NÃO ESTAMOS SOZINHOS

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...Nós nunca estivemos sozinhos

Não era a primeira vez que me abduziam. E somente o Senhor sabe o que aquelas aberrações alienígenas fizeram com meu corpo. Eu já não era o mesmo. Estou escrevendo este breve relato por que estou quase morrendo, tenho poucos dias de vida. E sei que logo vão voltar.

Eu quase nunca me lembro do que eles fazem comigo. Eles veem sorrateiros a noite e levam para suas naves em forma de bumerangues. Eles nunca estão sozinhos. São magros, cinzas, olhos enormes e profundamente malignos. Na imensidão daqueles malditos olhos me perco na minha pequinês e insignificância.

Eles nunca falam. Não exatamente com palavras ou sinais, como os terráqueos fazem. Eles se comunicam com algum tipo de mecanismo muito mais avançado. Eu ousaria chamar de telepatia. Eles falam em minha mente, revelando-me enigmas do passado, mas que eu nunca consigo registrar completamente suas informações. Tudo passa em minha mente como num filme frio e em preto em branco, como se eu ainda estivesse nos anos 60.

A história da humanidade em apenas alguns minutos. Em toda minha carreira docente como professor universitário de História jamais pude vislumbrar tamanha autenticidade e nitidez dos fatos narrados de nossa história. Como já disse, não sou capaz de registrar tudo, apenas vagos fragmentos. Por isso me recordo vagamente de algumas lembranças, como cenas rodadas em minha mente. Os fatos revelados vão desde a era das cavernas, passando pelas civilizações antigas do mediterrâneo, por Grécia, Roma, Constantinopla. Os reinos bárbaros da idade média. Os francos. A renascença. Tudo que estava por tras das grandes revoluções, guerras e pestilências. Desde a Peste Negra até a Gripe Espanhola. Das Guerras Mundiais às Guerras Frias da atualidade. Tudo, em poucos minutos. Sinto meus neurônios ferverem e minhas veias dilatarem.

Eles tentavam me explicar o porquê daquilo tudo. Eu conhecia as causas, mas sob a ótica daqueles seres, todos aqueles eventos históricos pareciam ganhar outro sentido.

Então eles me levaram até a lua e me contaram sobre o segredo de seu lado escuro. O que os humanos ali encontraram e por conta disso, jamais poderão voltar. Depois me levaram até a orbita da Terra e ali completei meu mundo. Parecia que aquelas criaturas tinham grande preocupação com este planeta. Mas diziam eles, não era o único a abrigar vida. Perguntei se algum dia nossas civilizações se comunicariam e eles ficaram preocupados pois a raça humana ainda não estava preparada para conhecer todos os mistérios do vasto e infinito universo. E que talvez não estaríamos nem mesmo preparados para um evento futuro que estava por vir, que segundo eles dizimariam mais que metade da vida em nosso planeta. "Vocês não estão sozinhos. Vocês nunca estiveram sós", o tempo todo este mantra martelava em minha mente.

Então eu vi um pó negro que eles jogavam de sua nave sobre a terra, como detritos de algum meteoro. Eles me explicaram que aquilo eram a cura para o mal que estava por vir. E que eles ao longo das eras estavam semeando sobre nosso mundo para que nosso corpo, mente e dna pudessem serem modificados para superar o maior perigo que a humanidade teria que enfrentar. Mas que muitos teriam que morrer. Apenas alguns sobreviveriam aos testes que eles estavam fazendo. Foi au que entendi, mesmo sem ser biólogo ou muito menos astrônomo, que os vírus, bactérias e outros microrganismos perigosos vinham deles, os alienígenas.

Assim eles diziam, mas eu suspeitava de suas intenções. Havia uma crueldade deliberada em todas as suas ações. Aquilo tudo era perturbador. Não sei até onde poderei aguentar tudo isso. Estou partindo para algum lugar. Me isolar. Me proteger destes malditos alienígenas. Mas eles sempre vêm. Eles sempre me acham. Só há uma forma de acabar com tudo isso. Com toda esta loucura. Porque diabos isto seria verdade? Não tem como ser. Não pode ser verdade.

Existe uma grande ponte em minha cidade. Estou criando coragem para ir até lá. Deus me ajude. Não quero ter que fazer isso, mas talvez não haja cura ou solução para minha paranoia. Não estamos sozinhos. Acho que nunca estivemos sozinhos...

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