Ana acordou com a sensação de que não estava sozinha, embora soubesse, com a parte racional da mente que ainda insistia em funcionar mesmo nas manhãs ruins, que isso não fazia sentido. Era sempre assim desde que se mudara para o apartamento 283, um lugar pequeno demais para qualquer conforto real, com paredes finas que deixavam passar a vida dos outros como ruídos infiltrados dentro da própria cabeça. O aluguel barato tinha parecido uma bênção no começo, o tipo de oportunidade aceita sem perguntas quando as contas começam a se acumular e o futuro deixa de ser promessa para virar ameaça. Agora, olhando para o teto rachado naquela manhã cinzenta, Ana tinha a sensação de que o preço real daquele lugar ainda não tinha sido cobrado.
O relógio marcava 6h30, e isso bastava para transformar o dia em um desastre em potencial. A entrevista de emprego era sua última tentativa de reorganizar a própria vida antes que tudo desabasse de vez, e cada segundo perdido parecia empurrá-la um pouco mais na direção do inevitável. Ela bebeu o café às pressas, sem sentir o gosto, vestiu-se com a pressa de quem já está atrasado antes mesmo de começar e foi direto até a bancada onde sempre deixava a chave do carro. Mas a chave não estava lá.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas suficiente para mudar o ritmo da manhã.
— Não, não, não... — ela murmurou, já abrindo gavetas, revirando objetos, movendo coisas sem ordem nem lógica, como se a chave pudesse estar escondida por pura maldade.
O apartamento parecia menor do que de costume. Ou talvez fosse ela que estivesse ficando grande demais para ele. Cada canto parecia guardar uma intenção oculta, cada sombra parecia mais densa do que deveria. Ana procurou na mesa, no sofá, na cozinha, entre roupas acumuladas, dentro de bolsas vazias, até mesmo no banheiro, como se a chave tivesse ganhado vontade própria e decidido brincar com ela.
Foi então que percebeu o som.
Não era exatamente um som, pensou primeiro. Era mais como uma presença acústica, algo que não vinha dos ouvidos, mas de algum lugar atrás do pensamento. Um murmúrio baixo, irregular, quase como palavras tentando nascer dentro das paredes.
Ela parou por um instante, respirando devagar.
— É só nervoso — disse em voz alta, tentando dar forma à própria coragem. — Só isso.
Mas a lembrança do zelador voltou como um incômodo antigo.
Ivan tinha hesitado quando ela assinou o contrato, evitando olhar diretamente para o apartamento como quem evita encarar uma ferida aberta. Havia dito, quase sem voz, que as pessoas não ficavam muito tempo no 283. Quando Ana perguntou por quê, ele demorou demais para responder, e isso deveria ter sido suficiente para que ela desistisse. Mas não desistiu. Ninguém desiste quando está tentando sobreviver.
— Não é um lugar fácil — ele dissera por fim. — As pessoas... ficam mal aqui.
— Mal como? — ela tinha insistido, já irritada.
Ivan olhou para o chão antes de responder.
— Elas não saem iguais.
Na época, Ana riu disso. Agora não tinha mais certeza de por quê.
O frio veio de repente, como se o apartamento tivesse se lembrado de algo e decidido demonstrar isso. O ar ficou mais pesado, mais denso, e a sensação de estar sendo observada se transformou em certeza, uma certeza física, quase tátil. Ana virou-se devagar, sentindo o corpo reagir antes da mente.
— Tá bom — ela disse, tentando controlar a voz. — Se isso é alguma brincadeira de vizinho, não tem graça.
O silêncio respondeu primeiro.
VOCÊ ESTÁ LENDO
SOMBRAS DA NOITE
TerrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
