MALDITA LUA CHEIA

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Eusébio não conseguia dormir havia noites que já não sabia contar com precisão. O corpo dele parecia ter desaprendido o descanso, como se o próprio chão onde se deitava — concreto frio, poeira fina, restos de cidade esquecida — rejeitasse qualquer tentativa de conforto. Ele virava de um lado para o outro entre sombras e ruídos distantes de carros, sentindo os músculos sempre tensos, como cordas prestes a arrebentar, e a pele impregnada de suor velho e sujeira acumulada. Às vezes, quando o vento mudava de direção, vinha um cheiro de lixo úmido e maresia distante, e isso lhe trazia uma inquietação que ele não sabia explicar, como se algo dentro dele reconhecesse aquilo de forma antiga demais para ser nomeada. Ele mantinha os olhos semicerrados, não exatamente acordado, não exatamente dormindo, preso naquele estado em que a mente começa a falhar e a realidade parece levemente deslocada do lugar onde deveria estar.

Foi nesse estado que ele viu o reflexo quebrado.

Uma vidraça estilhaçada, encostada no muro ao lado de onde se deitava, devolvia uma imagem fragmentada dele mesmo, pedaços de rosto e sombra se encaixando de maneira errada. Por um instante, ele teve a impressão de que não era apenas o vidro quebrado que distorcia sua forma, mas algo mais profundo, como se o próprio Eusébio estivesse sendo observado de dentro de uma versão ligeiramente diferente de si. Ele piscou devagar, tentando afastar a sensação, mas o desconforto persistiu. A cada respiração, seu peito parecia mais pesado, como se algo interno pressionasse contra a pele, não para sair de uma vez, mas para testar limites, como dedos pressionando a parte de dentro de uma parede fina. Ele fechou os olhos com força, mas o reflexo continuou ali, mesmo sem ser visto diretamente, como uma lembrança que não precisava de visão para existir.

Houve um tempo em que Eusébio tinha outra vida, e isso era o tipo de pensamento que surgia sem aviso, não como memória clara, mas como sensação. Ele se lembrava de uma mesa de cozinha, de uma voz chamando seu nome com familiaridade, talvez uma mulher, talvez uma criança, talvez as duas coisas misturadas pelo desgaste do tempo. Lembrava-se de mãos pequenas segurando sua roupa, de um cansaço que fazia sentido, de um tipo de dor que ainda tinha função. Agora, tudo aquilo parecia distante como se tivesse acontecido com outra pessoa que, por algum motivo inexplicável, deixara sua pele para trás. Ele não sabia quando exatamente tinha deixado de ser aquele homem e começado a ser outra coisa. Só sabia que havia noites — como aquela — em que o passado parecia uma porta mal fechada, batendo de leve com o vento.

A lua cheia estava alta o bastante para parecer próxima demais, não como um corpo celestial, mas como um olho fixo, paciente, observando sem piscar. Eusébio evitava olhar diretamente, mas sentia sua presença mesmo assim, infiltrada na luz que caía sobre o chão, nos contornos duros das coisas, na forma como as sombras pareciam mais definidas do que deveriam ser. Ele odiava aquela luz. Não por beleza ou simbolismo, mas por uma certeza irracional de que ela o conhecia. Havia noites em que ele tinha a impressão de que a luz não apenas iluminava o mundo, mas o empurrava para fora de si mesmo, como se estivesse ajudando algo interno a emergir, algo que ele não conseguia mais manter completamente contido. Ele fechou os olhos mais uma vez, tentando se convencer de que o cansaço era apenas cansaço, mas o corpo não aceitava essa explicação.

Foi quando ouviu os passos.

Não eram passos apressados de quem tem medo, nem passos cuidadosos de quem tenta passar despercebido. Eram passos de quem não pensava muito no próprio movimento, acompanhados de risadas altas, fragmentadas, quebrando o silêncio como vidro sendo esmagado lentamente. Eusébio abriu os olhos devagar, sem se mover, e viu as sombras se aproximando pela rua mal iluminada. Eram jovens, cinco ao todo, se movendo como se a cidade lhes pertencesse por direito automático, ocupando o espaço sem hesitação. O cheiro veio antes das palavras: álcool, fumaça doce, algo queimado que lembrava fuga. Ele não se mexeu, não porque não pudesse, mas porque alguma parte dele já sabia o que aquilo significava. Sempre significava a mesma coisa.

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