Ulisses acordou com um gosto amargo na boca, uma mistura de bile e arrependimento, o tipo de gosto que vem depois de uma noite mal lembrada. Ele piscou contra a luz dura do sol que entrava pela janela estreita de sua quitinete. A última coisa que conseguia recordar era o sorriso provocante de uma loira num vestido preto, sentada no canto mais escuro do bar. Ele havia pedido uma bebida para ela, algo caro e destilado, porque sentiu que ela merecia. Mas o que aconteceu depois? Ele não tinha ideia.
Tentou sentar na cama, mas uma pontada aguda na barriga quase o fez gritar. Era como se alguma coisa estivesse viva dentro dele, se retorcendo, empurrando suas entranhas em todas as direções ao mesmo tempo. Ele arfou e segurou o abdômen.
— Que droga... — murmurou, inclinando-se para frente.
Ulisses não era o tipo de homem que se deixava levar por excessos. Não mesmo. Ele trabalhava como técnico em TI, um emprego solitário, mas estável, que lhe permitia pagar o aluguel da minúscula quitinete e manter um estilo de vida medíocre. Mas, desde que Helena o deixara — "Você se tornou invisível para mim, Ulisses" — ele havia descoberto um vazio dentro de si. E ontem à noite, tentou preenchê-lo com uísque. Muito uísque.
Agora, parecia que aquele vazio estava se vingando.
A dor na barriga crescia, irradiando para as costelas, o peito. Ele correu para o banheiro com passos vacilantes, o suor escorrendo pela testa. Sentou-se no vaso como se estivesse fugindo de algo.
E então a tsunami começou.
Era como se cada centímetro de suas entranhas estivesse sendo esmagado e torcido, forçando-se para sair. Ele apertou os punhos contra os joelhos, respirando com dificuldade.
— Meu Deus, o que está acontecendo comigo? — A voz saiu rouca, quase um sussurro.
Por fim, algo deslizou para fora de dentro dele com um som que ele sabia que jamais esqueceria, um plop pesado e molhado que reverberou pelo banheiro. O cheiro que se seguiu era indescritível, uma coisa podre e primitiva, como carne apodrecida deixada ao sol. Ulisses ofegou, sentindo-se aliviado, mas também esvaziado, como se algo essencial tivesse sido arrancado dele.
Foi então que olhou para dentro do vaso.
— Jesus! — Ele recuou, cobrindo a boca instintivamente, como se a palavra fosse um pecado diante do que seus olhos viam.
No fundo da água turva, algo se mexia.
No início, ele achou que era apenas a luz jogando truques na superfície, mas não. Era real. Era horrivelmente real. A coisa tinha o formato de algo que normalmente seria considerado lixo biológico, mas estava viva. E se movia com a mesma fluidez de uma cobra, mas com uma textura que fazia Ulisses querer vomitar. A coisa era viscosa, cheia de pequenos nódulos, como se estivesse coberta de bolhas pulsantes.
E então abriu um olho.
Um único olho amarelo, com uma pupila negra e fina, como a de um réptil, encarou Ulisses. Não havia expressão naquela coisa, mas mesmo assim ele sentiu como se estivesse sendo julgado. Como se a coisa o reconhecesse.
Ulisses cambaleou para trás e vomitou, o ácido queimando sua garganta. Quando ergueu os olhos novamente, a coisa estava tentando sair do vaso.
Ela não tinha membros, apenas um corpo retorcido que se erguia como uma cobra prestes a atacar. E o olho continuava a observá-lo, sem piscar.
— Isso não está acontecendo... — ele murmurou, agarrando a borda da pia para se equilibrar. — É um sonho. Só pode ser um sonho.
Mas não era. Porque ele sentia o cheiro. Ele ouvia o som molhado e viscoso da coisa enquanto ela se arrastava pela porcelana do vaso.
Ela sibilou, um som baixo e ameaçador, como se estivesse se preparando para algo. E então falou.
— Pai.
A palavra saiu num tom baixo e gutural, mais sentida do que ouvida, como se viesse direto para dentro da mente de Ulisses. Ele gritou, tropeçando para trás, batendo contra a porta.
A coisa continuou a sair, lenta e inexorável, até cair no chão com um splat úmido. Ela se retorceu, crescendo e mudando de forma, e o olho... o olho não parava de olhar para ele.
Ulisses sabia, com uma certeza que gelou seu sangue, que aquilo era só o começo. Algo havia entrado nele na noite anterior, algo que agora queria mais. Mais dele. Mais do mundo.
E o pior de tudo é que ele sabia, no fundo, que não tinha força para impedi-la.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
