Eu nunca fui de pedir nada a ninguém, e muito menos dinheiro. Isso nunca foi o meu jeito. Mas, às vezes, a vida empurra você para um beco sem saída. Eu tinha três crianças pequenas para criar sozinha, meu nome estava sujo no Serasa e a dívida era tanta que se você olhasse para o meu bolso, era como se ele tivesse sido consumido por um buraco negro. O pai das minhas crianças? Desapareceu no mundo, como um fantasma. Não deixou um centavo sequer, não se importou, não mandou um sinal de vida.
Os parentes? Bom, esses não me ofereciam apoio, só me julgavam. Diziam que tudo o que eu estava passando era castigo divino. Eu, que tinha me envolvido com gente que não valia nada. Que era um erro da minha parte. Que eu devia ter sido mais esperta. Mas esses parentes que se danassem. Eles não sabem de nada. Deus não castiga quem é pobre, não. Deus não me abandonou. Eu não sou beata, mas sempre tive fé. Não sei explicar, mas sempre acreditei que a vida poderia melhorar, mesmo quando tudo ao meu redor estava desmoronando.
Ainda assim, a realidade era implacável. Eu estava comendo o pão que o diabo amaçou. Tinha dias em que o medo de não conseguir alimentar as minhas filhas era maior do que qualquer outro. Mas nunca desanimei. Nunca. Eu não tinha o direito de desanimar. Elas precisavam de mim. Eu queria dar a elas uma vida digna. A vida estava me dando um soco atrás do outro, mas eu não ia cair. Então eu só tinha uma opção: arregaçar as mangas e seguir em frente. Trabalhei como doméstica. Meus braços sangravam de tanto esfregar, mas o dinheiro que ganhava nunca dava para cobrir as dívidas. O cartão de crédito estava mais sujo do que meu próprio nome. E o supermercado? Era um luxo que eu não podia pagar.
O Ministro da Economia, na televisão, dizia que a culpa de tudo aquilo era da inflação. Mas eu sabia que não era só isso. A inflação era só a cereja do bolo amargo. O que estava acontecendo era muito maior. Os ricos estavam ficando cada vez mais ricos e o resto de nós, bem, ficávamos ainda mais atolados na lama. E a política? Nem vale a pena discutir.
Eu estava com a corda no pescoço. A pressão era tanta que minha mente parecia estar sufocando. Até que soube de um sujeito, um tipo de "emprestador" que ninguém falava muito abertamente, mas todos conheciam. Ele emprestava dinheiro sem verificar o crédito, sem nenhuma burocracia. Um agiota. Diziam que ele era o "Cobrador" da cidade. Um nome que soava como um aviso. Mas a verdade é que eu não tinha escolha. Quando você está no fundo do poço, até a escuridão parece uma saída.
Fui atrás dele. O encontro foi em um escritório pequeno, com uma mesa de madeira antiga e um cheiro de cigarro no ar. Ele se levantou quando entrei. Alto, magro, com cabelo loiro claro e olhos azuis, quase frios, como se estivessem sempre olhando para algo distante. Ele me chamou de "princesa". Eu tentei sorrir, mas dentro de mim, me senti humilhada. Princesa, caralho. O que ele pensava que eu era? Uma mulher da alta sociedade? Não. Mas, naquele momento, nada importava.
– Precisa de quanto, princesa? – ele perguntou, com um sorriso que era mais uma ameaça disfarçada.
– Cinco mil – respondi, tentando esconder o pânico na minha voz.
Ele pegou uma gaveta, puxou um pacote de dinheiro e começou a contar as notas de cinquenta na minha frente. Eu não podia fazer nada, além de observar. O som das cédulas sendo empurradas uma sobre a outra parecia ainda mais insuportável do que o peso da minha dívida. Ele me obrigou a contar também.
– Não precisa, moço. Eu confio – falei, tentando manter a dignidade.
Ele não disse nada, mas olhou-me de cima a baixo, como se estivesse avaliando algo. Levantou-se, foi até um balcão e serviu um copo de uísque. Um copo cheio de líquido vermelho, como sangue. Não aceitei. Não bebia. Mas ele não parecia se importar. Engoliu tudo de uma vez, sem sequer fazer uma careta. Sentou-se de novo e começou a me explicar, num tom de quem já conhecia todos os meus medos. As taxas eram altas. Eu já sabia disso. A humilhação que viria se eu não pagasse, também. Ele falou das consequências. Eu sabia o que acontecia com as inadimplentes. Era algo que todos sabiam, mas ninguém ousava falar em voz alta.
Fiquei com aquele dinheiro. Paguei minhas dívidas e limpei meu nome. A sensação de respirar sem ser sufocada pelos juros foi momentaneamente boa. Mas, o tempo passou e chegou o dia que eu temia. O dia em que ele voltaria para cobrar. E ele veio.
Naquela manhã, o Cobrador apareceu na minha porta, com uma expressão fria e a mão no bolso. Eu tinha me esquecido. Eu havia comprado um celular novo para minha filha mais velha. E não tinha o dinheiro para pagar naquele momento.
– Semana que vem, sem falta – eu disse, tentando parecer confiante, mas meu corpo tremia. O medo me consumia.
Ele não hesitou. Não teve piedade. Sacou uma pistola da cintura e apontou diretamente para o meu rosto.
– Sabe muito bem que não é assim que funciona – ele disse, com a voz calma, como se estivesse explicando a algo trivial.
Eu comecei a suar frio. As palavras saíam com dificuldade.
– Mas... Isso não é justo – minha voz tremia, como uma folha ao vento.
Ele sorriu, um sorriso torto, que parecia um corte no rosto.
– A vida não é justa, princesa. Dívida é dívida.
Eu não tinha mais palavras. O medo era tão grande que eu senti que ia desmaiar. Minha mente ficou turva. Ele apertou a ponta da arma contra minha testa.
– Ou vem comigo... ou suas filhas vão ficar sem você a partir de hoje.
Aqueles olhos azuis fixaram-se em mim como se estivessem tentando extrair a minha alma. Eu sabia que não tinha escolha. Ele estava jogando seu jogo, e eu não podia perder. Pelo menos ele me deixou fazer uma última ligação. Fui até o telefone, com a sensação de que minha vida estava escapando por entre os dedos.
Liguei para uma amiga. Pedi para cuidar das minhas filhas por uma semana. Depois disso, fui levada para a casa do Cobrador. Não foi uma casa. Foi uma prisão. Eu fui sua prisioneira. Durante uma semana, ele me tratou como um objeto. Fui humilhada, espancada, e forçada a fazer tudo o que ele mandava. Não havia mais dignidade em mim. Não havia mais alma. Só um corpo, cumprindo ordens.
Mas eu não morri. Mesmo depois daquela semana, mesmo depois de tudo o que aconteceu, eu ainda estava viva. Quando fui libertada, não era mais a mesma. Eu tinha sido despedaçada, mas de alguma forma, ainda tinha um pedaço de mim.
E foi nesse estado de desespero que outra amiga veio até mim, com os olhos cheios de pânico.
– Amiga, me ajuda! – ela quase gritou.
– O que aconteceu? – perguntei, já temendo o que ela diria.
– Eu estou devendo até as calcinhas. Você conhece alguém que possa me ajudar?
Eu respirei fundo. Olhei para ela, tentando manter a calma.
– Sei sim – disse, com um sorriso que não era meu. – Sei sim.
E a gargalhada nervosa que ela segurava, era como o som de uma porta se fechando atrás de mim. Eu sabia exatamente o que ela precisava. E, pela primeira vez, senti que talvez eu pudesse dar a ela o mesmo inferno que eu vivera.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
