Esmael desceu as escadas com a pistola na mão como se aquilo fosse uma extensão natural do próprio corpo, algo que ele sempre deveria ter carregado desde a infância e que finalmente, naquele dia, fazia sentido. A casa estava silenciosa de um jeito estranho, não um silêncio confortável, mas aquele tipo de ausência de som que parece esperar alguma coisa acontecer, como se as paredes também estivessem prestando atenção nele. Ele tentou organizar os pensamentos enquanto caminhava, mas eles vinham em blocos desconexos, como se alguém tivesse revirado sua mente durante a noite e deixado tudo fora de ordem, e o mais perturbador era a sensação de que aquilo não era novo, apenas mais intenso do que antes.
Na cozinha, ele ouviu vozes. A mãe conversava com a empregada como se fosse um dia qualquer, como se o mundo não estivesse prestes a quebrar em pedaços. Por um segundo, Esmael quase conseguiu se lembrar de uma época em que aquilo tudo fazia sentido, em que ele também era só alguém comum naquela casa, mas a lembrança veio contaminada por uma irritação antiga, uma mistura de humilhação e rejeição que ele nunca conseguiu nomear direito. A pistola pesava na mão como uma decisão já tomada por outra pessoa dentro dele.
Quando a mãe o viu, o rosto dela mudou imediatamente. Não foi apenas medo; havia algo mais profundo, uma espécie de reconhecimento dolorido, como se ela estivesse vendo não o filho, mas uma versão dele que já tinha sido prevista há muito tempo e que ninguém conseguiu impedir. A boca dela abriu, mas as palavras demoraram a sair.
— Esmael... o que você está fazendo?
Ele tentou responder com algo firme, algo que soasse como controle, mas a voz saiu carregada de uma tensão que ele mesmo não reconhecia completamente.
— Você não entende... ninguém entende.
A empregada se afastou devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar a realidade. A mãe deu um passo à frente, instintivo, como se ainda existisse uma forma de protegê-lo de si mesmo. Esse gesto, mais do que qualquer outra coisa, foi o que fez algo dentro dele endurecer.
Ele não sabia dizer depois se apertou o gatilho por raiva ou por medo. Só sabia que o som foi mais alto do que imaginava, mais definitivo, e que por um instante tudo pareceu suspenso, como se a própria casa tivesse prendido a respiração junto com ele. A mãe caiu sem dramatização, sem palavras finais que resolvessem alguma coisa, apenas um colapso humano simples e irreversível.
E então o mundo começou a se abrir em reação.
O vizinho apareceu primeiro, o homem da igreja, o tipo de pessoa que sempre parecia maior quando estava com raiva ou convicção. Ele não gritou de imediato; primeiro olhou, como se precisasse confirmar que aquilo era real. Esse segundo de hesitação foi suficiente para Esmael sentir algo próximo de pânico, mas não um pânico claro — era mais como se ele estivesse assistindo a si mesmo de fora, sem controle total do corpo.
— O que você fez? — o homem disse, e havia horror genuíno ali, não teatral, não moralista, apenas humano.
Esmael tentou falar algo, mas as palavras saíram quebradas, atravessadas por uma lógica interna que já não fazia sentido fora da própria cabeça.
— Ela... vocês não entendem...
O homem avançou, talvez para tentar tomar a arma, talvez para tentar salvar o que ainda podia ser salvo naquela situação impossível. O impacto entre os dois foi rápido, confuso, e terminou com mais um som seco que pareceu errar o próprio significado. A esposa do homem apareceu atrás dele segundos depois, e tudo o que veio depois começou a perder nitidez para Esmael, como se a realidade estivesse ficando mais distante, mais difícil de segurar com os olhos.
Ele recuou sem perceber que estava recuando. A casa, o bairro, o ar ao redor dele pareciam diferentes agora, como se tivessem sido levemente deslocados de sua posição original. As pessoas gritavam, mas os gritos chegavam abafados, como se viessem debaixo d'água. A sensação mais forte não era de vitória ou controle, mas de uma estranha solidão crescente, como se cada ação dele estivesse apagando possibilidades do mundo em vez de afirmar alguma coisa.
Na rua, o parque parecia o único lugar que ainda tinha vida contínua. Crianças brincavam sem saber que algo havia mudado no tecido invisível do dia. Esmael caminhou até lá com a arma escondida parcialmente, não por estratégia consciente, mas porque parte dele ainda queria parecer normal, ainda queria pertencer a alguma coisa que não estivesse se desfazendo.
Ele procurava uma pessoa específica. Um nome que parecia maior na mente dele do que deveria ser. Mas quando finalmente viu a figura dela entre outras pessoas, algo não encaixou como deveria. Não era só ela que parecia distante; era como se o mundo inteiro tivesse começado a observá-lo de volta.
A aproximação foi lenta. O coração dele batia forte demais, não como coragem, mas como desorganização. Ele tentou lembrar por que aquilo tudo fazia sentido, mas as justificativas já estavam desbotando, como tinta exposta à chuva. Quando alguém tentou intervir, um homem uniformizado que parecia estar no lugar errado na hora errada, Esmael reagiu antes de pensar, e o pensamento só veio depois, atrasado, como sempre vinha.
O som seguinte não trouxe satisfação. Não trouxe alívio. Só uma confirmação vazia de continuidade.
E foi nesse ponto que algo começou a mudar de verdade dentro dele.
Porque não havia mais raiva clara. Nem direção. Nem narrativa interna coerente. Apenas fragmentos: memórias da infância que não pareciam mais pertencer a ele, frases soltas que ele nunca tinha dito em voz alta, e uma sensação crescente de que ele estava sendo empurrado por uma força que não era exatamente externa nem interna, mas algo entre as duas coisas.
Quando finalmente encontrou quem procurava, não havia triunfo na cena. Só exaustão. O mundo ao redor parecia mais silencioso agora, como se tivesse reduzido o volume para observar o que ele faria em seguida. A pessoa à frente dele tremia, não apenas de medo, mas de incompreensão total, como se estivesse olhando para alguém que já não cabia dentro das regras normais da existência.
Ele tentou falar. Dessa vez, a voz saiu menor.
— Eu só... eu só queria...
Mas ele não sabia completar a frase. E isso foi o mais assustador de tudo.
A resposta que veio não teve grandiosidade. Não teve discurso. Foi apenas uma reação humana, rápida, instintiva, desesperada, e o mundo de Esmael finalmente perdeu seu eixo de forma definitiva.
O que veio depois não ficou registrado na mente dele como eventos separados. Apenas como uma sequência de impactos, quedas e uma estranha sensação de leveza crescente, como se ele estivesse se afastando de si mesmo e deixando algo para trás que não sabia mais reconhecer.
Quando tudo terminou, o parque parecia diferente, não destruído de maneira espetacular, mas alterado de forma irreversível, como uma fotografia que foi dobrada no lugar errado. O silêncio voltou aos poucos, não como paz, mas como esgotamento.
E então havia apenas a presença restante.
Sentada, imóvel, respirando com dificuldade, como se estivesse tentando entender se ainda fazia parte do mesmo mundo, ou se tinha sido empurrada para fora dele por alguma coisa que não tinha nome claro.
Ela não parecia vitoriosa.
Parecia apenas viva.
E isso, de alguma forma, era pior do que qualquer outra coisa.
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SOMBRAS DA NOITE
TerrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
