O ABISMO

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A chuva não parecia apenas cair naquele dia — parecia insistir, como se o mundo tivesse decidido pesar sobre tudo o que existia na superfície. Emily observava a cortina d'água descer pela entrada irregular da caverna, uma fenda aberta na rocha como uma ferida antiga que nunca havia cicatrizado. Havia algo de desconfortável na forma como a água desaparecia ali dentro, sem eco, sem resistência, como se o próprio Abismo engolisse o som antes que ele pudesse existir. Ela apertou mais forte a tira do equipamento no ombro e tentou ignorar a sensação persistente de que estava sendo observada, não por alguém específico, mas pela própria escuridão.

Atrás dela, a equipe se movia com eficiência ensaiada, checando lanternas, cordas, mosquetões. Pessoas experientes, treinadas para não hesitar, mas até os mais preparados tinham um tipo específico de silêncio quando encaravam aquela abertura no chão. Não era medo declarado. Era algo mais íntimo, mais difícil de nomear, como se cada um deles estivesse lembrando de coisas que não tinham vivido ainda. Emily percebeu isso e sentiu uma pontada de irritação consigo mesma por perceber. Ela precisava ser a mais firme ali. Não havia espaço para hesitação.

— Todos prontos? — sua voz saiu controlada, mas ela sentiu o esforço por trás dela, como se falasse de dentro de um lugar estreito demais.

— Sim — responderam, quase em uníssono, mais por hábito do que por convicção.

A descida começou como todas as outras já feitas antes em sua carreira, e esse pensamento foi o primeiro erro de Emily. O tipo de pensamento que o cérebro usa para se proteger do desconhecido. Mas o Abismo não se comportava como outras cavernas. Não havia familiaridade ali, apenas a ilusão dela, construída pelos primeiros metros relativamente estáveis. Logo o espaço começou a mudar, como se a rocha tivesse sido pressionada por mãos gigantescas em algum momento impossível do passado, criando corredores estreitos demais, ângulos errados demais, curvas que pareciam não obedecer à lógica da geologia.

As lanternas cortavam a escuridão com dificuldade crescente, e Emily começou a perceber algo que não anotaria em relatório nenhum: o som. Ou melhor, a ausência dele. Não havia o retorno esperado do som dos passos. Ele simplesmente desaparecia um pouco antes de voltar aos ouvidos, como se a caverna estivesse aprendendo a engoli-los aos poucos. Ela tentou racionalizar aquilo, tentou encaixar em algum fenômeno acústico, mas a explicação não se sustentava por muito tempo antes de escorrer mentalmente para outro lugar mais inquietante.

Conforme avançavam, a sensação de profundidade deixou de ser apenas física. Havia algo psicológico nela, como se a descida estivesse acontecendo também dentro da cabeça de cada um. Um dos membros da equipe, atrás dela, respirou de forma mais pesada do que o necessário, e Emily percebeu que ele estava contando os passos. Não por organização. Por necessidade. Como se a contagem fosse um fio que o mantinha preso ao que era real.

Quando chegaram à primeira grande câmara, a equipe parou por um instante. O espaço se abriu como uma revelação silenciosa, estalactites e formações minerais pendendo como estruturas antigas demais para serem confiáveis. A beleza ali não era reconfortante. Era invasiva. As superfícies brilhavam sob a luz artificial com um aspecto quase úmido, como se ainda estivessem em formação, como se a pedra nunca tivesse terminado de decidir o que queria ser.

Emily sentiu o impulso estranho de pedir para saírem dali imediatamente. Não havia nada concreto que justificasse isso. Apenas uma pressão interna, um desconforto crescente que não vinha de um único ponto, mas parecia se espalhar por tudo.

Eles seguiram.

E foi quando começaram a notar as primeiras irregularidades.

Marcas nas paredes. Não cortes naturais. Não erosão. Algo que lembrava dedos, mas não na forma humana correta. A distância entre elas era errada, como se a mão que as tivesse feito tivesse articulações demais ou nenhuma articulação definida. Um dos membros da equipe brincou, tentando aliviar o clima, dizendo que talvez fossem de exploradores antigos. Mas a própria voz dele não sustentou a piada. Morreu no ar antes de ganhar peso.

Mais fundo, o cheiro mudou.

Não era apenas umidade. Era algo mais antigo, algo que parecia ter sido esquecido ali por tempo demais para ainda ter identidade. Emily começou a sentir pequenas falhas na memória, segundos em que não lembrava exatamente o que havia acabado de ver, como se a própria atenção estivesse sendo puxada para outro lugar sem permissão.

Foi então que encontraram o corpo.

Não havia dramaticidade no momento. Não houve gritos imediatos. Apenas a interrupção brusca do movimento. O corpo estava parcialmente integrado ao ambiente, como se a caverna estivesse lentamente decidindo se o aceitava ou não. A decomposição não parecia seguir padrões normais. Era irregular, como se diferentes partes tivessem envelhecido em velocidades distintas.

Emily sentiu o estômago endurecer, mas manteve a postura. Não porque era forte, mas porque sabia que se quebrasse ali, algo pior aconteceria com todos.

— Não encostem — ela disse, mais para si mesma do que para o grupo.

Mas já era tarde. A sensação de estar sendo observado deixou de ser sensação.

Ela se tornou comportamento do ambiente.

O som veio depois.

Não um som claro. Não um rugido definido. Algo entre vibração e respiração, deslocando o ar de forma errada. A luz das lanternas pareceu oscilar sem motivo. Um dos membros da equipe virou-se rápido demais, como se tivesse sentido algo atrás dele, mas não havia nada visível. Ainda assim, todos sentiram a mesma coisa ao mesmo tempo: a caverna não estava vazia.

E então eles começaram a correr.

Não por comando. Por instinto.

O que se seguiu foi uma sequência de deslocamentos desesperados por corredores que pareciam se alterar conforme eram percorridos. Passagens que existiam em um momento deixavam de existir no seguinte. A sensação de orientação começou a falhar de forma coletiva, como se o espaço estivesse reescrevendo suas próprias regras.

Emily tentou manter o controle, mas percebeu algo pior: sua própria memória recente estava começando a falhar. Ela não conseguia mais ter certeza absoluta de qual caminho já haviam percorrido. Isso não era possível. E ainda assim estava acontecendo.

Um grito rompeu o grupo.

Alguém caiu.

Depois outro.

A equipe começou a se fragmentar não por decisão, mas por perda de continuidade. Cada pessoa parecia se tornar menos conectada às outras, como se a caverna estivesse desfazendo os vínculos entre elas.

Emily encontrou um deles preso em uma abertura estreita, a perna dobrada em um ângulo errado. O pânico no rosto dele não era apenas pela dor, mas pela compreensão de algo maior — a certeza de que ficar ali significava desaparecer não só fisicamente, mas de outra forma mais profunda.

— Você precisa me deixar — ele disse, sem olhar para ela.

— Eu não vou deixar você aqui — Emily respondeu, mas havia hesitação agora. Algo novo dentro dela. Algo que não estava ali antes.

O som voltou.

Mais perto.

E não vinha de uma direção. Vinha de todas.

Eles se arrastaram, puxaram, improvisaram. O tempo deixou de ser medido corretamente. Cada segundo parecia mais longo ou mais curto dependendo de como era lembrado depois.

Até que, de repente, houve luz.

A saída não surgiu como uma vitória. Surgiu como uma interrupção abrupta do pesadelo.

Eles emergiram na superfície como algo que não tinha certeza de ainda pertencer ao mundo. Caíram no chão, respirando como se o ar tivesse sido esquecido e recuperado à força. A chuva ainda existia, mas parecia diferente. Mais distante. Menos importante.

Emily ficou sentada por um longo tempo olhando para a abertura da caverna.

Algo dentro dela não tinha certeza de que todos haviam saído.

Ou de que ela mesma havia saído completamente.

E, pela primeira vez, ela percebeu que o verdadeiro horror não era o que tinham visto lá dentro.

Era a sensação de que o Abismo não tinha terminado com eles.

Apenas os havia deixado sair por enquanto.


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