Caetano ficou parado no corredor de casa, ouvindo o som da água caindo no banheiro como se fosse um aviso constante, repetido, quase paciente demais para ser apenas água. A mãe estava lá dentro, de portas fechadas, e isso significava duas coisas ao mesmo tempo: segurança e oportunidade. Ele sabia que deveria estar quieto, sabia que o castigo ainda pesava como uma ordem invisível sobre os móveis da casa, mas o corpo dele não parecia entender essa lógica com a mesma firmeza. Era sempre assim, uma espécie de negociação silenciosa entre o que ele devia fazer e o que ele achava que conseguiria escapar sem consequências reais.
O castigo tinha sido por algo pequeno demais para justificar tanta prisão doméstica, pelo menos na cabeça dele. Uma mentira mal contada, uma resposta atravessada, talvez uma dessas coisas que adultos transformam em exemplo. Ele já tinha esquecido os detalhes com a conveniência típica da idade, mas lembrava bem do olhar da mãe quando ela decretou que ele ficaria em casa naquela tarde e naquela noite. Não havia discussão depois daquele olhar. Agora, porém, o som da água no banheiro criava uma janela de tempo, um intervalo onde ele não precisava ser exatamente obediente, só rápido.
Ele entrou no quarto sem fazer barulho, como se o próprio chão pudesse denunciá-lo. Pegou a camiseta vermelha que sempre escolhia quando queria se sentir mais confiante, aquela com o desenho desbotado de um herói que ele já não sabia explicar por que admirava tanto. Vestiu-a com pressa, mas não sem um segundo de hesitação diante do espelho pequeno do guarda-roupa. O reflexo devolveu um menino comum demais para qualquer história importante, e essa constatação sempre vinha acompanhada de uma leve irritação que ele não sabia nomear. Lá fora, ele pensava, os outros já estavam jogando bola. A rua de cima era um lugar que parecia sempre mais vivo do que a casa dele.
Ele encostou a testa de leve na janela antes de abrir a cortina. A rua estava começando a perder luz, e o céu tinha aquele tom que não era mais dia, mas ainda não era noite de verdade. Um meio-termo desconfortável. O tipo de luz que fazia tudo parecer um pouco mais distante do que deveria. Ele sabia que poderia dar a volta pela avenida principal, seguir o caminho seguro, mas isso significava cruzar o campo de visão da mãe quando ela saísse do banheiro, e ele não queria enfrentar aquela conversa de novo. Não hoje. Não quando o jogo estava acontecendo agora, sem ele.
Foi então que ele pensou na trilha atrás da casa. O terreno baldio sempre esteve ali, como uma espécie de vazio tolerado entre duas áreas mais organizadas do bairro. O mato crescia sem pedir permissão, alto o suficiente para esconder quase tudo, e os adultos falavam dele como se fosse um lugar naturalmente errado, não apenas abandonado. Caetano já tinha ouvido histórias suficientes para saber que não era um caminho recomendado. Mas também sabia que era o mais rápido. E, naquele momento, a velocidade parecia mais importante do que qualquer outra consideração vaga sobre segurança.
Ele esperou mais um pouco, contando mentalmente o tempo da água caindo no banheiro. Quando o som mudou ligeiramente, como se a torneira tivesse sido ajustada, ele entendeu aquilo como um sinal. Pegou o tênis, calçou com pressa e abriu a porta dos fundos com cuidado exagerado, como se o cuidado pudesse apagar a infração. O ar lá fora parecia mais frio do que ele esperava, e isso o fez hesitar por meio segundo, mas logo ele já estava descendo o pequeno desnível do quintal, indo em direção ao limite irregular do terreno.
O mato do terreno baldio não era apenas alto, era denso de um jeito que fazia o ar parecer mais pesado. Cada passo produzia um som seco, de folhas esmagadas e galhos pequenos quebrando sob o peso do corpo dele. No começo, ele ainda conseguia ouvir os sons distantes do bairro, algum grito de criança, talvez a bola quicando em outra rua. Isso o tranquilizava mais do que deveria, como se a existência de outras pessoas fosse uma garantia de que nada realmente ruim poderia acontecer naquele espaço intermediário.
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SOMBRAS DA NOITE
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