Eu morava com minha avó desde que me conhecia por gente. Ela nunca falava sobre meu pai, nem sobre minha mãe. Não havia fotos, não havia lembranças, e eu nunca soubera por que. As poucas vezes em que perguntei, ela simplesmente desviava o olhar, mudava de assunto ou dava uma risadinha forçada, como se fosse algo que não se tocava, algo que não deveria ser tocado. E eu respeitava isso, sem realmente saber por quê.
A única coisa que eu sabia, de forma visceral, era que o cabelo da minha avó era negro. Negros como carvão. Mais negros do que a escuridão que eu sentia, mais negros do que o vazio que havia em mim, a cada noite que passava sem respostas. Sempre tão brilhante e sedoso, aquele cabelo. Ela dizia que os cabelos da família eram especiais, mas eu nunca acreditei nisso. O que eu acreditava é que a casa onde morávamos, uma mansão antiga e imensa, tinha algo de estranho. Algo sombrio. Era grande demais para só nós dois. Era um lugar feito de segredos, e eu sentia isso nos cantos, nas sombras, nas escadas rangendo quando o vento passava.
— Não vá no porão, nunca. — Ela sempre dizia isso. E, a cada vez que me falava, sua voz parecia mais grave, mais urgente.
Eu nunca questionei. Não precisava. As portas e as correntes que trancavam o porão eram suficientes para me dar calafrios. Aquela sala cheia de escuridão era a coisa que eu mais temia. O porão era um lugar proibido, e a palavra de vovó era a lei. Eu nem ousava pensar no que poderia estar lá embaixo. E, por mais que a casa fosse grande, e por mais que eu estivesse cada vez mais curioso sobre o que havia no porão, havia uma voz interna que me dizia: não vá. O medo estava em mim, mas também estava na casa. Aquela mansão, com seus corredores longos, seu perfume de madeira velha e mofo, sua solidão sufocante. A casa era viva, eu podia sentir. Algo espreitava nos cantos, em silêncio.
Uma noite, acordei com a garganta seca. A cama estava quente demais, e meu corpo estava pegajoso, a pele grudada no lençol como se alguém tivesse posto uma manta de calor sobre mim. Levantei-me com dificuldade, tentando não acordar a vovó. Ela estava lá, deitada de bruços, com a barriga estufada para cima, roncando pesadamente. O som que ela fazia era como um trator enguiçado. Respirei fundo e passei pela porta do quarto dela, a madeira rangendo sob os meus pés. A casa parecia ainda mais estranha à noite, mais distorcida, como se a própria escuridão tivesse consciência.
Desci as escadas com passos rápidos, quase como se fosse impossível de fazer mais devagar. A geladeira estava fria, e os sons da casa se misturavam ao som da minha respiração apressada. Peguei uma garrafa de água, mas, para minha surpresa, o gosto da sede não se foi. Eu bebi mais e mais, e a sensação de secura não passava. Algo estava errado, mas eu não sabia o que.
Foi então que o barulho veio.
Um som metálico, como correntes sendo estilhaçadas, uma porta se rompendo. O som veio de baixo. Do porão.
Eu congelei. Meu estômago se revirou. Olhei para trás, como se esperasse ver vovó saindo de seu quarto e mandando que eu voltasse para a cama, mas nada aconteceu. O silêncio da casa foi de repente pesado. Eu olhei para a porta do porão, aquela porta enorme, com os cadeados quebrados e espalhados pelo chão, e o medo tomou conta de mim como uma onda que não poderia parar. Eu sabia que ela estava aberta.
E então, como se fosse uma coisa natural, meu corpo agiu sozinho. Corri pelas escadas, três degraus de cada vez, com o som dos meus próprios passos ecoando como trovões. O corredor parecia mais longo do que o normal. Tudo parecia mais distante. Eu corria para me esconder, mas algo lá atrás estava me puxando, me chamando. Quando cheguei ao final, a porta do quarto de vovó estava entreaberta.
E então eu vi.
Uma figura. Uma mulher, pálida como uma folha de papel sujo, com cabelos negros que se estendiam como correntes de noite. O vestido dela estava rasgado, podre, mas flutuava no ar, como se fosse feito de neblina. Ela estava parada sobre a cama de vovó, com a barriguinha enorme para cima, roncando tão fortemente que eu não podia ouvir nada mais. Mas a figura não estava lá para dormir.
— Mãe?! — A palavra escapou da minha boca antes que eu pudesse parar.
A mulher virou a cabeça lentamente. Mas não havia um rosto. Só a ausência. O vazio onde um rosto deveria estar, como se a carne tivesse sido arrancada da sua face e deixado só o espaço para o nada. O olhar dela estava em mim, e eu soube naquele instante, sem dúvidas, que aquele não era o meu lugar.
Ela silvou. Um som baixo, como o sussurro do vento. E então, a figura começou a flutuar na minha direção, sem tocar o chão, seus pés suspensos, deixando um rastro de frio.
Eu não sabia o que fazer. Fiquei paralisado.
Quando finalmente consegui me mover, foi com a força de um pânico que me arrastou para longe. Fechei a porta do quarto de vovó, sentindo o peso da madeira contra a minha mão trêmula. E corri, corri como nunca antes. As escadas pareciam intermináveis, os degraus altos demais para minha idade. Cheguei ao meu quarto, pulei para a cama e me cobri com o cobertor, os dentes batendo, o corpo suando frio.
Foi então que lembrei.
Eu não tinha fechado a janela.
O vento que entrou era gélido. E eu sabia, com a mesma certeza com que sei que ainda estou vivo, que o que quer que estivesse na casa, aquilo que vovó jamais falava, ainda estava lá. E agora, ele sabia onde eu estava.
E no silêncio, eu pude ouvir, bem baixinho, a risada dela. A risada que nunca ouvi antes. E a janela continuava aberta.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
