu braço e intercalando perguntas num bom espaço de tempo. Sua respiração leve e seu perfume tão suave eram como canção de ninar.

Entristeci-me por não poder me despedir dele, que provavelmente estava trabalhando. Seu horário laboral parecia bem flexível para mim, mas era lógico que eu não poderia ter sempre sua atenção. Talvez fosse até ganância da minha parte esperar que pelo menos me deixasse um bilhete de despedida quando havia altas probabilidades de ter ficado comigo devido ao meu estado caótico e inconsolável.

O motivo de minha depressão momentânea preencheu novamente minha cabeça de forma que não pude evitar. Rolei para fora da cama, não querendo me afundar no poço sozinha, sentindo uma necessidade até aquele instante adormecida, pintar. Saí do meu quarto na ponta dos pés, no intuito de passar despercebida. Eu não sabia que horas eram, mas não queria correr o risco de encontrar alguém.

— Paradinha aí mesmo — Flê ordenou bem atrás de mim.

Virei-me para ela de mau gosto, respirando fundo. Flê estava com as mãos na cintura, os olhos apertados de censura, mas assim que viu meu rosto transmutou para preocupação.

— Está tudo bem? — ela perguntou devagar, fazendo menção de se aproximar de mim.

Recuei um passo por instinto, imediatamente recalculando meus planos.

— Sim. Eu estou indo... na casa de Wren. Ele não estava muito bem e me convidou para jantar — inventei.

Eu estava mesmo devendo uma visita a ele, e ficar com Flê e toda a sua preocupação que gerava uma atenção exagerada não era uma opção.

Era claro em seus olhos que minha desculpa de última hora não caíra muito bem.

— Faith, seja lá o que for você sabe que pode contar comigo... — começou.

— Sei, Flê, obrigada. Depois eu volto — dei um beijo em sua cabeça, indo para o lado contrário, em direção as escadas.

Não esperei uma resposta, esquecendo até mesmo de pegar meu celular na pressa de sumir dali. Willian, entretanto, estava bem na porta de entrada. Contive meu suspiro, sabendo não ter outra saída assim que seus olhos captaram minha presença.

— Vamos ao vizinho? — chamei para a situação ficar menos desconfortável, me daria a falsa sensação de estar na companhia por livre e espontânea vontade de um amigo, e a ele amenizaria a percepção da obrigação de ser jogado de um lado para o outro como uma marionete.

Willian fez um sinal positivo com a cabeça e abriu a porta. Apesar dos meus esforços, até sua postura exalava um dever. Não deveria ser agradável seguir uma garota mimada e imprudente. Eu bem poderia tornar seu fardo mais leve.

— Então... Você tem filhos? Esposa? Namorada? — puxei o assunto, caminhando pela calçada. O sol estava se pondo no horizonte, anunciando a chegada de mais um fim.

Meu interlocutor me olhou com uma surpresa disfarçada nos olhos causada por minha repentina interação.

— Hm, não para todas as perguntas. É bem mais acessível este emprego para alguém solteiro.

Assenti, dando um sorrisinho.

— Acredito. Você está apenas no terceiro dia e já viveu altas emoções. Peço desculpas por isso, não sei por que meus dias têm sido tão loucos.

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