PONTO FINAL

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Ivan já não sabia ao certo por que aquele tipo de cerimônia sempre parecia durar mais do que deveria. A missa de sétimo dia tinha se arrastado por uma eternidade abafada dentro da catedral, cheia de gente silenciosa demais, gente que falava baixo como se qualquer palavra mais alta pudesse acordar algo que não devia. Quando saíram, o ar da rua não trouxe alívio; trouxe só mais peso, como se a cidade tivesse ficado mais úmida, mais escura, mesmo sendo apenas noite comum.

O ponto de ônibus estava lotado. Um amontoado de pessoas que pareciam todas ter a mesma pressa e, ao mesmo tempo, nenhuma vontade real de ir para casa. Ivan segurava o celular com as duas mãos, o brilho da tela iluminando o próprio rosto enquanto uma partida de Free Fire consumia sua atenção inteira, como sempre acontecia quando ele não queria pensar em mais nada. A mãe falava ao lado dele, mas sua voz parecia distante, como se viesse de dentro de um túnel.

— Entra pela porta de trás — ela disse, sem olhar direito para ele — que eu vou pela frente pagar.

Ivan apenas assentiu, sem levantar os olhos do jogo. Um "tá" automático saiu da boca dele, sem peso nenhum. Quando percebeu, já estava se enfiando no primeiro ônibus que abriu as portas, o de trás, o que parecia menos cheio. Sentou lá no fundo, ainda olhando a tela, sem notar que a mãe não tinha entrado junto.

O ônibus fechou as portas com um suspiro metálico e partiu.

Só alguns minutos depois ele percebeu o detalhe errado, aquele incômodo que começa pequeno e cresce devagar. Não havia a mãe. Não havia o barulho dela procurando um lugar, não havia sua presença irritada, nem mesmo a sensação de que ela tinha subido logo depois. Só o movimento contínuo do ônibus e pessoas demais que ele não tinha notado antes.

Ele perdeu a partida. Um tiro na cabeça. A tela ficou escura por um segundo antes de mostrar a derrota. Ivan xingou baixo, instintivo, mais por hábito do que por raiva real. Ao lado dele, uma garota riu.

Ele só então percebeu que havia alguém sentada ali.

Era pálida demais. Não só clara — havia algo de apagado nela, como se a luz da rua não quisesse tocar sua pele. Os olhos eram fundos, cansados, mas atentos demais. Ela parecia estar observando ele há muito mais tempo do que era possível.

— Parece que não foi seu dia de sorte, amiguinho — ela disse.

Ivan franziu o rosto, incomodado.

— É só um jogo.

— Tudo é só alguma coisa — ela respondeu, como se aquilo tivesse outro significado escondido.

Alguns passageiros viraram a cabeça ao mesmo tempo, devagar demais, como se não houvesse pressa em nada ali. Ivan sentiu um arrepio leve, mas ignorou. Aquilo era só gente estranha. Cidade grande tinha disso.

O ônibus entrou numa avenida que ele não reconhecia.

Ele olhou pela janela e esperou ver o rio da cidade, as luzes conhecidas, os prédios tortos de sempre. Mas não havia nada disso. Só uma névoa grossa, pesada, que parecia colada no vidro. O vidro vibrava de leve, como se o ônibus estivesse rodando por um tipo de estrada que não era bem estrada.

— Onde a gente tá? — ele perguntou, mais para si mesmo do que para alguém.

A garota sorriu sem mostrar os dentes.

— Você não sabe?

O nome dele na boca dela pareceu errado. Ivan sentiu um desconforto imediato, como se alguém tivesse mexido em algo dentro da cabeça dele.

Ele levantou rápido.

— Preciso descer.

Foi até a porta, puxou a cordinha. Nenhum som de parada. Nenhuma reação. Só o motor contínuo.

SOMBRAS DA NOITEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora