Ele acordou antes do despertador, como vinha acontecendo havia semanas, talvez meses, embora já não confiasse mais na própria noção de tempo. Havia um gosto metálico na boca, como se tivesse dormido com uma moeda sob a língua, e o quarto parecia levemente fora de lugar, não deslocado de forma óbvia, mas como uma fotografia mal revelada em que as bordas não fecham direito. O professor ficou deitado alguns segundos a mais, encarando o teto branco com pequenas fissuras que pareciam mais profundas do que deveriam ser, tentando decidir se aquilo era apenas mais uma manhã ruim ou se havia algo que tinha vindo durante a noite e deixado marcas invisíveis.
Ele se chamava Augusto, professor de História em uma universidade estadual, homem de rotina rígida e ceticismo treinado por anos de leitura e salas de aula cheias. Ainda assim, nos últimos tempos, o ceticismo vinha falhando nos detalhes. Pequenas coisas. Objetos mudando de lugar. Um caderno aberto em páginas que ele não lembrava de ter escrito. E aquela sensação persistente de que alguém, ou alguma coisa, o observava mesmo quando estava sozinho no apartamento. Ele se levantou devagar, sentindo uma fisgada leve atrás dos olhos, como se tivesse sido examinado por dentro. Evitou o espelho do corredor por alguns segundos a mais do que o necessário.
Na cozinha, a cafeteira fez seu trabalho com uma normalidade quase insultante. Augusto se apoiou na pia enquanto esperava, olhando para o vapor subir como se ali pudesse haver alguma resposta. Pensou na última aula que dera, sobre civilizações antigas, sobre como o ser humano sempre tentava organizar o caos em narrativas compreensíveis. Lembrou-se de ter parado no meio de uma explicação sem motivo claro, perdido por alguns segundos em uma imagem que não pertencia a nenhum livro: um céu escuro demais, atravessado por formas geométricas que não deveriam existir. Ele não mencionara isso a ninguém. Nem aos alunos. Nem a si mesmo, na verdade.
O café ficou pronto, e ele bebeu sem sentir o gosto direito. Havia também os sonhos, ou o que quer que fossem. Não eram sonhos completos, mas fragmentos desconexos, como se alguém tivesse recortado pedaços de um filme antigo e os embaralhado. Luzes frias. Um zumbido constante que parecia mais sentido nos ossos do que ouvido pelos ouvidos. E presença. Sempre presença. Algo que não falava com voz, mas se infiltrava direto na mente, como se o pensamento dele não fosse mais inteiramente dele.
"Você nunca esteve sozinho."
A frase não vinha em palavras exatas, mas em uma certeza incômoda que surgia no meio de qualquer pensamento comum, como uma mão gelada apoiada no ombro.
Na universidade, Augusto tentou manter a rotina. Entrou na sala de aula, cumprimentou os alunos com a naturalidade ensaiada de sempre, abriu o material. Falou sobre impérios, guerras, transições culturais. Sua voz soava distante para ele mesmo, como se pertencesse a outro homem mais estável. Em determinado momento, enquanto explicava algo sobre mudanças históricas e epidemias do passado, teve um breve apagão mental. Não desmaiou. Apenas... saiu de si por alguns segundos.
Quando voltou, estava olhando para o próprio caderno sem saber o que tinha escrito ali. Havia palavras que não reconhecia, datas que faziam sentido e ao mesmo tempo não faziam. Um dos alunos o observava com leve estranhamento.
— Professor... o senhor está bem? — perguntou uma jovem na primeira fileira.
Augusto piscou, forçando um sorriso que não encaixava no rosto.
— Sim. Só... uma lembrança ruim.
Mas ele sabia que não era isso. Lembranças não vinham com aquela sensação de terem sido implantadas.
Depois da aula, no corredor vazio, ele apoiou a mão na parede fria e fechou os olhos. Por um instante, teve a impressão absurda de que o prédio inteiro respirava lentamente. Não como metáfora. Como organismo. Abriu os olhos de imediato, irritado consigo mesmo, mas o sentimento não passou. Pelo contrário, parecia ter encontrado mais espaço dentro dele.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
