XVII - Sábado à noite

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Embainhei Mortalha e estava pronto para voltar para casa quando a porta se abriu e um homem barrigudo de terno e com um charuto na boca apareceu. Do mesmo jeito que eu estava eu fiquei: tinha acabado de embainhar Mortalha mas não tinha soltado o cabo da espada.
Ficamos nos olhando em silêncio por um momento até o homem começar a gritar:

— SEGURANÇAS! SEGURANÇAS!

Em menos de segundos, 15 seguranças entre homens e mulheres invadiram a sala e no mesmo momento, Mortalha começou a zumbir.
A espada só zumbia se tivessem demônios por perto quase que como se fosse um aviso que a coisa ficaria feia.
Eu conseguia ver a verdadeira face dos demônios quando eles apareciam, enquanto que para os humanos era como se fosse apenas um outro humano. Por isso ignorei a chegada dos seguranças na sala, por que não vi nada além de pessoas normais. Achei que Mortalha estivesse zumbido apenas porque eles estivessem por perto e não na minha frente.
Fechei os olhos ignorando a chegada as pessoas na sala até um deles abrir a boca.

— Enfim nos reencontramos, General.

Abri os olhos e olhei a minha frente, mas dessa vez com mais atenção e pude ver as faces demoníacas dos antes seguranças inofensivos.

— Oi linda, saudades?

— Me diga, com quem está a humana? – Um sorriso de escárnio surgiu nos lábios pretos e encouraçados do demônio revelando a língua bifurcada. – Está protegida?

Na hora um nervosismo subiu pela minha espinha. Eu havia deixado Diana sem proteção pela segunda vez, sem me dar conta das consequências. Mas mesmo estando nervoso, precisava demonstrar frieza.

— Você não sabe onde ela está. Se não, não estaria perdendo tempo comigo.

— Eu não, você tem toda a razão. Mas como sabe que ela está a salvo?

Senti Diana apertar minha mão, e a ouvi reclamar que estava com fome e que era para mim andar logo com aquilo. Respirei aliviado e quase agradeci a Deus por isso. Quase.
Andei até um aparelho de som que estava na sala e liguei. Estava tocando uma das músicas favoritas de Diana: Say Amen (Saturday Night). Tirei Mortalha da bainha mais uma vez, o que fez os demônios se encolherem um pouco. Eles sabiam que cada demônio só via Mortalha uma vez na vida. Ou melhor, na morte.
Olhei para minha espada e sorri. Sem o demônio que falava comigo segundos antes esperar, desferi um golpe reto na altura do seu pescoço com Mortalha. Por um segundo a sala inteira resolveu parar no tempo, ninguém se mexeu. Então se ouviu o som úmido de sangue brotando. No pescoço da criatura, um filete de sangue preto começou a escorrer. O rosto do demônio começou a trincar segundos antes da sua cabeça cair ao seus pés com seu corpo ainda em pé demorando para processar a falta da cabeça. E então, o conjunto cabeça e corpo explodiu em fumaça negra me deixando com 14 demonios na sala.
Assim que o primeiro deles explodiu em fumaça negra, os outros vieram para cima de mim como se estivessem anciosos pela sua morte.
Meus olhos brilharam em azul e a pancadaria começou. Um a um, os demônios começaram a explodir em fumaça com cabeças e braços faltando.
Sabia que não deveria ficar ali, perdendo tempo e gastando um poder que não tinha, mas matar demônios era satisfatório e desestressante demais.
Não pense que sai ileso de lá e que nenhum deles me acertou. Levei socos, coronhadas e o último deles, antes de morrer, desferiu um golpe no meio do meu peito. Não me deixou caido no chão, mas fez um corte curvo. Na mesma hora minha camiseta começou a traspassar o sangue.
Diana, na sala de casa, começou a entrar em pânico vendo um filete de sangue surgir no meu peito do nada.
Bem, como eu disse, no Transporte de Conciência é como se eu me dividisse em dois ao mesmo tempo, mas um dos meus corpos fica inerte e sofrendo tudo o que o clone sofre. Então dava para entender porque Diana se desesperou.
Assim que terminei com o último demônio, decidi que deveria parar de brincar e dizer a Diana que tinha começado a me chacoalhar e gritar meu nome, que estava tudo bem.
O homem de terno ainda estava parado na porta no mesmo lugar, mas o charuto tinha caido da sua boca e seus olhos estavam arregalados.

— Q-quem... o que é você?

Minha resposta foi uma cotovelada no nariz dele o deixando inconsciente no chão. Logo depois, embainhei Mortalha e voltei para casa.

Anjo MeuHistórias para pegar e não largar. Descubra agora