Leo Barros tinha a sensação de que certas ideias só existiam enquanto estavam sendo tocadas. Se ele parasse por um segundo, elas morriam. Era por isso que insistia naquele fraseado há horas, como se a nota certa estivesse escondida dentro do próprio esforço.
O som do mar entrava pela janela aberta, constante demais, quase impessoal. Ele estava curvado sobre o violão quando Mirela surgiu atrás dele. Não anunciou presença. Nunca anunciava. Apenas chegou como se sempre tivesse estado ali.
O abraço veio leve, automático, como um hábito antigo. E ainda assim, quebrou alguma coisa dentro dele. O fio da melodia se rompeu na mente, como corda tensionada demais. Ele nem chegou a reclamar.
— Você ainda fica bravo quando eu te interrompo? — ela disse, rindo, já indo para a cozinha.
Leo soltou um ar pelo nariz, algo entre riso e cansaço.
— Não é isso... é que eu tava quase lá.
— Você sempre tá quase lá — ela respondeu, e havia carinho nisso, mas também uma familiaridade perigosa, como se já soubesse o final da frase dele antes dele mesmo.
Ela deu o beijo na nuca dele antes de sair. Pequeno, quente, automático. Depois começou a cantarolar alguma coisa — provavelmente uma música antiga dele. Isso sempre acontecia. Mirela tratava as músicas dele como se ainda fossem parte da casa, como talheres ou móveis.
Ele ficou alguns segundos sem retomar o violão. Olhou para as próprias mãos como se não confiasse nelas. Havia uma melodia insistindo na cabeça dele há meses, mas sempre que tentava agarrá-la, ela escorregava. Não era falta de talento. Era outra coisa. Uma hesitação que ele não sabia nomear.
"Você não merece mais isso", uma parte dele dizia, sem voz, mas com insistência suficiente para incomodar.
Lá fora, o mar seguia igual. Azul, indiferente, paciente demais.
Ele voltou ao instrumento.
Foi quando ouviu o baque.
Não houve aviso. Só o som seco, humano, final. Leo demorou um segundo para entender o que aquilo significava. Depois, tudo nele se moveu de uma vez.
— Mirela? — ele chamou, já se levantando.
A cozinha parecia pequena demais quando ele entrou. Ela estava no chão, de lado, imóvel de um jeito que não combinava com ela. A panela ainda no fogão, o café quase subindo. Um absurdo doméstico preso no meio de alguma coisa muito maior.
— Ei... para com isso — ele disse, baixo, como se estivesse repreendendo um mau hábito. Agachou ao lado dela. — Isso não tem graça.
Ele tocou o ombro dela. Esperou resposta. Não veio.
A respiração dela estava lá, mas errada. Fraca. Irregular.
— Não, não, não... — ele repetiu, mais para si do que para ela.
Pegou o celular com dedos que não obedeciam direito.
— Emergência? Eu preciso de uma ambulância... agora.
A voz do outro lado fazia perguntas. Ele respondia sem pensar, olhando para Mirela como se ela pudesse mudar de ideia.
Quando desligou, ficou parado por alguns segundos. O tipo de silêncio dentro da casa parecia diferente. Mais pesado. Como se algo tivesse entrado ali e ainda não tivesse encontrado saída.
Ela abriu os olhos por um instante enquanto ele segurava sua mão.
— Leo... — a voz dela saiu baixa, quebrada, como se viesse de muito longe.
— Tô aqui — ele respondeu rápido demais. — Fica comigo, tá ouvindo? Fica comigo.
Ela tentou sorrir, mas não conseguiu terminar.
— Você tá... tremendo — ela disse.
Ele olhou as próprias mãos só então. Estavam mesmo.
— É só susto — ele mentiu, sem convicção nenhuma.
A ambulância chegou com eficiência cruel. Tudo muito organizado. Muito tarde.
No hospital, as palavras vieram limpas demais para o estrago que causavam.
— Lúpus... em estágio avançado — a médica disse.
Leo ficou alguns segundos sem responder. Depois soltou uma risada curta, sem humor.
— Isso... isso não apareceu do nada.
A médica o encarou com calma treinada.
— Os sintomas estavam lá. Mas a progressão foi agressiva.
Ele sentiu um vazio estranho no estômago, como se o corpo tivesse esquecido uma função básica.
— E agora? — ele perguntou.
A médica hesitou só o suficiente para ser resposta.
— Não há tratamento reversível neste estágio. Podemos apenas...
Ela não terminou. Não precisava.
Mais tarde, sozinho no corredor, ele encostou a cabeça na parede fria. O som do hospital parecia distante, como se viesse debaixo d'água.
Ele sussurrou, quase sem perceber:
— Você sempre falou que não ia dar nada errado com você...
E a frase ficou no ar sem resposta, como tudo o resto.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
