XIX - Passeio no parque

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Não sei porque me sentia nervoso mas precisava me acalmar. O problema era que Diana continuava me olhando fixamente. Queria fazer várias coisas naquele momento ao mesmo tempo, mas não conseguia pensar. E então caiu a fixa: “E só voltará para o céu quando aprender a amar os humanos.” Miguel havia me dito isso, mas não podia ser. Se eu estivesse certo então... eu precisava ter uma conversinha com os cupidos.

— Tudo bem, acho que acabei com isso.

Ela passou o algodão rapidamente por toda extensão do corte uma última vez e afastou a mão, mas seus olhos ainda me encaravam.

— Obrigado. – Me levantei desajeitado no sofá.

— Por nada, vou reabrir a floricultura, você vem?

— Não, vou fazer mais pesquisas sobre a Chave. – Menti. – Mas vou buscá-la às 18h para voltarmos juntos.  Quer dizer, para você não voltar sozinha.

— Tudo bem, só não vai se atrasar.

— Engraçadinha...

Assim que Diana saiu, peguei outra camiseta, vesti e sai de casa.
Cupidos são espécies de anjos do amor, que assumem a forma de crianças e trabalham geralmente em duplas. Eles são os únicos anjos que podem ficar tanto no Céu como na Terra.
Eles nunca gostaram muito de mim, pois para eles temos que amar TODOS os seres da criação sem distinção alguma e esse não era o meu caso. Sempre achei os humanos fracos, sem sentido e a criação mais inútil de Deus. Certa vez, quando ainda fazia parte da Guarda Celeste, deixei escapar em uma discussão familiar com meu pai, que Lúcifer tinha razão em não amar aquelas criaturas e quase fui expulso. Igualzinho a ele. Nunca tive nem um pingo de compaixão ou amor por humanos, não até cupidos invadirem minha missão. Não até conhecer Diana.
O parque era o lugar preferidos dos cupidos. Ainda mais em São Francisco que a maioria dos parques era muito frequentado por todo tipo de gente. Famílias, pessoas com corações partidos, pessoas que querem um amor verdadeiro ou que simplesmente esperam a chamada “Flecha do Cupido.” O lugar perfeito para cupidos soltarem suas flecha loucamente. Então, eu só precisava achá-los no meio dessa gente toda.
Como eu disse, cupidos trabalham em duplas e todos eles tem héterocromia, ou seja, tinha um olho de cada cor. Se um cupido tivesse o olho esquerdo verde e o direito castanho, sua dupla teria o esquerdo castanho e o direito verde. Eles sempre se completavam. Sem contar que chegar perto deles, te dava aquelas típica sensação de nervosismo quando se está apaixonado. Sei disso porque eu estava.
Andei muito tempo pelo parque procurando aquelas coisinhas irritantes. Comecei a achar que não ia encontrá-los quando vi duas crianças andando de mãos dadas pelo parque sem nenhum responsável por perto, cada um com seus mini arcos de madeira nas costas.
Cheguei mais perto e ri incrédulo. Ezarel e Castiel a dupla de cupidos que haviam unido Cleópatra e Marco Antônio.

— Você não fez isso comigo, pai. Não fez. – Falei para mim mesmo enquanto ia até os cupidos.

Chegar perto deles mesmo que a uma “distância segura”, me deixou com um frio na barriga e a vontade de estar com Diana mesmo que só olhando para ela, veio à tona. Só podia ser brincadeira.

— Por que?

Ezarel e Castiel se entreolharam e riram com as mãozinhas gordinhas nas bocas deixando a vista apenas seus olhos azul e cinza.

— Papai pediu para fazer você amar os humanos. – Disse Ezareal.

— E Diana é humana.– Completou Castiel.

— E é a minha missão também. – Revirei os olhos.

— As coisas sempre ficam melhores com amor. – Disse Ezarel.

— Sempre. – Completou Castiel novamente.

Eles pegaram cada um uma mão minha e me levaram até um banco de madeira no parque.
Ezarel tirou seu arco das costas, puxou a corda com seus dedinhos gordinhos e uma flecha dourada se materializou. Ele mirou em um homem que passeava com seu cachorro e atirou. A flecha o atingiu sumindo em um brilho dourado.
Mais a frente, uma mulher correndo pelo parque, ia passar reto pelo homem recém atingido mas Castiel foi mais rápido e atirou uma flecha antes. Ela tropeçou e caiu, mas o dono do cachorro veio ver se ela tinha se machucado. Mais um casal feito.

— Não poderia ser de outra forma? Eu preciso... preciso mesmo amá-la? – Perguntei observando o casal que os cupidos acabaram de formar.

— Sim! – Os dois falaram em uníssono.

— Você não tinha nenhum amor por humanos... – começou Ezarel.

— E agora, ironicamente, seu coração é de uma humana. – Terminou Castiel.

Não tinha problemas com o amor, ou em amar Diana. O que me incomodava era saber que um dia eu iria deixá-la.

Anjo MeuHistórias para pegar e não largar. Descubra agora