HOMENS DE PRETO

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Era verão de 1997 e a noite estava quente, abafada. As ruas de Porto Alegre estavam desertas, como sempre estavam durante nossos patrulhamentos. Eu e meu parceiro estávamos lá, como sempre, ruminando nossas bolachas e aquele achocolatado quente, tentando fazer passar o tempo. O rádio pipocou, e a voz do chefe nos mandou para uma ocorrência no bairro Vila Rica, que ficava um pouco afastado. Parecia mais um caso comum, mais uma psicose. As histórias eram sempre as mesmas, alguém vendo coisas que não existiam, paranoias típicas de madrugada.

Mas, naquele turno, eu já estava cansado. Eu sabia o que era ter um trabalho sem perspectivas, com a sensação de que a única coisa que realmente sabia fazer era atirar. E eu tinha três bocas em casa para alimentar, três filhos pequenos. Então, engoli o resto da bolacha e o achocolatado, acelerei o carro e nos dirigimos até lá.

O bairro, Vila Rica, era um lugar isolado. Subimos um morro íngreme, passamos por ruas escuras, cheias de mato alto e casas caindo aos pedaços. Não parecia que havia vida ali. A rua onde o incidente teria acontecido era uma das mais abandonadas, com lixo transbordando para os lados. A casa número 1022, a tal do pedido de ajuda, ficava no fim dessa rua. Quando chegamos, estava tudo em silêncio. Não havia ninguém na rua, nenhuma luz acesa. A porta da casa estava aberta, mas não havia sinal de vida dentro dela.

Começamos a patrulhar os arredores, buscando algo. Até que, de repente, algo me chamou a atenção. No quintal, a uns trezentos metros da casa, havia um objeto. Não sabia o que era exatamente. Parecia um sino, mas não fazia sentido. Era metálico, ou talvez de vidro, algo que refletia a luz da nossa lanterna, como se captasse tudo ao redor. Era estranho, e um calafrio percorreu minha espinha.

Saquei minha arma e disse ao meu parceiro para seguir em frente. À medida que nos aproximávamos, o objeto começou a se mover, levantando-se do chão, como se estivesse cambaleando. Eu achei que ia cair de novo, mas, quando a luz se refletiu, o objeto ganhou altura. Comecei a perceber que aquilo não era mais normal. Luzes começaram a acender em seu interior, dançando e rodopiando. E então, descarregamos nossa munição.

Não fazia sentido. As balas atingiam o alvo, mas não o derrubavam. O objeto só subia mais e mais, desafiando a gravidade. A cada segundo, parecia mais fora da realidade, mais distante da explicação humana. Meu corpo inteiro estava ereto de tensão, mas o que mais me marcou foi a sensação no meu braço, os pelos eriçados. Algo no ar havia mudado.

O objeto subiu ainda mais, parando a uns duzentos metros de altura. Fiquei parado, imóvel, observando, até que ele ficou lá, suspenso no ar, por um tempo que parecia uma eternidade. Não fazia nenhum barulho. Descarregamos mais balas, mas nada acontecia. Foi quando a luz que ele emitiu se tornou mais intensa. Um feixe de luz esverdeada caiu sobre nós, e eu senti a minha pele queimar como se estivesse sendo incendiado por dentro. A dor foi insuportável. Minha carne, meus ossos, tudo ardia. Gritei, mas ninguém poderia ouvir.

A luz se dissipou tão rapidamente quanto surgiu. Eu caí no chão, a sensação de dor ainda queimando minha pele. Quando consegui olhar para o lado, percebi que meu parceiro não estava mais ali. Ele tinha sumido. Procurei por toda parte, mas não o encontrei. O que diabos havia acontecido?

Voltei para a base, ainda sem saber o que pensar, o que dizer. Relatei o que aconteceu, mas meus superiores estavam tensos demais para acreditar. Eu os observava, procurando uma reação, mas parecia que estavam escondendo algo. Eles não disseram nada, mas estavam agindo estranho, como se a minha história fosse um incômodo para eles.

Fui levado para uma sala apertada, onde fiquei sozinho, aguardando algo, talvez uma explicação. Mas não. Dois homens entraram. Não eram do nosso departamento. Nenhum deles tinha o tipo de expressão comum em alguém que estivesse ali para ajudar. Eles eram diferentes. Altos, em ternos escuros, óculos escuros, chapéus pretos. Fiquei apreensivo. Sabia que algo estava errado. E sabia que eles não eram daqui.

Eles falavam inglês, mas eu tinha o suficiente para entender o que queriam. Me interrogaram, e fizeram as mesmas perguntas repetidamente, como se estivessem tentando encontrar uma falha no meu relato. Não sou idiota. Eles estavam caçando inconsistências, buscando algo para desacreditar a minha história, mas eu sabia o que vi. Sabia o que senti. Mas o que mais me assustava era a pressão, o silêncio crescente, como se estivessem tentando me esmagar com as palavras e o olhar.

No final, eles disseram, de forma bem clara, que eu deveria esquecer tudo. "Esqueça o que aconteceu. Não conte a ninguém. Ou você será morto." As palavras deles ficaram gravadas na minha mente como uma sentença de morte. Eles estavam me ameaçando. Eles sabiam o que faziam. E, naquele momento, eu sabia que a minha vida nunca mais seria a mesma.

Era para eu ter ficado calado. Era para eu ter apagado aquele pesadelo da minha mente. Mas não consegui. Não pude. Por vinte anos, carreguei essa história comigo, sufocada, enterrada. Mas agora, aqui estou eu, com uma 12 carregada em minhas mãos, pronto para enfrentar o que quer que seja. Eles podem tentar me silenciar, mas não vão mais me assustar. Vou contar minha história, e quero ver o que eles vão fazer para impedir.

Porque, no final, o que vi naquela noite, o que senti, aquilo não era um delírio. Não era uma alucinação. Aquilo era real. E eles sabem disso. Eles sabem.

SOMBRAS DA NOITEOnde histórias criam vida. Descubra agora