Ulisses acordou com a sensação de que tinha passado a noite inteira mastigando moedas. Não era só o gosto na boca — um amargor espesso, metálico, como se alguma coisa dentro dele tivesse enferrujado enquanto dormia — mas também a estranheza do próprio corpo, como se ele tivesse sido devolvido ao mundo um pouco fora de ajuste. Havia uma luz dura entrando pela janela estreita da quitinete, agressiva demais para aquela hora, e por um instante ele não reconheceu o quarto. Não era exatamente medo ainda, mas uma desconexão incômoda, como quando um lugar familiar parece ligeiramente errado e você não sabe dizer por quê.
Ele tentou se mexer e sentiu o erro imediatamente. Uma dor baixa no abdômen se contraiu com força, como uma mão fechando por dentro. Ulisses arqueou o corpo, os dentes cerrados, esperando que aquilo fosse apenas o resquício de uma noite de excessos, mas o desconforto não se comportava como ressaca comum. Era mais profundo, mais insistente, como se alguma coisa estivesse instalada ali e agora estivesse se lembrando de que precisava se mover. Ele levou a mão à barriga, respirando curto, e murmurou para o teto, sem convicção: — Tá de sacanagem...
A memória veio em fragmentos desconfortáveis. Um bar de luz baixa, o cheiro doce demais de perfume misturado ao álcool, e uma mulher loira de vestido preto que parecia deslocada do resto do ambiente, como se pertencesse a uma cena que não era aquela. Ele se lembrava de ter sentido um interesse imediato, quase automático, e de ter oferecido bebida cara sem pensar muito nas consequências. O resto estava borrado, como se alguém tivesse passado uma borracha grossa nas partes mais importantes da noite. Ainda assim, havia uma sensação persistente de que algo tinha acontecido depois disso, algo que ele não estava conseguindo acessar.
Quando tentou se sentar, a dor piorou de forma abrupta, fazendo seu corpo travar por um segundo inteiro. O quarto pareceu girar levemente, e ele precisou esperar a onda passar antes de conseguir se levantar da cama. Cada movimento até o banheiro foi lento e negociado, como se o próprio corpo estivesse relutando em cooperar. No caminho, passou pela cozinha e viu a garrafa de uísque pela metade sobre a bancada. Não lembrava de ter deixado aquilo ali daquela forma, e essa simples dúvida foi suficiente para deixar sua mente ainda mais instável.
O banheiro era pequeno e frio, azulejos antigos com rejunte escurecido que pareciam mais úmidos do que deveriam. Ele se sentou no vaso com urgência, quase sem tempo de se posicionar, e então tudo dentro dele pareceu se reorganizar de maneira violenta, como se alguma coisa estivesse sendo empurrada de dentro para fora. Ele apertou as bordas do vaso com força, respirando com dificuldade, e tentou se convencer de que era apenas intoxicação, algo que passaria em alguns minutos, algo explicável. Mas a sensação não tinha nada de passageiro.
O som que veio depois foi pesado, úmido, definitivo, e por alguns segundos o banheiro inteiro pareceu ficar em silêncio, como se o ambiente tivesse assistido aquilo e não soubesse como reagir. O alívio veio rápido demais, quase enganoso, seguido imediatamente por uma estranha sensação de vazio, como se alguma coisa tivesse sido removida dele sem permissão. Ulisses ficou imóvel por alguns instantes, suando frio, tentando recuperar o fôlego, até que criou coragem para olhar.
No fundo da água turva havia algo que não pertencia à lógica de nada. Não era apenas matéria orgânica, não era apenas resíduo. Era uma forma irregular, pálida, que parecia se reorganizar lentamente, como se ainda estivesse decidindo o que era. Pequenas pulsações percorriam sua superfície, e Ulisses sentiu o estômago revirar antes mesmo de entender o que estava vendo. Ele se inclinou um pouco sem querer, como se fosse impossível não olhar, e o arrependimento veio quase instantaneamente.
A coisa se contraiu. E então abriu um olho.
Amarelo. Único. Profundamente atento de uma forma que não fazia sentido naquele contexto. Não havia expressão, mas havia intenção, e isso foi o que mais perturbou Ulisses. Ele recuou de imediato, batendo as costas na parede, o coração disparado, enquanto a mente dele tentava encontrar alguma explicação racional que não existia. — Isso não... isso não saiu de mim... — ele disse, mas a própria frase parecia fraca, insuficiente, como se não fosse capaz de conter o que estava acontecendo.
A coisa começou a se mover para fora do vaso.
Não tinha forma definida. Era como se estivesse aprendendo a existir fora da água, reorganizando-se em tempo real, escorrendo e ao mesmo tempo se sustentando. O olho continuava fixo nele, acompanhando cada movimento com uma atenção calma demais, quase paciente. Ulisses sentiu o estômago se revirar de novo e vomitou no chão do banheiro, sem conseguir desviar o olhar completamente. Quando levantou a cabeça, a coisa já estava no chão, e o cheiro que veio dela era pesado, orgânico, como carne deixada tempo demais em um lugar quente.
Ele tentou recuar para a porta, mas o corpo não respondia com a velocidade que ele precisava. A coisa se aproximava lentamente, arrastando-se de uma forma que não imitava nenhum animal conhecido, e então veio a sensação — não um som exatamente, mas algo que se formou direto dentro da mente dele, como pensamento implantado. A palavra foi simples, curta, mas suficiente para congelá-lo por completo.
— Pai.
Ulisses ficou imóvel. A palavra não fazia sentido dentro de nenhuma versão da sua vida. Ele não tinha filhos, não tinha histórico, não tinha nada que justificasse aquilo, e ainda assim a forma como aquilo foi dito parecia carregada de certeza. — Não... — ele murmurou, a voz falhando, enquanto encostava na porta tentando se manter de pé. A coisa inclinou o corpo na direção dele, e o olho permaneceu fixo, sem piscar, como se estivesse observando algo mais profundo do que apenas a superfície dele.
Ele abriu a porta do banheiro com violência e caiu no corredor da quitinete, respirando com dificuldade. Por alguns segundos, ficou ali no chão frio, tentando convencer a própria mente de que aquilo não estava acontecendo, de que era apenas uma reação extrema ao álcool, ao estresse, a qualquer coisa que pudesse ser explicada depois. Mas quando olhou para o banheiro novamente, não havia mais som algum vindo de lá.
O silêncio foi o que o fez levantar.
Ele percebeu o rastro úmido no chão quase imediatamente. Fino, irregular, indo em direção ao quarto. Ulisses ficou parado por alguns segundos, encarando aquilo, sentindo uma parte dele insistir para que ele saísse pela porta da frente e nunca mais voltasse. Mas havia outra parte — mais pesada, mais lenta — que não conseguia aceitar simplesmente fugir sem entender.
Ele seguiu o rastro.
A luz do quarto parecia a mesma de antes, mas agora tinha algo de mais frio nela, como se tivesse perdido qualquer neutralidade. E sobre a cama havia algo que não deveria estar ali. Pequeno, ainda incompleto, mas já inconfundivelmente vivo. O olho estava lá de novo, o mesmo amarelo opaco, fixo nele com uma paciência que parecia antiga demais para algo tão recém-formado.
Ulisses sentiu o peito apertar de um jeito que não era mais só medo, mas reconhecimento de que alguma coisa tinha atravessado uma linha irreversível. A coisa se mexeu levemente, como se reagisse à presença dele, e então a palavra veio novamente, agora mais estável, mais definida, como uma afirmação que não precisava de resposta.
— Pai.
Dessa vez, não havia dúvida naquilo.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
